Por Claudia Penteado – Humanidade Aumentada
Depois de 27 anos no mundo corporativo, Andrea Mendonça, cofundadora e CEO da Amazon People, passou a trabalhar com agricultura regenerativa, inclusão produtiva e desenvolvimento social na Amazônia. Mas sair de uma estrutura não significa deixar de depender dela. Para fazer investimento chegar ao agricultor familiar, Andrea precisa falar a língua do mercado financeiro. Para construir cadeias mais sustentáveis, negocia com empresas que nem sempre estão dispostas a arcar com o custo da mudança que defendem. E, quando interesses de investidores, empresas e comunidades não coincidem, alguém precisa decidir até onde ceder e o que proteger.
Andrea reconhece escolhas feitas por coragem e outras por medo, lugares onde ficou tempo demais, momentos em que a segurança pesou mais do que gostaria.
É nesse terreno contraditório (porque real), repleto de escolhas complexas, que se dá a conversa a seguir.
Hoje, para levar investimento ao agricultor familiar e viabilizar projetos de agricultura regenerativa na Amazônia, você precisa negociar com empresas, investidores e instituições. Que parte desse sistema que você gostaria de transformar ainda sustenta o trabalho que você faz?
Andrea – Eu adoraria que viessem leis e regras que todo mundo tivesse apenas que respeitar e aderir para melhorar a cadeia de valor da indústria e prevenir uma crise climática muito maior. Mas estamos em um país onde leis “não pegam”, a gestão não é linear e tampouco existe o mesmo nível de consciência sobre a humanidade ou de interesse na prosperidade coletiva. Então, o meu trabalho é adequar a realidade que eu quero transformar aos diversos tipos de interesse. Por exemplo, ainda dependo da lógica de capital e de retorno financeiro para conseguir levar investimento até o agricultor familiar. Preciso mostrar ao mercado financeiro que esse é um investimento estratégico e também financeiramente viável. Mas a verdade é que eu acredito mesmo numa mudança de dentro pra fora, em ir ajustando aos poucos. Cultura não muda do dia para a noite. No caso do agricultor familiar, o Programa Amazon People oferece uma jornada de 10 anos, durante a qual ele aprende a cultivar e a trabalhar de forma diferente. E sabemos que isso não acontece rápido.
Você fala em construir pontes entre investidores, empresas e comunidades. E quando os interesses dessas três pontas não coincidem? Quem você escolhe proteger?
Andrea – Meu propósito é investir na comunidade. Então, meu objetivo, falando com todas as outras instituições, é encontrar caminhos convergentes. Quando eles não convergem e encontro impasses insolúveis, vou sempre seguir com meu propósito. O bom é que hoje o assunto está “sexy”, de certa forma, então muitas pessoas querem encontrar essa convergência, mas esbarram no fato de não estarem prontas ou dispostas a mudar o que precisa ser mudado. Vejo também pessoas muito dispostas, mas empresas nada dispostas. Ou meio dispostas. Por exemplo: “Eu quero apoiar uma cadeia regenerativa, mas, no fim do dia, tem que ser mais barato do que o produto que eu pago hoje”. Oi? Quer apoiar uma cadeia sustentável? Ou quer esfolar o fornecedor? São antônimos. Mas eu sempre insisto, sabe? Para ver se sai algo real dali. Hoje também não tenho muito tempo para me alongar quando o desafio cultural é muito grande, porque existem muitas empresas com intenções reais.
E quando essa convergência não existe, você já recusou ou deixou um projeto ao perceber que sua presença serviria mais para legitimar uma empresa do que para transformá-la?
Andrea – Na minha carreira, sim. No Instituto Amazon People, já deixei de avançar com uma pessoa que disse que poderia captar recursos para mim, mas que eu não poderia contar ao pagador que ela estava cobrando comissão. Preferi abrir mão da possível doação. Também não abriria diálogo com empresas que vendem bets, cigarros ou bebidas alcoólicas, por exemplo. Na minha carreira, já passei por lugares onde minha função era melhorar processos e, no meio do mapeamento, descobri práticas das quais eu não faria parte de forma alguma. Pedi demissão. Também já me pediram muitas vezes para fazer um plano de sustentabilidade e gerar um relatório antes mesmo de o plano começar, obviamente para se beneficiar da reputação antes de qualquer resultado. Isso simplesmente não existe. Infelizmente, ainda existem empresas que querem mudar “a cara” de alguma coisa, mas não estão dispostas a mudar de fato a forma como as coisas são feitas. Pedem discurso, mas não abrem espaço para a prática. Aí não é walk the talk, e isso tem lastro muito curto hoje em dia.
