Documento do Rabobank mostra prioridade no consumo de proteínas animais e alimentos minimamente processados nas diretrizes dietéticas nos EUA; veja o potencial impacto nas exportações brasileiras de carnes, laticínios e commodities agrícolas
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) divulgaram em 7 de janeiro de 2026 as Diretrizes Dietéticas para Americanos 2025-2030. O documento estabelece as bases da política nutricional do país e influencia diretamente programas federais de alimentação que atendem aproximadamente um em cada quatro cidadãos norte-americanos. A atualização, realizada a cada cinco anos por determinação legal, traz mudanças significativas que podem reconfigurar não apenas os hábitos alimentares dos consumidores americanos, mas também as relações comerciais internacionais de alimentos e commodities agrícolas.
Segundo análise do RaboResearch, braço de pesquisa do banco holandês Rabobank, as novas diretrizes refletem os princípios centrais do movimento Make America Healthy Again (MAHA) e representam uma guinada em direção ao consumo de alimentos integrais e minimamente processados, com limites mais rigorosos para açúcares adicionados e carboidratos refinados. O documento de 10 páginas, substancialmente mais enxuto que a edição anterior de 164 páginas, adota a mensagem “Eat Real Food” (Coma Alimento Real) e posiciona laticínios e proteínas de origem animal de forma mais favorável, enquanto impõe restrições mais severas a açúcares, grãos refinados e carnes processadas.
Proteínas animais ganham protagonismo nas recomendações oficiais
As novas diretrizes elevam significativamente as recomendações de ingestão proteica, passando de 0,8g por kg de peso corporal para uma faixa entre 1,2 e 1,6g/kg, o que representa um aumento de 50% a 100% em relação às orientações anteriores. Diferentemente das edições passadas, o documento não estabelece distinções entre carnes vermelhas e cortes mais magros ou frutos do mar, tratando todas as fontes de proteína animal de maneira equivalente.
Durante a apresentação das diretrizes, o Secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. declarou que as novas recomendações marcam “o fim da guerra contra as gorduras saturadas”, embora a restrição anterior de limitar esse nutriente a 10% das calorias totais tenha sido mantida. A mudança de posicionamento em relação às proteínas e gorduras animais pode ter impactos diretos nas exportações brasileiras para o mercado americano.
O Brasil é um dos principais fornecedores de proteína animal para os Estados Unidos, particularmente em períodos de alta demanda ou restrições de oferta doméstica. De acordo com dados do Ministério da Agricultura brasileiro, as exportações de carne bovina para os EUA têm crescido nos últimos anos, especialmente após a reabertura total do mercado americano para a carne brasileira in natura. Com as novas diretrizes enfatizando o consumo de carnes frescas e minimamente processadas em detrimento de produtos ultraprocessados como salsichas e carnes curadas, o potencial de expansão para cortes frescos brasileiros se amplia.
Laticínios integrais retornam ao centro das recomendações
Uma das mudanças mais notáveis das diretrizes 2025-2030 é o retorno favorável aos laticínios integrais, incluindo leite integral, após mais de quatro décadas de recomendações focadas em produtos desnatados ou com baixo teor de gordura. O documento recomenda três porções diárias de laticínios e sugere leite integral para bebês em transição da amamentação ou fórmula infantil.
A análise do RaboResearch aponta que essa mudança coincide com desenvolvimentos legislativos recentes, como a Lei Leite Integral para Crianças Saudáveis de 2025, que permite às escolas servir leite com todos os níveis de gordura. Do ponto de vista da oferta, a indústria láctea americana está preparada para atender uma potencial mudança na demanda dos consumidores, uma vez que os produtores aumentaram a produção de gordura do leite nos últimos anos, garantindo disponibilidade ampla de creme e produtos lácteos com maior teor de gordura.
Para o Brasil, que mantém exportações limitadas de lácteos para os Estados Unidos devido principalmente a barreiras sanitárias e concorrência de grandes produtores domésticos, o cenário pode não apresentar mudanças substanciais no curto prazo. No entanto, a valorização de lácteos integrais e minimamente processados pode abrir oportunidades para produtos especializados ou de nicho que atendam aos novos padrões de qualidade e processamento mínimo.
Açúcar e grãos refinados enfrentam restrições mais severas
As novas diretrizes impõem um limite mais rigoroso para açúcares adicionados, estabelecendo um teto de 10g por refeição, sinalizando uma redução em relação às recomendações anteriores que permitiam até 10% das calorias diárias totais provenientes de açúcares adicionados. O documento também inova ao desencorajar explicitamente o consumo de carboidratos refinados, categoria que não havia sido abordada nas diretrizes anteriores.
O RaboResearch indica que a demanda americana por xarope de milho de alta frutose e açúcar granulado já vinha declinando nos últimos anos, enquanto a produção doméstica permanece estável. As importações de açúcar caíram, e condições de seca limitaram a capacidade do México de abastecer o mercado americano. Curiosamente, as vendas de mel aumentaram 10% em volume durante 2025, segundo dados da SPINS, sugerindo uma crescente aceitação de adoçantes percebidos como “naturais” pelos consumidores.
