Por sua importância histórica e econômica, no Brasil o fruto do cacaueiro possui um dia exclusivo para sua celebração: o dia 26 de março, que marca também o início da colheita
O Theobroma cacao — ou simplesmente cacau — é uma fruta originária da Bacia Amazônica com registros de cultivo há pelo menos 5.500 anos. Civilizações pré-colombianas como os Incas e os Astecas já utilizavam suas sementes tanto como alimento quanto como moeda. Ingrediente fundamental do chocolate, o cacau mantém especial importância econômica para o Brasil, que figura hoje como o sexto maior produtor mundial da commodity, com produção anual superior a 220 mil toneladas, de acordo com dados do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Banco do Nordeste do Brasil (ETENE/BNB).
Por essa importância histórica e econômica, no Brasil o cacau tem um dia exclusivo para sua celebração: o 26 de março, data que marca também o início da temporada de colheita.
Origem e mitologia: o presente do deus Quetzalcoatl
Registros históricos apontam que a civilização Asteca acreditava que o fruto do cacaueiro era um presente divino dado à humanidade pelo deus Quetzalcoatl. A mitologia asteca narra que o deus desceu à terra para oferecer aos homens a agricultura, as ciências e as artes — e ao comemorar suas conquistas criou um paraíso em que se destacava a cacahuaquahitl, a árvore do cacau.
No entanto, como o cacau pertencia aos deuses, estes se vingaram de Quetzalcoatl por tê-lo dado aos homens, matando sua esposa. Desolado, o deus chorou sobre a terra ensanguentada — e dali brotou uma árvore cujo fruto era amargo como o sofrimento, forte como a virtude e vermelho como o sangue de uma princesa.
Por isso os Astecas consumiam o cacau por meio do xocolatl, uma bebida amarga, espumante e picante, acreditando que quem a ingerisse receberia sabedoria e conhecimento científico.
Cacau como superalimento: o que a ciência diz
Sendo ou não um presente divino, o cacau é reconhecido pela ciência como um superalimento. Ele é rico em antioxidantes — especialmente polifenóis e flavonoides —, fibras, minerais essenciais como magnésio, ferro, potássio e fósforo, além de compostos estimulantes como a teobromina.
Estudos publicados na Revista de Nutrição demonstram que uma única dose de chocolate amargo a 70% de cacau pode reduzir a pressão arterial e aumentar a variabilidade da frequência cardíaca em indivíduos saudáveis. A revisão Polifenóis em cacau e derivados, publicada no Brazilian Journal of Food Technology (Efraim et al., 2011), reforça os efeitos positivos dos compostos bioativos sobre a saúde cardiovascular e cognitiva.
O potencial funcional do cacau está diretamente ligado ao teor de massa de cacau no produto final. Chocolates com baixa concentração de cacau e alto teor de açúcar e gorduras substitutas não oferecem os mesmos benefícios e ainda carregam impacto calórico elevado, segundo análise da UNICENTRO.
Produção mundial: concentração, clima e pressão por sustentabilidade
A produção global de cacau é altamente concentrada. A África Ocidental responde por mais de 70% da oferta mundial, com Costa do Marfim e Gana liderando a produção e somando juntos cerca de 49% do total, segundo a International Cocoa Organization (ICCO). De acordo com dados do ETENE/BNB (dados de junho/2025), a produção mundial deve crescer 7,8% na safra 2024/25, alcançando 4,84 milhões de toneladas — uma recuperação após três safras consecutivas afetadas por secas e pragas.
Ainda assim, os estoques globais permanecem baixos e os preços internacionais seguem em patamares historicamente elevados. Em 2024, a tonelada de amêndoas de cacau superou os US$ 10 mil nas bolsas internacionais — o maior valor registrado em seis décadas — pressionada pelo fenômeno El Niño e por problemas fitossanitários na África. Esse cenário abre janelas para países como o Brasil expandirem sua participação no mercado global com produção rastreável e ambientalmente sustentável.