Nesse trabalho, onde você já precisou ceder para que um projeto continuasse existindo? E como distingue uma concessão necessária de uma traição ao que acredita?
Andrea – Empreender na Amazônia é um exercício constante de resiliência. Sempre tenho que trabalhar com os mais diversos cenários e ter planos A, B, C e D. Sempre repito que eu só lido com o “não”, porque, se a solução já existisse e fosse comum para todos, não precisariam do meu trabalho. Estou constantemente lidando com o que NÃO funciona, NÃO existe, NUNCA fizeram antes. Num cenário de desafios sociais, ambientais e de crédito, preciso lidar com diversos atores: governo, indústria, fornecedores informais que precisamos formalizar, cada um com suas regras e formas de trabalhar. Algumas precisam ser mudadas, e obviamente ninguém vai aceitar tudo do meu jeito. Então preciso conhecer, tentar um caminho que dá errado, tentar outro, ouvir as diferentes partes, fazer alianças das mais diversas naturezas e seguir por um caminho possível. É um aprendizado constante. Mas não me lembro de fazer concessões que sejam uma traição. Burlar uma lei, pagar um benefício para alguém para o processo andar são ideias que já apareceram na mesa, propostas de fornecedores sobre como algumas coisas funcionam, mas que eu nem cogito. Ou eu vou fazer certo, ou eu vou fazer certo. E vou insistir até fazer do jeito certo, mesmo que isso atrase o processo. Lido com muitos nãos, mas não lido com o que não pode estar estampado no jornal no dia seguinte. Minha vida inteira foi assim: pode tudo virar notícia que eu não me envergonho de nada. Não seria para ajudar as pessoas que eu mancharia a minha reputação. Meu sonho ainda é provar que o sistema pode funcionar sem “jeitinhos”.
Você diz que quer que o agricultor familiar deixe de ser visto como peso social e passe a ser percebido como investimento estratégico. Mas existe um risco em precisar provar o valor de uma pessoa pela capacidade de gerar retorno econômico, ambiental ou produtivo?
Andrea – Sim, existe esse risco. Mas, quando digo que quero que o agricultor familiar seja visto como investimento estratégico, não estou dizendo que o valor daquela pessoa está naquilo que ela produz ou no retorno que consegue gerar. Estou dizendo quase o contrário: precisamos mudar a lógica pela qual olhamos para ela. Por muito tempo, o agricultor familiar foi tratado como alguém que precisa ser assistido, e não como alguém que tem conhecimento, patrimônio, capacidade de decisão e potencial para gerar prosperidade. O problema não é reconhecer o valor econômico, ambiental e produtivo do seu trabalho. O problema seria reduzir uma pessoa a isso. Para mim, regeneração começa justamente quando conseguimos juntar duas coisas que muitas vezes aparecem como opostas: dignidade e prosperidade. O agricultor não precisa escolher entre ser valorizado como ser humano e ser reconhecido como agente econômico e parte da solução para a crise climática. O primeiro está fora de questão. O segundo e o terceiro finalmente começam a ser enxergados. No Amazon People, nossa ambição é que ele esteja no centro da equação. Que tenha acesso a capital, conhecimento, mercado e tecnologia para fazer escolhas melhores para sua família, sua terra e seu futuro. O retorno econômico é importante porque dá autonomia e sustentabilidade ao agricultor familiar, mas não é o que dá valor àquela pessoa. Talvez a pergunta mais importante não seja “quanto esse agricultor vale?”, mas “por que demoramos tanto para reconhecer o valor que já estava ali?”.
Você passou muitos anos se preparando para trabalhar com sustentabilidade e impacto, mas só em 2022 deixou o mundo corporativo. O que ainda precisava acontecer para que aquilo em que você já acreditava se transformasse numa mudança de vida?
