*Por Sérgio Ailton Saurin, CEO da Massari Fértil e Morro Verde
A agricultura regenerativa ganhou espaço nas discussões sobre sustentabilidade, segurança alimentar e mudanças climáticas. A proposta de recuperar a saúde do solo, melhorar o uso da água e preservar a biodiversidade responde a desafios concretos da produção agrícola. Contudo, o problema começa quando um conceito amplo passa a ser tratado como garantia de resultado, sem que os benefícios sejam medidos ou as condições necessárias para alcançá-los sejam consideradas.
A questão não é questionar a importância de produzir de maneira mais sustentável, mas separar aquilo que já encontra respaldo científico do que ainda precisa de mais evidências. Em um setor que depende de planejamento, produtividade e decisões técnicas, essa distinção é fundamental para que a sustentabilidade se traduza em resultados consistentes no campo.
É preciso cautela: nem tudo que reluz é ouro. A questão não é questionar a importância de produzir de maneira mais sustentável, mas distinguir o que já encontra respaldo científico daquilo que ainda precisa de comprovação. No campo, a sustentabilidade deve se traduzir em resultados mensuráveis e consistentes.
Um dos primeiros desafios está na própria definição de agricultura regenerativa. Uma revisão da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que analisou 229 artigos científicos e 25 páginas de organizações do setor, identificou diferentes interpretações para o conceito. Enquanto algumas priorizam práticas, como a redução do revolvimento do solo e o uso de culturas de cobertura, outras enfatizam resultados, como o aumento do carbono orgânico, a recuperação da biodiversidade e a melhoria da qualidade do solo.
Adotar uma prática associada à agricultura regenerativa não significa, automaticamente, que uma propriedade esteja regenerando seu solo ou reduzindo seus impactos ambientais, já que é necessário verificar o que mudou, em qual intensidade, durante quanto tempo e em comparação com qual situação inicial.
Hoje, a ciência já oferece evidências importantes sobre algumas dessas práticas. Um estudo publicado em 2025 na revista Soil Biology and Biochemistry, que reuniu resultados de 90 meta-análises, identificou efeitos positivos de estratégias como a redução do revolvimento do solo, a incorporação de matéria orgânica e o uso de culturas de cobertura sobre diferentes grupos de organismos que vivem no solo. Esses resultados reforçam a importância do manejo para a ciclagem de nutrientes e o funcionamento dos sistemas agrícolas, embora também apontem lacunas de conhecimento.
Outra evidência vem de uma análise publicada em 2025 na revista Scientific Reports. O trabalho avaliou 147 estudos realizados em diferentes regiões agroecológicas da Índia e identificou resultados favoráveis de práticas como a aplicação de composto, esterco, biocar e a manutenção de resíduos vegetais na superfície do solo para o aumento do carbono orgânico. Os efeitos variaram conforme a estratégia adotada e as condições locais, com benefícios mais expressivos em períodos superiores a cinco anos.
Esses resultados demonstram o potencial de determinadas práticas, mas não autorizam a sua aplicação indiscriminada. Evidências obtidas em solos e condições climáticas indianas, por exemplo, não podem ser simplesmente transferidas para as diferentes regiões produtoras do Brasil, tendo em vista queelas oferecem referências relevantes, mas precisam ser complementadas por pesquisas conduzidas em condições semelhantes às de cada sistema de produção.
Textura e fertilidade do solo, regime de chuvas, temperatura, cultura cultivada e histórico de manejo interferem na resposta agronômica. Uma prática eficiente em determinada propriedade pode apresentar resultados diferentes em outra, mesmo quando aplicada com o mesmo objetivo. Por isso, não existe uma receita única capaz de produzir os mesmos benefícios em qualquer situação.
A diversificação agrícola também merece atenção. Uma meta-análise publicada em janeiro de 2026 na revista Nature Communications, que reuniu 184 meta-análises, identificou benefícios de estratégias de diversificação para a rentabilidade financeira, a biodiversidade, a polinização, a qualidade do solo e o sequestro de carbono. Entretanto, não encontrou efeitos estatisticamente significativos sobre a produtividade das culturas no conjunto de resultados analisados.
Essa conclusão é importante porque mostra que benefícios ambientais não significam, necessariamente, aumento imediato de produtividade. A diversificação pode fortalecer o funcionamento dos sistemas agrícolas, mas cada resultado precisa ser avaliado conforme o indicador utilizado, o tempo de implementação e as condições em que as práticas foram adotadas.