O Brasil no mapa do cacau: produção, potencial e desafios
Com aproximadamente 600 mil hectares cultivados e cerca de 75 mil produtores, o Brasil é o sexto maior produtor global de cacau. Bahia e Pará respondem juntos por 96% da produção nacional, segundo o IBGE. A cadeia produtiva movimenta cerca de R$ 23 bilhões por ano, gerando mais de 200 mil empregos diretos e indiretos, de acordo com a Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
A base da produção está nas mãos de pequenos produtores, responsáveis por lavouras entre 5 e 10 hectares, conforme aponta o Ministério da Agricultura em parceria com a ICCO. Em 2023, o setor lançou o Plano Inova Cacau, coordenado pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), com a meta ambiciosa de alcançar 400 mil toneladas anuais até 2030 — mais que o dobro da produção atual. Para isso, a estimativa do Portal CNA Brasil aponta a necessidade de expansão significativa de área com sistemas mais tecnificados e sustentáveis.
A especialista Anna Paula, consultora do setor, contextualiza o desafio:
“Estamos muito longe do terceiro maior produtor, que é o nosso vizinho Equador, que produz 400 mil toneladas anualmente.”
Em linha com esse diagnóstico, o especialista Emerson Silva projeta crescimento acelerado:
“Acredito que em cerca de cinco anos o Brasil já figure entre os quatro maiores produtores do mundo.”
Segundo a publicação da Campo & Negócios, esse avanço passa pela adoção de tecnologias como irrigação de precisão, mecanização e sistemas agroflorestais que aliam produtividade à preservação ambiental.
Sustentabilidade, comunidades e o peso do cacau sobre o planeta
O cacau produzido no Brasil se destaca por seu rigor ambiental. O sistema cabruca, predominante no sul da Bahia, cultiva o cacaueiro sob a sombra de árvores nativas da Mata Atlântica, preservando biodiversidade e estoques de carbono. Já a região amazônica tem no cacau um vetor estratégico de bioeconomia — unindo geração de renda para comunidades rurais à conservação florestal.
Internacionalmente, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) conduz o projeto Greening the Cocoa Industry, que busca mudar práticas de produção em países como Brasil, Costa do Marfim, Gana, Peru e Equador. O programa abrange pelo menos 10% da produção mundial de cacau — 350 mil toneladas cultivadas em 750 mil hectares por 250 mil agricultores — promovendo conservação da biodiversidade e aumento de renda para pequenos produtores.
A Rainforest Alliance, em colaboração com a World Cocoa Foundation, criou manuais para produção de cacau com baixa emissão de carbono. O cacau certificado pela aliança já representa 13,6% do suprimento mundial, com demanda crescente dos grandes compradores por matéria-prima sustentável.
Clavelina Sánchez, produtora no Peru apoiada pelo projeto PNUMA, descreve a lógica da sustentabilidade integrada:
“Nossa fazenda é sustentável porque é diversificada. Temos café, cacau, bananas, laranjas, urucum, mandioca, taioba, galinhas, madeira e muito mais. Cuidamos da biodiversidade e melhoramos nossa qualidade de vida.”
Trabalho infantil: o lado sombrio da cadeia global do cacau
A cadeia global do cacau ainda carrega uma ferida aberta: o trabalho infantil. Relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a organização Papel Social, apontaram a existência de déficits de trabalho decente na cadeia cacaueira brasileira, incluindo a presença de mão de obra infantil e indícios de trabalho escravo em parte das fazendas monitoradas.
Costa do Marfim e Gana — que juntos produzem quase metade do cacau mundial — são os países com os registros mais preocupantes. Relatórios internacionais apontam persistência de trabalho infantil e falhas de rastreabilidade nesses países, segundo análise técnica de Cléber Isaac Filho, publicada pela plataforma Cacau & Chocolate. Paradoxalmente, esses países seguem sem receber penalizações equivalentes às impostas ao produtor brasileiro — evidenciando uma assimetria regulatória no comércio internacional de commodities.
Entre as entidades que monitoram e combatem o trabalho infantil na cadeia do cacau estão a OIT, o International Labour Rights Forum (ILRF), a Child Labor Coalition e o programa Cocoa & Forests Initiative (CFI), lançado em 2017 pelos governos de Costa do Marfim e Gana em parceria com grandes empresas do setor para eliminar o desmatamento e o trabalho infantil das cadeias de fornecimento.
