País asiático prioriza investimentos em tecnologias alimentares através de universidades e grandes corporações
O mercado chinês de tecnologia alimentar tem despertado crescente curiosidade entre investidores e especialistas do setor. Embora não esteja na vanguarda em termos de financiamento para startups de agtech e foodtech, a China vem se consolidando como líder em inovação através de uma abordagem diferenciada, priorizando universidades e grandes corporações estabelecidas.
Financiamento concentrado em marcas, não em disrupção
Segundo Matthieu Vincent, co-fundador do DigitalFoodLab, consultoria de inovação estratégica especializada no futuro da agricultura e da alimentação, a China ocupa a terceira posição mundial em captação de recursos para startups de AgriFoodTech, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. Segundo Matthieu
“Após os picos alcançados entre 2016 e 2021 ligados às startups de entrega de comida, o financiamento diminuiu para níveis extremamente baixos e agora está direcionado principalmente para marcas inovadoras,” comenta Matthieu.
O cenário atual revela poucos investimentos em áreas consideradas disruptivas como proteínas alternativas, resiliência agrícola ou tecnologias para envelhecimento saudável. A maioria dos recursos está sendo direcionada para marcas estabelecidas, diferentemente do padrão observado em outros mercados.
Universidades lideram patentes em carne cultivada
A análise da Green Queen sobre os 20 principais depositários de patentes em carne cultivada mundialmente revelou um dado surpreendente: 8 dos 20 principais requerentes são universidades chinesas e uma startup local.
Esta tendência é fortalecida pelo crescente apoio governamental, exemplificado pela criação de um novo centro de carne cultivada com investimento de US$ 11 milhões. Enquanto o Ocidente reduz investimentos em proteínas alternativas, a China avança com modelo próprio baseado em instituições estabelecidas.
O paralelo com a indústria de painéis solares é inevitável. A tecnologia inicial foi desenvolvida nos EUA e Europa, mas a falta de vontade política impediu o scale-up, permitindo que empresas chinesas dominassem o mercado global com produtos competitivos.

Nova guerra do delivery ameaça equilíbrio global
O mercado chinês de delivery vivencia uma segunda fase competitiva, desta vez protagonizada por grandes corporações como a ByteDance, proprietária do TikTok.
Esta competição intensificada impacta negativamente diversos stakeholders: empresas como Alibaba registram resultados ruins, motoristas enfrentam maior pressão por menos remuneração, restaurantes são espremidos pela competição e a qualidade dos alimentos deteriora.
Segundo a análise de Matthieu, do DigitalFoodLab, o que é diferente na China é que uma nova guerra de delivery começou recentemente.
“Os novos players não são startups, mas empresas com recursos profundos como ByteDance”.
Embora essa competição aumentada seja boa para os consumidores (quem diz não a entregas de café com leite por €1?), é bastante prejudicial:
- Para as próprias empresas: a Alibaba postou resultados bem ruins devido à crescente competição e custos adicionais de marketing e delivery;
- Motoristas que são pagos menos e estão recebendo cada vez mais pressão para multiplicar entregas em alta velocidade;
- Restaurantes que estão sendo espremidos por essa competição intensificada;
- Qualidade da comida (os cafés com leite de €1 e itens alimentares não tendem a ser da mais alta qualidade).
No Brasil, empresas chinesas como Meituan e 99Food já demonstram interesse em ampliar investimentos no mercado de delivery e tecnologia alimentar, sinalizando possível expansão desta estratégia competitiva.
Implicações geopolíticas preocupantes
A concentração da produção de tecnologias alimentares de alto valor na China representa desafio geopolítico significativo. A possível hegemonia chinesa em proteínas alternativas, tecnologias para envelhecimento saudável e insumos agrícolas demanda análise mais criteriosa dos formuladores de políticas globais.
A estratégia chinesa de priorizar instituições estabelecidas sobre startups pode se mostrar mais eficaz a longo prazo, replicando o sucesso observado em outros setores tecnológicos.
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