Também é necessário considerar o aspecto econômico. A transição para novos sistemas de manejo pode exigir investimentos em máquinas, sementes, planejamento operacional e capacitação. Em alguns casos, os benefícios aparecem gradualmente, enquanto os custos são imediatos. Sem avaliar a produtividade, o custo por hectare e a rentabilidade ao longo de várias safras, o produtor pode adotar uma estratégia promissora sem conhecer seus efeitos financeiros.
Isso não significa subordinar os ganhos ambientais exclusivamente ao retorno imediato. Significa reconhecer que uma transformação agrícola precisa ser tecnicamente viável e economicamente sustentável para permanecer ao longo do tempo. A recuperação do solo exige continuidade, acompanhamento e capacidade de adaptação.
Outro cuidado é evitar a ideia de que regenerar significa necessariamente eliminar insumos agrícolas. A fertilidade do solo depende do equilíbrio entre suas propriedades físicas, químicas e biológicas. A matéria orgânica, a atividade dos microrganismos e a cobertura vegetal são componentes relevantes, mas não substituem, por si só, a necessidade de fornecer os nutrientes demandados pelas culturas. O manejo adequado depende de diagnóstico, análise de solo e recomendação agronômica.
Nesse processo, a micronização é uma etapa importante no preparo das fontes minerais. A redução do tamanho das partículas amplia a superfície de contato com o solo e a água, o que favorece a dissolução e a reação dos minerais. No caso dos componentes corretivos, a micronização pode acelerar a neutralização da acidez nos pontos em que eles reagem. Isso cria condições mais favoráveis ao desenvolvimento das raízes e ao aproveitamento de macro e micronutrientes.
As partículas mais finas também podem ser transportadas pela água através dos poros e canais do solo, o que contribui para sua ação em subsuperfície. Essa possibilidade é especialmente relevante em pastagens, culturas perenes, soqueiras de cana e sistemas de plantio direto, nos quais a incorporação é limitada ou indesejável. Esse deslocamento, entretanto, depende da granulometria, da estrutura do solo e da infiltração de água. Quando essas condições são adequadas, a micronização pode favorecer um manejo com menor revolvimento, que preserva a estrutura, a cobertura e a atividade biológica do solo.
O mesmo rigor deve ser aplicado às alegações relacionadas ao carbono. O aumento do carbono orgânico do solo pode representar um benefício ambiental importante, mas sua quantificação exige critérios consistentes, medições adequadas e acompanhamento ao longo do tempo. Também é necessário considerar a permanência do carbono armazenado e as emissões associadas ao sistema de produção. Sem esse cuidado, uma possibilidade agronômica pode acabar apresentada como uma promessa ambiental que os dados não sustentam.
O Brasil tem condições particulares para avançar nessa discussão. A diversidade de solos e climas, a escala da produção agrícola e a experiência acumulada em sistemas como o plantio direto e a integração entre lavoura, pecuária e floresta oferecem oportunidades para desenvolver soluções adaptadas à realidade nacional. O desafio é ampliar a geração de evidências e aproximar a pesquisa das decisões tomadas pelos produtores.
Para isso, precisamos de critérios objetivos. A avaliação de uma iniciativa regenerativa deve partir de uma linha de base e acompanhar indicadores como carbono orgânico, infiltração de água, erosão, atividade biológica, produtividade e custos de produção. Os resultados precisam ser comparados ao longo do tempo, com métodos transparentes e adequados às condições locais.
A agricultura regenerativa tem potencial para contribuir com uma produção mais resiliente e com a conservação dos recursos naturais. Mas esse potencial não deve ser confundido com um resultado garantido, tampouco utilizado como argumento suficiente para classificar uma prática ou propriedade como sustentável.
O avanço do setor depende menos da força de um rótulo e mais da capacidade de demonstrar o que funciona, em quais condições e com quais resultados. A ciência não enfraquece a agricultura regenerativa ao apontar suas limitações, muito pelo contrário, já que oferece instrumentos para aperfeiçoá-la, identificar os seus benefícios reais e corrigir expectativas que não encontram respaldo nos dados.
A Massari Fértil e a Morro Verde formam uma das maiores plataformas brasileiras integradas de mineração, beneficiamento e formulação de fertilizantes minerais mistos naturais para o agronegócio.
Com ativos minerais estratégicos, unidades industriais e operações logísticas em Minas Gerais e São Paulo, além de parcerias produtivas em diferentes regiões do país, a companhia opera uma cadeia verticalizada que abrange desde a extração mineral até a formulação de soluções para nutrição e correção de solos.
Comprometida com a sustentabilidade, a inovação e o fortalecimento da produção nacional de insumos agrícolas, a Massari Fértil e a Morro Verde contribuem para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados, ampliando a competitividade do agronegócio, a segurança alimentar e a soberania produtiva do país.
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