Remuneração justa: o produtor ainda recebe pouco
Apesar da valorização histórica dos preços internacionais do cacau em 2024, os ganhos não foram distribuídos de forma equitativa ao longo da cadeia. Exportadores e processadores capturaram parte significativa do valor, acendendo o debate sobre remuneração justa e contratos de longo prazo, conforme levantamento publicado pelo portal CPG Click Petróleo e Gás com base em dados da ICCO e do Ministério da Agricultura.
No modelo bean to bar, essa equação muda. Juliana Aquino, produtora e presidente da Associação Bean to Bar Brasil, explica a lógica da valorização:
“O cacau com conceito de origem tem um valor que pode ser de 100 a 500% do valor do cacau commodity, pois é o fazendeiro que determina o preço e não o mercado.”
Para Juliana, o modelo bean to bar democratiza a valorização do pequeno agricultor ao mesmo tempo em que promove transparência e sustentabilidade — financeira, ambiental e social.
Tendências de consumo: chocolate mais saudável, com menos ingredientes e mais cacau
O Brasil é o quinto maior mercado consumidor de chocolate do mundo, com consumo médio de 3,5 a 3,9 kg per capita ao ano, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab). A pesquisa Nexus, publicada em março de 2025, revelou que 59% dos brasileiros gostam de chocolate e 41% consomem o produto pelo menos uma vez por semana. Dados do Kantar WorldPanel indicam que a penetração do chocolate nos lares brasileiros saltou de 85,5% em 2020 para 92,9% em 2024 — cerca de 9 em cada 10 domicílios.
Ao mesmo tempo, o consumidor se torna mais exigente quanto à composição dos produtos. A pesquisa Taste Tomorrow 2025, conduzida pela Puratos, aponta que chocolates com ingredientes naturais, menor teor de açúcar e maior concentração de cacau serão tendência nos próximos anos. Estudo publicado na Revista Nutrients indica que chocolates sem açúcar podem contribuir para a redução da inflamação e melhora da saúde cardiovascular.
O setor de confeitaria deve crescer 7,8% ao ano até 2030, impulsionado pela busca por produtos com menos aditivos e maior equilíbrio nutricional, conforme projeção da Food Connection. Paralelamente, o mercado global de chocolate foi estimado em US$ 130,72 bilhões em 2024, segundo a MarkNtel Advisors, com projeção de crescimento composto de 4,95% ao ano até 2030 (Mordor Intelligence).
Clean label, bean to bar e o movimento por chocolates de origem
O movimento bean to bar — da amêndoa à barra — ganhou força no Brasil a partir de 2012 e já reúne cerca de 60 pequenas e médias empresas filiadas à Associação Bean to Bar Brasil. Em 2022, a produção dessas marcas cresceu 20%, em média, com previsão de aceleração ancorada na Páscoa e em datas sazonais. O diferencial é um processo rigoroso que começa na seleção dos grãos por origem e inclui torra, refino, conchagem e moldagem — tudo sob controle do próprio fabricante.
Chocolates bean to bar costumam ter formulações limpas, sem aromatizantes artificiais, conservantes ou gorduras substitutas. Ao excluir esses aditivos, o sabor do cacau de origem se destaca plenamente, tornando esses produtos naturalmente mais saudáveis. Essa proposta converge com as dietas paleo, low carb e com a nutrição funcional, que valorizam alimentos minimamente processados.
Bruno Lasevicius, presidente da Associação Bean to Bar Brasil, sintetiza o impacto do modelo na qualidade do cacau:
“O processo começa na seleção dos grãos, que envolve produtores preocupados com a sustentabilidade. Onde existe aplicação desse método, com certeza há melhoria da qualidade do cacau produzido.”
No campo regulatório, a Câmara dos Deputados aprovou, em março de 2026, novas regras para teor de cacau e rotulagem de chocolates. O projeto, relatado pelo deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), estabelece percentuais mínimos de sólidos de cacau por categoria e limita a 5% o uso de outras gorduras vegetais — um avanço que favorece diretamente o consumidor que busca produtos com rótulo limpo, de acordo com levantamento da Revista Fórum.
Do mito asteca que celebrava o xocolatl como bebida dos deuses à crescente demanda global por chocolates com menos química e mais origem, o cacau percorreu séculos sem perder sua essência: é alimento, é cultura, é economia e é símbolo de um Brasil com potencial para liderar — de forma justa e sustentável — a cadeia global que nasce em suas florestas.
