Por Luis Madi – Coordenador da Plataforma de Inovação Tecnológica
Tenho acompanhado uma proliferação de informações imprecisas sobre os “alimentos ultraprocessados”. Em fevereiro, vi várias matérias como essa “OMS inclui presunto na mesma classificação cancerígena do cigarro”. Com intenção de incentivar a redução desses alimentos na dieta, a Organização Mundial da Saúde (OMS) assume que essa classificação é compreensível e clara para o consumidor, o que não ocorre. Trata-se de um termo vago e confuso.
Na minha visão, faltam embasamentos científicos e a aplicação rigorosa da Ciência dos Alimentos em certas posições da OMS, Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) sobre alimentos industrializados e dietas equilibradas. Um estudo da Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com a Novo Nordisk, revelou que parte dos consumidores não compreende os rótulos e associa esses produtos à ideia de “infância feliz”. Mas o problema é anterior ao rótulo: o que, afinal, define um ultraprocessado? A classificação Nova é genérica e não contribui para a clareza necessária.
Recentemente, o ministro Alexandre Padilha propôs à OMS uma restrição global à venda desses produtos. No entanto, não explicou o que eles são, quais são ou por que foram classificados como ultraprocessados. Tal medida prejudica justamente a população mais carente, ao restringir o acesso a alimentos essenciais que compõem a merenda escolar e a cesta básica.
Mesmo trabalhos de instituições respeitadas, como o coordenado pela Universidade de Fortaleza (Unifor) em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual do Ceará (UECE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fiocruz do Ceará, acabam limitados por essa classificação frágil. Embora o estudo aponte o avanço do consumo desses itens em povos e comunidades tradicionais, a base conceitual genérica e vaga do termo ultraprocessado impede conclusões definitivas sobre nutrição e saúde.
É preciso desmistificar a ideia de que o alimento industrializado é um inimigo. Pelo contrário: a industrialização é uma das ferramentas para combater a fome e garantir a segurança alimentar, proporcionando uma dieta equilibrada e nutritiva acessível e segura, em especial para a população de baixa renda.
Como bem destacou a nutricionista Marcia Terra da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban) em artigo recente no Estadão: “A indústria de alimentos está sob ataque e em silêncio”. Faço coro ao seu convite e convoco entidades e academias do setor para auxiliarem na comunicação com a sociedade sobre a importância dos industrializados.
Outras publicações recentes, associam a comida industrializada ao cigarro, gerando medo e confusão nos consumidores, além de reforçar a ideia de que esses alimentos devem ser evitados.
O ITAL – Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital/Apta), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo , tem se posicionado desde 2015 sobre o tema, com várias publicações e documentos, todos disponíveis online e gratuitamente. Em 2018, publicamos o documento “Alimentos Industrializados: A importância para a sociedade brasileira“, trazendo os fatos que desmentem a existência dos alimentos ultraprocessados. Também lançamos os sites: Indústria de Alimentos 2030 e Alimentos Industrializados. Já em 2023, publicamos o Brasil Food Safety Trends 2030, explicando o processo evolutivo da indústria de alimentos, principalmente em relação à segurança dos alimentos.
Em maio, defendi na Comissão de Educação e Cultura do Senado que legislar sobre o Projeto de Lei nº 4501/2020 – que dispõe sobre a comercialização, propaganda, publicidade e promoção comercial de alimentos e bebidas ultraprocessados e uso de frituras e gordura trans em escolas públicas e privadas, em âmbito nacional – é impraticável enquanto a classificação for subjetiva. Como definir o que entra ou sai das escolas sem critérios científicos?
Nessa mesma comissão, também participei da audiência pública para discutir o impacto negativo dos ultraprocessados na saúde pública, em especial dentre os jovens. Nesta oportunidade, mostrei que o termo “ultraprocessado” não existe na ciência e tecnologia de alimentos, além disso, destaquei que é mais importante discutir sobre segurança dos alimentos.
A OMS publicou estudo recente sobre as doenças transmitidas por alimentos, onde avaliou 42 perigos em 194 países, e reforçou que a segurança dos alimentos continua sendo uma ferramenta importante para a saúde pública da humanidade. Isso só é possível graças à evolução da Ciência e da Engenharia de Alimentos.
Referências:
Consumo de ultraprocessados avança entre povos e comunidades tradicionais no Brasil. Disponível em: https://abori.com.br/alimentos/ultraprocessados-povos-tradicionais/.
LARISSA. Comidas processadas piores que cigarro? Estudo aponta semelhanças. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/aqui/2026/03/13/comidas-processadas-piores-que-cigarro-estudo-aponta-semelhancas/.
LIMA, K. Novas estimativas da OMS 2026. Disponível em: https://semearfoodsafetyculture.com.br/novas-estimativas-da-oms-2026/.
R7.COM. OMS inclui presunto na mesma classificação cancerígena do cigarro. Disponível em: https://noticias.r7.com/fala-ciencia/oms-inclui-presunto-na-mesma-classificacao-cancerigena-do-cigarro-30012026/.
TERRA, M. O Ministro que Combate a Indústria e Esquece que o Brasil e o Mundo Dependem Dela. Disponível em: https://www.linkedin.com/pulse/o-ministro-que-combate-ind%C3%BAstria-e-esquece-brasil-mundo-marcia-terra-ljkuf/?trackingId=8Vqe7m1odFFs%2FRlv93yWfw%3D%3D.
TERRA, M. Indústria de alimentos: sob ataque e em silêncio. Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/industria-de-alimentos-sob-ataque-e-em-silencio/?srsltid=AfmBOor-XkcpQFnv_hzTyhM6NK842QHdBz9HgnhpJta7xz8npntf3YX8.
Ultraprocessados viram símbolo de infância feliz em comunidades urbanas do Brasil, enquanto rotulagem frontal é pouco compreendida, aponta estudo do UNICEF. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/ultraprocessados-viram-simbolo-de-infancia-feliz-em-comunidades-urbanas-do-brasil.
