Por Luis Madi – Coordenador da Plataforma de Inovação Tecnológica
O ano de 2026 começou com a publicação do Dietary Guidelines para os Americanos (DGA), de 2025 a 2030, elaborado pelos departamentos de Agricultura (USDA) e de Saúde e Serviços Humanos (HHS), dos Estados Unidos. Além de inverter a tradicional pirâmide alimentar, o novo guia trouxe alguns pontos que vêm sendo discutidos:
- priorizar proteínas, em especial proteínas de origem animal, carnes e lácteos;
- evitar o consumo de alimentos altamente processados, mas não define o que isso significa;
- evitar o açúcar adicionado.
O Departamento de Saúde dos EUA publicou um comunicado criticando os guias anteriores por favorecerem interesses corporativos: o novo guia utiliza como base o bom senso e a ciência e isso deverá trazer melhorias a saúde dos americanos.
Destaca que o guia acaba com a guerra sobre gorduras saudáveis, embora não explique que conflito é esse ou o que isso significa. Menciona que as especificações do guia priorizam os grãos integrais e redução dos carboidratos refinados, além de incluir dietas com baixo teor de carboidratos para administrar doenças crônicas. Acredita que assim haverá diminuição de gastos com saúde do governo.
Embora o governo reforce e apoie a mensagem do guia e os impactos positivos na saúde dos americanos, as organizações têm se posicionado e analisado que há falta de clareza, incluindo o ex-executivo do Departamento de Agricultura dos EUA, Robert Post, que comentou no Brain Food Blog, do Institute of Food Technologists (IFT), os três aspectos a seguir.
- Positivos: Linguagem e conceito mais simplificados, recomendações sobre a utilização de grãos integrais, frutas e vegetais, já inclusas nos guias anteriores, e priorização do consumo de proteína animal enquadrado dentro de um padrão alimentar.
- Preocupantes: Falta de transparência na elaboração do guia, de ênfase na segurança dos alimentos (um dos tópicos mais importantes e estratégicos no processamento de alimentos) e de evidência científica nas recomendações.
- Confusos: Falta de definição para o termo highly processed foods (em português, “alimentos altamente processados”), falta de evidência científica nas críticas e proibições de corantes e sabores artificiais e de edulcorantes não nutritivos.
Dentre as instituições relevantes na área da ciência e saúde que apresentaram suas visões, está o próprio IFT, que em relatório para os associados enfatizou a importância do DGA para orientação junto à população. Também mencionou os esforços para definir os termos “alimentos ultraprocessados” da classificação NOVA (não conseguiram até o momento) e “alimentos altamente processados” do DGA.
O Food Ingredients First, por sua vez, publicou a notícia ’Eat Real Food’: Trump administration’s new dietary guidelines divide opinion (em português, “Coma alimentos de verdade: novas diretrizes alimentares do governo Trump dividem opiniões”) com comentários de diferentes organizações sobre o DGA.
A American Medical Association (AMA) disse aplaudir a administração do novo guia por destacar os alimentos altamente processados, bebidas açucaradas e excesso de sódio, ditos por eles “combustível” para doenças cardíacas, diabetes, obesidades e outras doenças crônicas.
O American Heart Association (AHA) mostrou preocupação sobre as recomendações relacionadas ao sal e ao consumo de carne vermelha, que podem levar as pessoas a excederem os limites recomendados de sódio e gordura saturada.
O Center for Science in the Public Interest (CSPI) observou que em relação a proteínas e gorduras, o guia é no mínimo confuso e muito prejudicial à saúde dos americanos impactados diretamente pelo DGA através dos programas federais de nutrição.
Por fim, o International Food Information Council (IFIC) comentou que a apresentação do DGA não é o fim da linha, mas um ponto de partida. Inclusive, eu acredito que é por esse caminho que devemos seguir, porém algumas perguntas precisam ser respondidas e é o que vamos acompanhar nos próximos anos.
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