Andrea – Sou filha de artista plástica com engenheiro agrônomo, e herdei dos meus pais essa conexão com a natureza. Minha mãe foi certamente uma das primeiras pessoas que conheci a trocar alimentos convencionais por orgânicos e sempre me dizia que fazíamos parte da natureza, e não que a tínhamos à nossa disposição. Em 2006, quando trabalhava na Tetra Pak, fiz meu primeiro curso de sustentabilidade e nunca vou esquecer como tudo passou a fazer sentido para mim. Levei essa consciência de circularidade e de impacto social e ambiental para o marketing e a comunicação, que são minha formação e a área em que construí minha carreira corporativa. Por diversas vezes, tive vontade de fazer coisas que gerassem impacto positivo maior, que criassem um ganha-ganha real para todos os envolvidos, e não conseguia, ou não podia, por causa de visões diferentes e até de inversões de valores das pessoas com quem trabalhei. Então, por vezes, tinha vontade de largar tudo, empreender ou trabalhar somente com impacto social. Mas aí vinha o medo: eu já havia conquistado minha independência financeira cedo e era divorciada, com uma filha. Tinha medo de arriscar o que era dela. Tinha medo de não conseguir a mesma remuneração e a mesma estrutura “mãe” que o mundo corporativo oferecia. Mas essa motivação pelo impacto positivo me acompanhou por toda a trajetória corporativa. Levei iniciativas de impacto social e ambiental para dentro das empresas em que trabalhei e fiquei conhecida como “a Dea que gosta desse tema”, numa época em que se falava de sustentabilidade e responsabilidade social, mas a sigla ESG nem existia ainda. Nunca deixei de estudar sustentabilidade, desenvolvimento humano, impacto positivo, economia circular e, mais tarde, governança. Hoje entendo que o que parecia falta de coragem também fazia parte da construção da minha história. Fui melhor nos lugares em que tive espaço para fazer do meu jeito e trazer esse olhar de impacto para o trabalho.
Olhando para trás, há alguma escolha que hoje você percebe ter sido mais movida por medo, conforto ou segurança do que você gostaria de admitir na época?
Andrea – Olhando para trás, sinto que, em alguns lugares por onde passei, fiquei tempo demais, deixei a corda esticada demais e saí exausta. Eu poderia ter me poupado de muito sofrimento se tivesse tido coragem de me desligar antes. Hoje, não sei se vejo essas escolhas como erros. Elas me trouxeram repertório, relações, aprendizados e até ferramentas que eu precisava para fazer o que faço hoje. Não sei se preciso chamá-las de certas ou erradas. Sei que algumas foram escolhas de coragem e outras foram escolhas de medo, em momentos em que eu estava mesmo mais fragilizada. Hoje vivo com menos necessidade de segurança e mais confiança no caminho, mesmo quando ainda não consigo enxergar exatamente onde ele vai dar.
Quando essa preocupação com dar oportunidades às pessoas deixou de ser apenas um traço seu e virou causa profissional?
Andrea – Em 2016, fui chamada para apoiar a Morena Leite no Instituto Capim Santo, e foi lá que aprendi o termo “inclusão produtiva”. Também percebi que essa era a causa que mais me movia: levar oportunidades, em forma de diversas ferramentas, para incluir pessoas na população economicamente ativa. Ao longo da minha jornada, alguns conceitos foram ficando evidentes para mim: somos parte da natureza, não a temos à nossa disposição. A natureza é circular, e precisamos nos adaptar a isso para prolongar a vida na Terra. Quando deixei o mundo corporativo para me dedicar somente ao que eu acreditava, mergulhei na pauta da crise climática, da governança, do ESG, do investimento de impacto… E via muitos projetos voltados a resolver o problema climático, mas poucos que envolvessem as pessoas, e muitos projetos de inclusão produtiva que não consideravam o clima. Minha causa se tornou a união dessas duas coisas: encontrar um caminho para fazer diferença real na vida das pessoas de uma forma que contribua para um mundo mais sustentável e saudável para todos. Hoje trabalho somente com aquilo em que acredito e com uma causa que me mobiliza profundamente. Acordo feliz e motivada para trabalhar, gosto de ir para o Pará, conversar com os agricultores e debater os desafios, que são infinitos. Quero que as pessoas deixem de enxergar o agricultor familiar como um peso social e passem a enxergá-lo como um investimento estratégico.
À medida que seu trabalho cresce e se aproxima de empresas e investidores maiores, o que você tem medo de perder?
