Congresso ABAG - CBA 2026

Congresso da ABAG reúne governo, Congresso Nacional e lideranças empresariais para discutir geopolítica, inovação regulatória e financiamento do setor

A edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA) abriu nesta segunda-feira (10 de agosto), em São Paulo, com um recado direto às autoridades presentes: o setor precisa de uma política de Estado, não apenas de governo, para manter sua competitividade em uma economia global cada vez mais voltada à segurança alimentar, à energia sustentável e à proteção ambiental.

Promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) em parceria com a B3, o evento tem como tema “Agro & Indústria – integrando e transformando o Brasil” e reuniu ministros, parlamentares, diplomatas e executivos ao longo do dia, em painéis que passaram por geopolítica, regulação, inovação e financiamento.

Congresso ABAG entrega agenda estratégica ao governo federal

Logo na abertura, o presidente da ABAG, Ingo Plöger, situou o aniversário da entidade como um marco de maturidade institucional. Antes de detalhar a proposta entregue ao governo, vale registrar o contexto: o documento resulta de um levantamento que avaliou mais de 80 fatores prioritários para a agroindústria nacional, hierarquizados por urgência, impacto e prazo de implementação.

Plöger destacou que o Brasil já construiu um agronegócio pujante e que o próximo passo é participar da formulação das novas regras do comércio internacional, agregando valor e criando mercados.

“Chegar a um quarto de século representa a maturidade de uma instituição que tem como missão antecipar tendências, compreender os grandes movimentos globais e contribuir para a construção de uma visão estratégica de longo prazo para o Brasil.”

Com essa agenda em mãos, a ABAG a entregou ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, como contribuição da sociedade civil para ações de curto, médio e longo prazo voltadas à agroindústria. Na sequência de seu discurso, Alckmin citou dados recentes sobre o comércio exterior brasileiro e a reforma tributária, reforçando a disposição do governo em avançar nas negociações comerciais em curso.

“Estamos avançando para nos tornarmos o maior exportador de alimentos do mundo, superando os Estados Unidos.”

Segundo o vice-presidente, o acordo entre União Europeia e Mercosul já resultou em crescimento de 4% nas exportações nos primeiros 60 dias de vigência, enquanto o governo segue empenhado nas tratativas com os Estados Unidos. Ele também citou projeções do Ipea que apontam elevação de até 12% no PIB, 14% nos investimentos e 17% nas exportações em 15 anos com a reforma tributária.

O acesso a mercados internacionais também foi tema do ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, que detalhou o avanço recente da diplomacia comercial brasileira para produtos do agro.

“Já conquistamos 674 novos mercados para os produtos brasileiros e devemos superar a casa dos 700 mercados até o final do ano.”

De Paula ponderou que essa posição de destaque no agronegócio mundial precisa ser consolidada diariamente, com maior integração da cadeia produtiva. Na mesma linha, a senadora Tereza Cristina defendeu que o próximo governo trate o agronegócio como política de Estado, com previsibilidade e segurança jurídica, avaliação reforçada pelo deputado federal Arnaldo Jardim, para quem a resiliência do setor precisa virar estratégia de longo prazo.

Participaram ainda da abertura Geraldo Melo Filho, secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo; Antonio Mello Alvarenga Neto, da Sociedade Nacional da Agricultura (SNA); Ana Repezza, da CropLife Brasil; Tirso de Salles Meirelles, da FAESP/SENAR; Silvia Massruhá, da Embrapa; e Tania Zanella, da OCB e do Instituto Pensar Agro.

Geopolítica redefine relações comerciais e abre oportunidades para o agro

Mesa redonda da edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio debate o agro na geopolítica
Crédito foto: Gerardo Lazzari

O novo ambiente geopolítico global foi tema do painel “O Agro na Geopolítica”, que discutiu como o Brasil pode transformar a reorganização econômica mundial em oportunidade para ampliar mercados e reduzir vulnerabilidades. Para contextualizar o cenário, o embaixador Alexandre Parola, representante do Brasil no Reino do Marrocos, descreveu a perda de capacidade da estrutura multilateral do pós-guerra de refletir a atual distribuição de poder entre potências.

“A estrutura multilateral criada no pós-guerra, incluindo instituições como a OMC, perdeu parte de sua capacidade de refletir a atual distribuição de poder.”

Parola avaliou que o Brasil precisa abandonar o planejamento de curto prazo e construir uma estratégia de médio e longo prazo, já que o período de relativa “negligência benigna” das grandes potências em relação ao país chegou ao fim. Na sequência, o diplomata e especialista em geopolítica Braz Baracuhy tratou da dependência brasileira de rotas comerciais estratégicas, com destaque para o Estreito de Ormuz.

“O centro de gravidade da economia rural está no Estreito de Ormuz. Do ponto de vista geopolítico, isso é assustador, mas minha impressão é de que existem incentivos para a diplomacia.”

O debate também abordou a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China na corrida por inteligência artificial, apontada pelos participantes como um fator potencialmente mais desestabilizador do que o equilíbrio militar tradicional entre as potências, dada a natureza de “vencedor leva tudo” da liderança em IA. Para o Brasil, a conclusão do painel caminhou na direção de que a diversificação de mercados e a agregação de valor à produção deixaram de ser opcionais diante desse novo tabuleiro de poder.

Inovação e previsibilidade regulatória são decisivas para a competitividade do agro

Especialistas do painel “A indústria que revoluciona o Agro” da edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio. Crédito foto: Gerardo Lazzari

O terceiro painel do dia, “A indústria que revoluciona o Agro”, tratou da combinação entre escala produtiva brasileira e velocidade de inovação. A presidente da CropLife Brasil, Ana Repezza, abriu a discussão lembrando que produzir em agricultura tropical significa conviver com pressão elevada de pragas e clima desafiador, fator que precisa orientar as políticas regulatórias.

