Técnica que inverte o ciclo da videira acompanha alta de 23,7% nas exportações brasileiras de vinhos no primeiro semestre
A vitivinicultura de altitude ganha força no Centro-Oeste do Brasil, em vinhedos que chegam a 1.172 metros de elevação. Produtores da região adotam a dupla poda, manejo que inverte o ciclo natural da videira e permite colher uvas durante o inverno seco, entre junho e agosto.
O avanço da técnica acompanha um momento de expansão do setor. As exportações brasileiras de vinhos e espumantes cresceram 23,73% no primeiro semestre de 2026, somando US$ 6,79 milhões e alcançando 79 países, segundo dados do Wines of Brazil.
No mercado interno, o cenário também é favorável. O consumo brasileiro bateu recorde em 2025, com 4,4 milhões de hectolitros, alta de 41,9%, enquanto o consumo mundial recuava, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV).
Mercado brasileiro ganha espaço diante de rivais sul-americanos
Os números de exportação e consumo interno reforçam um movimento de amadurecimento do setor vinícola nacional, que busca ampliar presença tanto dentro quanto fora do país. A leitura é de Paulo Vasconcellos, diretor de Tecnologia da Mira Artis, desenvolvedora do aplicativo Tchin Tchin.
“Os números mostram que existe espaço para o vinho brasileiro crescer tanto no mercado interno quanto no exterior. Temos um mercado forte na América do Sul e uma disposição cada vez maior dos produtores nacionais para competir com rótulos argentinos, chilenos e uruguaios. Esse movimento amplia o reconhecimento dos vinhos brasileiros e cria oportunidades para produtores de diferentes regiões”, afirma Paulo Vasconcellos, diretor de Tecnologia da Mira Artis.
Dupla poda ajusta a colheita ao período seco
A dupla poda envolve duas intervenções anuais na videira. A primeira ocorre em setembro, para a formação da planta, e a segunda, em março, direciona a produção para o período de estiagem.
A colheita acontece em uma estação marcada por dias ensolarados, noites frias e baixa umidade. Essas condições favorecem a sanidade das uvas e a concentração de aromas no fruto.
A técnica eleva o custo operacional da produção entre 40% e 50%, segundo estimativas de produtores da região, por causa do maior número de manejos no campo e da retirada manual dos cachos do ciclo de verão. Em troca, o período seco reduz a exposição dos vinhedos à umidade durante a maturação, o que facilita o controle de fungos e pragas e favorece o desenvolvimento de taninos maduros nos tintos.

Altitude e manejo moldam o perfil dos vinhos
A altitude é um dos elementos centrais da produção no Cerrado. Em áreas acima de 1.000 metros, a amplitude térmica retarda a maturação das uvas, preserva a acidez natural e estimula a formação de compostos fenólicos, ligados à cor, aos aromas e à longevidade dos vinhos.
Renata Pissolatti, sommelière internacional e fundadora da Pissolatti Vinhos, explica como o clima local se traduz na taça.
“Quando falamos de vinhos de altitude no Cerrado, o clima é um dos grandes diferenciais. A combinação de dias ensolarados, noites mais frias e baixa umidade durante o período de maturação cria condições favoráveis para as uvas. Isso permite alcançar um equilíbrio importante entre maturação, acidez e concentração de aromas e sabores, características que aparecem no resultado final e ajudam a explicar a evolução da qualidade dos vinhos produzidos na região”, afirma Renata Pissolatti, sommelière internacional e fundadora da Pissolatti Vinhos.
O solo, a radiação solar e a ausência de chuvas na colheita favorecem o cultivo de variedades de Vitis vinifera, espécie que reúne as principais uvas usadas em vinhos finos. No PAD-DF, polo agrícola do Distrito Federal, a Syrah responde por 39% da área plantada com viníferas, enquanto a Sauvignon Blanc ocupa 18% dos vinhedos. Cabernet Franc, Malbec e Marselan completam o conjunto de variedades cultivadas na região.
O manejo de precisão complementa a adaptação do vinhedo ao clima. Telas protegem as plantas contra pássaros, enquanto o uso controlado de ovinos entre as fileiras auxilia no manejo da vegetação e na incorporação de matéria orgânica ao solo. Irrigação por gotejamento e plantios em curvas de nível completam as estratégias para enfrentar a seca característica do bioma.
Estrutura compartilhada amplia a capacidade produtiva
Em Goiás, um grupo formado por dez famílias reúne a elaboração de rótulos de aproximadamente 52 hectares de vinhedos. Cada propriedade destina 60% da colheita à estrutura coletiva, que processa 400 mil litros de vinho por ano.
O modelo dá a produtores de menor escala acesso a estruturas industriais e técnicas compartilhadas. A iniciativa também ajuda a construir uma identidade regional para os vinhos de inverno e amplia a capacidade de comercialização dos rótulos.
Em escala estadual, a atividade reúne 63 produtores em uma área de 120 hectares, com processamento anual de 2,3 mil toneladas de uvas. O enoturismo acompanha esse movimento e aproxima a produção da hotelaria, da gastronomia e das experiências de visitação, com propriedades que recebem até 600 visitantes por mês nos períodos de colheita e degustação.
Aplicativo conecta consumidores a vinhos personalizados
A expansão da produção vinícola brasileira abre espaço para novas formas de conexão entre vinícolas, restaurantes e consumidores. O aplicativo Tchin Tchin auxilia usuários no planejamento de degustações e encontros enogastronômicos, com recursos para gerenciar datas, locais, custos e seleção de rótulos.
O ecossistema também reúne o Treine seu Paladar, disponível pelo navegador, com lições de cerca de dois minutos sobre como escolher vinho no dia a dia. A trilha se organiza pelo objetivo de quem começa, seja comprar no mercado, pedir no restaurante, receber em casa, presentear ou lidar com vinho no trabalho, e aborda critérios como doçura, acidez, corpo, tanino, fruta, leitura de rótulo e harmonização.
Vasconcellos resume o propósito da ferramenta diante do crescimento do setor:
“Estamos construindo um ecossistema para oferecer ao consumidor diferentes opções na hora de organizar um evento ou escolher um rótulo no restaurante. O objetivo é facilitar a descoberta do vinho e tornar a experiência mais acessível, inclusive para quem ainda está desenvolvendo seu repertório”, completa Paulo Vasconcellos.