Para o Brasil, maior produtor e exportador mundial de açúcar, as novas diretrizes americanas podem representar pressões adicionais sobre um mercado já em transformação. Embora os Estados Unidos não sejam o principal destino das exportações brasileiras de açúcar devido a cotas de importação restritivas e produção doméstica significativa, a mudança de percepção sobre açúcares adicionados pode influenciar tendências globais de consumo e reformulação de produtos processados que utilizam açúcar brasileiro como ingrediente.
Grãos integrais versus farinhas refinadas
Embora as diretrizes recomendem o consumo de grãos integrais, o documento explicitamente desencoraja o uso de farinha refinada e seus derivados, como pão branco, tortilhas de farinha e biscoitos. A análise do RaboResearch aponta que as diretrizes não incorporaram o apelo da indústria de grãos para reconhecer os benefícios do enriquecimento de farinha com ferro e vitaminas do complexo B, priorizando em vez disso o conteúdo de fibras.
Essa posição pode impulsionar inovação em formulações de panificação e práticas de moagem focadas na adição de grãos integrais às receitas, embora desafios permaneçam em relação à viabilidade de fabricação, economia e aceitação do consumidor. Atualmente, a farinha de grão integral é comercializada com prêmio sobre a farinha refinada devido à menor escala e percepção do consumidor, porém os rendimentos de moagem de grãos integrais são maiores, apresentando oportunidades de redução de custos através de economias de escala à medida que a oferta se expande.
O Brasil, importante exportador de trigo para diversos mercados e crescente produtor doméstico, pode encontrar oportunidades na exportação de grãos integrais ou farinhas especiais que atendam às novas especificações de qualidade, embora os Estados Unidos mantenham produção doméstica robusta de trigo.
Óleos vegetais navegam em terreno incerto
Apesar das críticas anteriores do Secretário Kennedy aos óleos de sementes – óleos vegetais extraídos de sementes de plantas como girassol, milho, soja, canola e semente de uva – as diretrizes atuais não os mencionam especificamente. O RaboResearch considera isso uma vitória para a indústria de esmagamento de oleaginosas e fabricantes de alimentos.
No entanto, a recomendação mais ampla de limitar o consumo de alimentos fritos e processados pode impactar negativamente o segmento de óleos de sementes. Adicionalmente, a crescente promoção de gorduras animais, como manteiga e sebo bovino, agora posicionadas como “gorduras saudáveis”, representa outro desafio potencial para a demanda de óleos vegetais.
A única recomendação explícita para consumo de óleo vegetal é para “óleos com ácidos graxos essenciais, como azeite de oliva”. O óleo de abacate, embora não mencionado na folha informativa principal, ganhou popularidade no último ano, inclusive nos círculos do MAHA e para uso em certos produtos embalados premium. O abacate como fruta é listado como fonte de gordura saudável, o que leva a crer que o óleo de abacate continuará sendo um ingrediente associado à saúde.
Para o Brasil, maior produtor mundial de soja e importante exportador de óleo de soja, as diretrizes apresentam sinais mistos. Embora não haja proibição direta aos óleos de sementes, a mudança de percepção sobre gorduras animais e o incentivo ao consumo de alimentos minimamente processados pode reduzir a demanda por óleos vegetais refinados em aplicações industriais. Por outro lado, a crescente popularidade de óleos considerados “premium” como o de abacate pode abrir nichos de mercado para exportadores brasileiros que diversifiquem suas ofertas.
Frutas, vegetais e leguminosas mantêm posição central
Frutas e vegetais permanecem como pilares fundamentais das diretrizes, com oferta suficiente para atender potenciais aumentos de demanda. No entanto, restrições aos sucos devido ao açúcar adicionado, incluindo recomendações para diluí-los com água, representam contratempos para este segmento.
O RaboResearch aponta que a categoria pode se beneficiar se programas de merenda escolar substituírem lanches embalados por frutas e vegetais. Leguminosas, nozes e sementes são promovidas como fontes saudáveis de proteína, com a indústria de nozes arbóreas bem posicionada para atender ao aumento da demanda após esforços agressivos de marketing doméstico. Atualmente, apenas 30% das amêndoas, pistaches e nozes são consumidos domesticamente nos Estados Unidos.
O Brasil, importante exportador de frutas frescas e sucos para os Estados Unidos, pode enfrentar desafios no segmento de sucos concentrados e bebidas à base de frutas, mas oportunidades se ampliam para frutas frescas e produtos minimamente processados que atendam aos novos padrões de qualidade. A produção brasileira de nozes, castanhas e leguminosas também pode encontrar espaço em um mercado que busca diversificar fontes proteicas vegetais.