“Marcos legais, proteção de cultivares, inovação e previsibilidade regulatória são fundamentais para estimular investimentos das empresas que desenvolvem novas tecnologias.”

Segundo Repezza, a demora nos processos regulatórios pode atrasar a chegada de novas moléculas e soluções aos produtores, o que altera de forma significativa o cenário produtivo. Ela reconheceu que o Brasil dispõe de estrutura regulatória moderna, mas alertou que a falta de atualização dos marcos legais frente às inovações pode comprometer a competitividade do setor.

A fala de Repezza no CBA dialoga com movimentos recentes do setor. Entre as prioridades que a CropLife Brasil vem defendendo em outras frentes estão a regulamentação da lei dos bioinsumos, aprovada em 2024, o novo marco regulatório dos defensivos químicos e a atualização da lei de proteção de cultivares. Segundo a entidade, o mercado brasileiro de biológicos já movimenta cerca de US$ 6,2 bilhões, com crescimento superior a 10% ao ano, e caminha para a marca de 194 milhões de hectares tratados com esse tipo de insumo. Do lado governamental, um passo recente na direção da previsibilidade defendida pela CropLife foi o lançamento, pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, do Sistema Unificado de Informação, Petição e Avaliação Eletrônica (Sispa), plataforma desenvolvida em conjunto com Anvisa e Ibama para unificar a análise de registros de defensivos e bioinsumos, hoje submetidos separadamente a cada órgão.

A previsibilidade regulatória também importa para o setor de biocombustíveis, segundo o vice-presidente da Inpasa, Gustavo Mariano, que citou a necessidade de adaptação rápida da América Latina a novas exigências internacionais, incluindo mudanças no transporte marítimo.

“A velocidade de adoção de tecnologias para a melhoria dos processos é o caminho para uma agroindústria forte.”

A colocação de Mariano reflete o momento de expansão acelerada vivido pela Inpasa, hoje a maior biorrefinaria de etanol de milho da América Latina. A companhia anunciou neste ano um novo ciclo de investimentos de R$ 3,48 bilhões no Mato Grosso, somando a construção de uma biorrefinaria em Rondonópolis e a ampliação da unidade de Nova Mutum, que passará a produzir 1,4 bilhão de litros de etanol e 183 mil toneladas de DDGS por ano. Com capacidade instalada de 6,2 bilhões de litros anuais, a empresa também exporta coprodutos como o DDGS para mais de duas dezenas de países e possui certificações internacionais que habilitam o fornecimento de matéria-prima para combustíveis sustentáveis de aviação, movimento que reforça o argumento apresentado no painel sobre a relação direta entre regras claras e disposição para investir.

Já o presidente e CEO da Bosch América Latina, Gastón Díaz Pérez, defendeu um ambiente regulatório sem obstáculos desnecessários à atividade empresarial, hoje marcada por alta complexidade, volatilidade econômica e juros elevados. Para ele, o desafio da inteligência artificial no agro não está apenas em desenvolver modelos preditivos, mas em qualificar profissionais capazes de operá-los com o suporte humano necessário — um ponto que conecta diretamente a pauta regulatória à formação de mão de obra especializada para sustentar a nova onda de digitalização do campo.

Neste sentido, Pérez destacou a necessidade de atrair novos profissionais ao mercado do agro, principalmente com interesse e conhecimento sobre tecnologia. Citou processo seletivo na empresa que atraiu cerca de 20 mil currículos, dos quais cerca de 400 foram selecionados para iniciar o trabalho na Bosch.

Novos instrumentos ampliam alternativas de financiamento para o agronegócio

Painel Investimento e Financiamento em tempos voláteis da edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio. Crédito foto: Gerardo Lazzari

O painel “Investimento e Financiamento em Tempos Voláteis” reuniu especialistas para discutir os desafios de ampliar o acesso do produtor rural ao mercado de capitais. A diretora da ANBIMA, Flávia Palacios, apontou a necessidade de capacitar tanto o produtor quanto os agentes financeiros para compreender melhor os riscos da atividade agropecuária.

“É necessário capacitar o produtor para compreender a análise de crédito e, ao mesmo tempo, fazer com que os agentes do mercado financeiro conheçam melhor a dinâmica da atividade dentro e fora da porteira.”

Entre os instrumentos que ganharam relevância no financiamento do setor estão os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e os Fiagros. Segundo dados apresentados no painel, cerca de 600 mil investidores têm aplicações em CRA, com tíquete médio de R$ 43 mil, enquanto o tíquete médio do Fiagro gira em torno de R$ 1 mil, evidenciando o potencial de democratização do acesso ao crédito. A superintendente de Relacionamento com Clientes da B3, Fabiana Perobelli, explicou que instrumentos originados na própria atividade rural, como a Cédula de Produto Rural (CPR), também podem servir de garantia para essas operações.

A managing director e especialista setorial da S&P Global Ratings, Julyana Yokota, reforçou que volatilidade e risco fazem parte da natureza do agronegócio, o que exige planejamento financeiro e governança.

“Quando falo de governança e transparência, estou falando de acesso a instrumentos que podem oferecer opções melhores para reduzir custos.”

Por fim, o tema do seguro rural trouxe um alerta da superintendente de Sustentabilidade da CNseg, Monique Cardoso, que descreveu como preocupante o cenário atual, com menos de 100 mil produtores rurais segurados no país em meio a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.

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