Estudo da Embrapa Hortaliças mapeia a fragilidade de cinco grupos de culturas e indica ajustes de calendário, genética, água, microclima e sanidade conforme a região
Tomate, alface, cenoura e cebola têm um ponto em comum pouco confortável. A maioria das hortaliças consumidas rende melhor entre 18 ºC e 25 ºC e não tolera nem a falta nem o excesso de água. Com o El Niño no horizonte, essa faixa estreita vira ponto de atenção para quem produz e para quem compra.
Pesquisadores da Embrapa Hortaliças, no Distrito Federal, publicaram um estudo com diretrizes para tornar a olericultura brasileira mais resiliente. O trabalho cruza a fisiologia das plantas com as vulnerabilidades produtivas e propõe estratégias de adaptação para o território nacional.
A análise trata ondas de calor mais longas e intensas, chuvas volumosas e secas agrícolas como uma sequência contínua. O estudo integra o esforço institucional da Embrapa, que já reúne mais de 160 medidas para a gestão de riscos climáticos diante de fenômenos extremos.
O que o El Niño faz com a lavoura
O estudo correlaciona os cenários de temperaturas elevadas ao aumento da evaporação e da demanda hídrica. O resultado é maior escassez de água, com risco de salinização do solo e de surtos de pragas.
No extremo oposto, as chuvas intensas causam encharcamento e excesso hídrico. Isso compromete o desenvolvimento das raízes e o ciclo de vida das plantas. Também aumenta a incidência de doenças fúngicas e bacterianas.
Cinco grupos, cinco pontos fracos
As exigências térmicas e hídricas variam de espécie para espécie. Por isso, o trabalho separou as principais hortaliças em grupos e identificou a fragilidade de cada um.
| Grupo | Culturas | Principal vulnerabilidade |
|---|---|---|
| Solanáceas | Tomate, pimentão e batata | Alta sensibilidade ao calor, que afeta florescimento e frutificação |
| Folhosas e brássicas | Alface, coentro, couve, brócolis, couve-flor e repolho | Área foliar exposta ao calor extremo e à escassez de água |
| Aliáceas | Alho e cebola | Dependência de irrigação regular e sensibilidade a variações de temperatura |
| Raízes e tubérculos | Cenoura, beterraba e batata-doce | Formação das raízes prejudicada por excesso ou falta de água |
| Cucurbitáceas | Melão, melancia, pepino, abóbora e abobrinha | Necessidade de água uniforme; calor prejudica da germinação aos frutos |

Uma transição, não uma medida pontual
Os autores avaliam que as recomendações vão além de um ajuste emergencial. Para o pesquisador da Embrapa Hortaliças, Marcos Brandão Braga, a proposta representa uma mudança estrutural na forma de produzir. Ele resume a visão do grupo ao afirmar:
“As recomendações propostas não devem ser enxergadas como uma opção pontual, mas sim como o início de uma transição na forma como se cultivam hortaliças no Brasil, por meio de sistemas mais resilientes e adaptados climaticamente”.
Os seis eixos de atuação
Para reduzir as vulnerabilidades, os pesquisadores definem seis eixos prioritários para os produtores:
- Monitoramento constante: acompanhamento do risco climático e das condições locais.
- Ajuste de calendário e genética: calendários agrícolas flexíveis, diversificação de culturas e materiais geneticamente adaptados.
- Manejo integrado de recursos: gestão conjunta de água, conservação do solo e sistemas de drenagem.
- Manejo microclimático: proteção das lavouras contra a exposição direta aos extremos térmicos.
- Manejo fitossanitário orientado ao risco: controle preventivo de pragas e doenças, apoiado no diagnóstico climático.
- Validação de tecnologias conservacionistas: fortalecimento do cultivo mínimo e do Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH).
No último eixo, Braga relata que os sistemas conservacionistas reduzem a temperatura e a amplitude térmica na superfície do solo. Eles também amortecem o impacto das gotas de chuva e favorecem a infiltração. Com isso, diminuem a evaporação, o escoamento superficial e a erosão.

Cada região, uma prioridade
As diretrizes mudam conforme o risco climático de cada parte do país. No Norte e no Nordeste, a prioridade é a irrigação localizada e o manejo da salinidade. No Sul, o foco é controlar encharcamentos e doenças.
No Centro-Oeste e no Sudeste, o estudo destaca sensores de umidade, telas anti-insetos e cultivo protegido. Esse debate regional conversa com a análise da Embrapa sobre as estratégias do El Niño nas cinco regiões do país, publicada pelo Food Forum News.
O trabalho também traz uma matriz de resumo. Ela associa cada risco, como calor excessivo, déficit hídrico, chuvas intensas, salinidade, alta radiação e pressão fitossanitária, aos grupos mais vulneráveis e aos eixos de resposta.

Resiliência além do El Niño
Os desafios da olericultura ultrapassam os limites de episódios isolados do fenômeno. A combinação de calor, alta demanda evaporativa, oscilação hídrica e pressão fitossanitária exige soluções integradas. Braga reforça que não há resposta única e que a resiliência depende de várias frentes ao mesmo tempo:
“Por isso, a resiliência depende da integração entre genética adaptada, manejo eficiente da água, conservação e drenagem do solo, manejo do microclima, diversificação, cultivo protegido e gestão fitossanitária”.
A estratégia está detalhada em estudo assinado por Marcos Brandão Braga, Samuel Cordeiro Vitor Martins e Carlos Eduardo Pacheco Lima, pesquisadores da Embrapa Hortaliças, em Brasília (DF).
