Pesquisa inédita da Epamig com Nespresso comprova que plantio de biodiversidade vegetal nas lavouras atrai inimigos naturais de pragas e fortalece resiliência climática
Uma pesquisa conduzida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) em parceria com a Nespresso revela que a agricultura regenerativa pode ser a resposta para um dos maiores desafios da cafeicultura brasileira. O estudo, realizado em 14 fazendas do Cerrado Mineiro desde 2021, demonstrou que o plantio estratégico de cobertura vegetal nas entrelinhas do café e de árvores e arbustos nos corredores ecológicos reduziu em aproximadamente 30% a incidência do bicho-mineiro, a praga mais temida pelos produtores de café.
A iniciativa busca transformar as lavouras convencionais em sistemas que funcionam de maneira similar às florestas naturais, atraindo uma fauna benéfica de insetos predadores que combatem naturalmente as pragas. Ao mesmo tempo, o método fortalece a capacidade das plantações de resistirem às mudanças climáticas e diminui a dependência de defensivos químicos.
Biodiversidade como aliada do cafeicultor
A pesquisa, iniciada em 2021, envolveu a seleção criteriosa de espécies vegetais adequadas a cada ecossistema presente nas fazendas participantes. Entre elas está a Fazenda São Mateus, produtora do Guima Café, eleito um dos melhores cafés do mundo em 2023 pela Illy Café e pioneira na adoção de técnicas de agricultura regenerativa no Brasil.
Segundo Madelaine Venzon, pesquisadora da Epamig responsável pelo estudo, a abordagem cria algo comparável a uma agrofloresta em linha.
“É como se fosse uma agrofloresta em linha. A agricultura regenerativa aproxima o sistema agrícola do funcionamento natural dos ecossistemas, com pilares focados na saúde do solo e na reversão da perda de biodiversidade.”
Resultados comprovam aumento de predadores naturais
Após quatro anos de observação, os resultados preliminares apresentados pela equipe de Venzon confirmam mudanças significativas no ecossistema das lavouras. Houve um aumento expressivo de vespas e formigas que atuam como inimigos naturais das pragas do café, além de ácaros predadores que combatem ácaros nocivos. A população do bicho-mineiro foi reduzida quase pela metade nas áreas sob manejo regenerativo.

A pesquisadora da Epamig explica que os insetos representam 70% dos animais e são considerados bioindicadores ambientais. Quanto maior a diversidade de espécies em um local, mais próximo o sistema está de funcionar como uma floresta natural.
“Percebemos um aumento da diversidade de insetos benéficos de uma forma geral. Os insetos representam 70% dos animais, são considerados bioindicadores. Quanto mais espécies no local, mais próximo de um sistema de florestal. E eventos climáticos extremos comprometem a população desses organismos vivos, essenciais para as saúde das plantações.”
Resiliência climática e serviços ecossistêmicos
A agricultura regenerativa vai além do controle de pragas. O modelo desenvolvido pela Epamig e seus parceiros busca minimizar os impactos das mudanças climáticas sobre culturas sensíveis como o café, preservando simultaneamente os serviços ecossistêmicos fundamentais que a natureza oferece.
Madelaine Venzon ressalta a importância desses serviços para a sustentabilidade da produção.
“Com a agricultura regenerativa, buscamos minimizar os efeitos das mudanças climáticas, que afetam diretamente culturas como o café, e preservar os serviços ecossistêmicos que a natureza nos oferece, como polinização, controle biológico de pragas e melhoria do solo.”
Guima Café reforça compromisso com produção regenerativa
Ricardo de Oliveira, supervisor do Guima Café, afirma que o estudo científico valida práticas que a fazenda já incorporou em sua rotina produtiva. A filosofia da propriedade se baseia no princípio de que quanto mais próxima a lavoura estiver do funcionamento de uma floresta, maior será sua resiliência.
“Esse é o caminho que escolhemos para produzir um café de excelência e, ao mesmo tempo, regenerar o meio ambiente.”
O Guima reúne um portfólio raro de certificações entre produtores de cafés especiais. Possui a certificação Rainforest Alliance, o Certifica Minas, o AAA da Nespresso e o Café Practices. A fazenda foi ainda a quarta propriedade no mundo a conquistar a certificação britânica Regenagri, voltada especificamente à cafeicultura regenerativa.
Modelo inspira novas práticas sustentáveis no setor
A parceria entre Epamig e Nespresso mobilizou fazendas do Cerrado Mineiro para demonstrar como a agricultura regenerativa pode transformar a produção de café. O modelo contempla tanto a dimensão ambiental quanto econômica, mostrando que práticas sustentáveis podem coexistir com a produção de cafés de alta qualidade.
A pesquisa se alinha a outras iniciativas sustentáveis no setor cafeeiro brasileiro, como o uso de colmeias para melhorar a polinização e qualidade dos grãos, e a adoção de sistemas agroflorestais que integram produção agrícola com conservação florestal. Esses esforços ganham relevância especial em um momento em que as mudanças climáticas representam ameaças crescentes à cafeicultura global.
O trabalho desenvolvido no Cerrado Mineiro pode servir de referência para outras regiões produtoras, oferecendo um caminho concreto para conciliar produtividade, qualidade e responsabilidade ambiental na cafeicultura brasileira.
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