Impactos institucionais e desafios de implementação
Além da percepção pública, as diretrizes podem impactar diretamente as compras institucionais de alimentos, incluindo 45 milhões de almoços escolares diários, 9 milhões de refeições para veteranos em hospitais da VA e refeições para 1,3 milhões de militares da ativa. No entanto, implementar recomendações centradas em alimentos frescos e maior ingestão de proteína permanecerá desafiador devido a restrições de acessibilidade e custo tanto para famílias de baixa renda quanto para um governo federal operando em déficit.
O RaboResearch destaca que substituir alimentos processados por alternativas frescas – tipicamente localizadas no perímetro das lojas de alimentos, não nos corredores centrais – requer maiores gastos com alimentação e mais tempo de preparação para os consumidores. Isso ocorre em um momento em que o custo de vida e a acessibilidade de itens básicos, incluindo alimentos, figuram entre as principais preocupações dos americanos.
No lado das políticas públicas, o projeto One Big Beautiful Bill recentemente reduziu o financiamento do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP) em 195 bilhões de dólares na próxima década e desmantelou a reavaliação do Thrifty Food Plan, que historicamente ajustava os benefícios do SNAP com base nas mudanças nas diretrizes dietéticas. Aumentos futuros serão vinculados apenas à inflação, dificultando o acesso de famílias de baixa renda aos alimentos recomendados nas diretrizes.
Oportunidades e desafios para a relação comercial Brasil-EUA
As novas diretrizes dietéticas americanas apresentam um cenário complexo para as relações comerciais de alimentos entre Brasil e Estados Unidos. Do lado das oportunidades, o aumento das recomendações de proteína animal e a valorização de produtos minimamente processados podem favorecer as exportações brasileiras de carnes frescas, especialmente bovina, suína e de frango, setores onde o Brasil tem competitividade reconhecida internacionalmente.
A ênfase em laticínios integrais e gorduras animais pode estimular a demanda por ingredientes e produtos especializados, embora barreiras sanitárias ainda limitem significativamente o acesso de lácteos brasileiros ao mercado americano. Frutas frescas tropicais e produtos de alto valor agregado com processamento mínimo também podem encontrar espaço expandido em um mercado que valoriza alimentos “reais” e nutricionalmente densos.
Por outro lado, as restrições mais severas a açúcares adicionados e carboidratos refinados representam desafios para as exportações brasileiras de açúcar e produtos processados que utilizam esses ingredientes. A mudança de percepção sobre óleos vegetais, embora não resulte em proibições diretas, pode pressionar a demanda por óleo de soja brasileiro, principal commodity oleaginosa do país.
O relatório do RaboResearch enfatiza que a mudança efetiva na dieta americana dependerá de colaboração entre governo, indústria e consumidores para equilibrar prioridades de saúde com custo e conveniência. Do ponto de vista da oferta, uma transição para alimentos mais frescos exigiria investimentos significativos em logística e infraestrutura de cadeia fria, além de suporte para produção agrícola diversificada.
JP Frossard, analista de Alimentos para Consumidores do RaboResearch e autor principal do relatório, observa que processadores de alimentos já vinham inovando para reformular produtos e fazer maiores alegações de saúde, visando defender a relevância da categoria e capturar prêmios de preço. As novas diretrizes reforçarão esses esforços contínuos.
Perspectivas para inovação e reformulação de produtos
Olhando para o futuro, o RaboResearch espera que a inovação reflita as prioridades das novas diretrizes com foco em ofertas ricas em proteínas, produtos com menor teor de açúcar adicionado, formulações de rótulo limpo e opções frescas convenientes para consumo fora de casa e em domicílio. Haverá também maior ênfase em fibras e saúde intestinal, leite integral e laticínios integrais, e bebidas de baixa caloria, entre outras prioridades.
Muitas dessas tendências já estavam em andamento antes da divulgação das diretrizes. Nesse sentido, as Diretrizes Dietéticas para Americanos não criam necessariamente um novo mercado para produtos mais saudáveis, mas fornecem validação e reconhecimento de mudanças que já estavam sendo impulsionadas pelo crescente interesse dos consumidores em nutrição, bem-estar e escolhas alimentares voltadas para a saúde.
O relatório conclui que o reconhecimento governamental dos impactos negativos à saúde do consumo extensivo de alimentos ultraprocessados marca um ponto de virada na política alimentar americana. Se abraçada por administrações futuras, essa mudança pode remodelar a produção agrícola dos EUA e a indústria de processamento de alimentos a jusante, com efeitos indiretos sobre os padrões de comércio internacional de alimentos e commodities agrícolas.
Para exportadores e produtores brasileiros, o momento demanda atenção estratégica às mudanças regulatórias e de percepção no mercado americano, identificando oportunidades em segmentos valorizados pelas novas diretrizes enquanto se adaptam às restrições impostas a produtos processados e ingredientes como açúcares e carboidratos refinados. A capacidade de oferecer produtos que atendam aos novos padrões de processamento mínimo, qualidade nutricional e rastreabilidade será cada vez mais determinante para o sucesso comercial no mercado americano.
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