Andrea – Tenho medo de perder aquilo que considero mais valioso: a capacidade de escutar e de ser uma eterna aprendiz. Oro todos os dias, agradecendo por todas as oportunidades e pedindo sabedoria para manter os dois pés no chão e a mente alerta para tomar as decisões certas. Também não quero perder o contato com o campo e com os agricultores. Hoje, esse é meu lugar de inspiração, motivação e renovação de energia. O contato direto com as comunidades é um trabalho muito diferente e, ao mesmo tempo, muito enriquecedor. Nunca quero esquecer que são as comunidades, as pessoas, que dão sentido a tudo isso. Meu modelo de trabalho vai se consolidando com os aprendizados e as trocas com todas as pontas.
Qual foi a última coisa que você aprendeu e que a obrigou a rever uma certeza sobre si mesma ou sobre o seu trabalho?
Andrea – Recentemente aprendi, finalmente, a ouvir mais a minha intuição, a conversar com ela, fazer perguntas e esperar as respostas. Durante muito tempo achei que só os dados, os testes e as pesquisas traziam respostas, e que eu precisava analisar tudo profundamente, considerando opiniões diferentes das minhas, mas sempre embasadas em fatos e dados. E a única voz que eu não ouvia era a da minha própria intuição. Muitas vezes ela voltou depois e disse: “eu tentei avisar”. Hoje ela é uma voz ouvida à mesa, ao lado dos dados, das opiniões e das visões diversas. Com isso, também aprendi a tomar decisões mais rápidas e, assim, a aprender fazendo, que sempre foi minha melhor forma de aprendizado. Sobre meu trabalho, sei que sei aprender e sei reunir pessoas que sabem fazer o que eu não sei. E isso pode me levar a qualquer lugar.
Antes de se tornar executiva, empreendedora, conselheira e profissional de impacto, quem você imaginava que seria? Que traço da menina que você foi ainda ajuda a explicar as escolhas da mulher que se tornou?
Andrea – Quando eu era menina, dizia que seria juíza. Já queria ver mais justiça no mundo e achava que esse era um bom caminho. De alguma forma, registrei que as pessoas me diziam que eu seria uma boa advogada, já que sempre tive coragem de colocar minha opinião, gostava de argumentar e de aprofundar conversas. Mas lembro que sempre fui fascinada por pessoas. Gostava de entender como elas viviam, por que faziam determinadas escolhas e como as coisas poderiam ser diferentes. Também sentia uma espécie de “culpa” por ter mais oportunidades do que outras pessoas. Sempre tive muita empatia pela dor do outro, principalmente daqueles que não tiveram as mesmas oportunidades que eu, que não tinham estrutura familiar ou acesso a recursos. E olha que passei por diversos desafios na vida: perdi meu pai aos 7 anos, mudei para São Paulo aos 10, vi minha mãe trabalhar loucamente para sustentar a mim e aos meus irmãos, tive problemas de saúde mental na adolescência… Mas sempre vi o copo meio cheio. Sempre fui grata por ter tido estrutura para buscar a cura com os melhores médicos, pela casa da minha avó cheia de amor para nos receber quando perdi meu pai. E eu pensava: “O que será que fazem as pessoas que passam por isso, mas não têm as mesmas possibilidades que eu tenho?” Minha família também foi inspiração e me fez ser quem sou. Minha avó recolhia pessoas embriagadas caídas na sarjeta e cuidava delas, ensinava a ler e escrever, acompanhava até que conseguissem um trabalho, ou ela mesma empregava a pessoa em seu sítio. Mudou a vida de várias pessoas. Meu avô apoiou pequenos agricultores perto do município de Piracaia, para onde se mudou depois de se aposentar. Criou uma feira orgânica, um escritório de apoio à formalização desses agricultores e trabalhou nessa função até morrer, aos 93 anos. Eu o via e pensava: meu avô encontrou uma forma de trabalho com foco em ajudar as pessoas. Foram 27 anos no mundo corporativo e posso dizer que sempre amei trabalhar com pessoas e que me tornei uma boa líder, genuinamente preocupada com cada uma delas, feliz por ter aberto caminhos para muitos profissionais, principalmente mulheres. Se alguém me perguntasse, caso eu não precisasse trabalhar por dinheiro, o que eu faria, responderia que teria uma ONG ou trabalharia em uma, só para ajudar as pessoas a terem mais oportunidades.
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