Com apoio da CATI e incentivos municipais, Americana construiu uma rede de cerca de 250 hortas, o litoral paulista avança na transição agroecológica e a iniciativa de Zeca Pagodinho em Duque de Caxias mostra o alcance social do modelo
As hortas urbanas deixaram de ser iniciativas pontuais e passaram a integrar a estratégia de abastecimento de várias cidades brasileiras. Em Americana (SP), políticas públicas, assistência técnica da CATI e incentivos municipais ajudaram a formar uma das redes mais consolidadas do estado. No litoral paulista, a mesma assistência técnica ganha uma nova frente: a transição agroecológica de hortas urbanas, periurbanas e rurais.
No Brasil, as hortas urbanas e periurbanas contribuem para a segurança alimentar e nutricional ao ampliar a oferta local de vegetais frescos. Elas também geram trabalho e renda e aproximam quem produz de quem consome. Estudos apontam ainda ganhos ambientais, como áreas verdes preservadas, regulação hídrica, conforto térmico e recuperação de terrenos ociosos.
A cidade de São Paulo, por exemplo, possui mais de 2.000 hortas urbanas, que funcionam como ambientes alimentares capazes de facilitar o acesso a alimentos frescos e, em muitos casos, de base ecológica. A Embrapa lembra que a agricultura urbana pode acontecer em casas, escolas e comunidades, combinando produção, educação ambiental e cuidado com solo e água.
Americana: uma rede de hortas dentro da cidade
Segundo a revista da Casa da Agricultura/CATI, o município chegou a ter cerca de 250 hortas urbanas. As áreas variam de 1.500 m² a 10.000 m² e são cultivadas sobretudo por famílias, em bairros residenciais, comerciais e industriais. Cerca de 200 famílias respondem pelas hortas, com acompanhamento técnico da CATI.
O perímetro urbano de Americana tem 133,63 km², conforme o plano municipal de arborização. Se as 250 hortas ocupassem em média 5.000 m², a área cultivada chegaria a 1,25 km², cerca de 0,94% do perímetro urbano. Trata-se de uma estimativa, pois não foi localizado dado oficial consolidado da soma das áreas. Na prática, é muito provável encontrar uma horta urbana na cidade num raio de 1,5 km, o que favorece muito a atividade e o consumo de alimentos frescos direto do produtor, com qualidade e preço mais acessível do que nas lojas de alimentos no varejo.

Lei municipal fixa regras para as hortas comunitárias
A legislação de Americana define horta comunitária como imóvel de 500 m² a 10.000 m². Pelo menos 70% da área deve ser cultivada em canteiros, com no mínimo seis espécies de hortaliças por ano. O programa admite hortas em áreas públicas, terrenos particulares, áreas de utilidade pública e faixas de servidão da CPFL.
A mesma lei prevê que a Prefeitura pode comprar produtos das hortas para a merenda escolar e para as creches municipais. Esse mecanismo conecta a produção local à alimentação pública e cria um canal de venda previsível para os horticultores.
Incentivos e assistência técnica sustentam o programa
O modelo de Americana combina estímulos econômicos, acompanhamento técnico e organização social. Entre as principais frentes do programa, estão:
- Circuitos curtos: venda direta a vizinhos, restaurantes, mercados, empresas de alimentos e centrais de abastecimento, conforme a CATI.
- Incentivos econômicos: isenção ou redução de IPTU, taxa de esgoto e cobrança pelo uso da água para hortas integradas ao programa.
- Assistência técnica: acompanhamento da Secretaria de Meio Ambiente, da Casa da Agricultura e da CATI, com capacitações obrigatórias para os participantes.
- Educação ambiental: a Casa da Agricultura mantém horta educativa, projetos hidropônicos, meliponário e atividades com escolas, incluindo Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs).
- Organização social: criação da associação de horticultores UNIHORTAS e cadastramento digital para mapear produção, técnicas e equipamentos.
Manejo busca reduzir o uso de defensivos
A orientação técnica da CATI em Americana inclui Boas Práticas Agrícolas, adubação equilibrada, otimização da irrigação e cultivo protegido. Também entram cuidados pós-colheita e controle alternativo de pragas. O conjunto indica uma política que busca reduzir riscos e a dependência de insumos químicos. Não foi localizada, porém, norma municipal que proíba defensivos agrícolas nas hortas.
Em Americana, a Casa da Agricultura vinculada à CATI Regional Piracicaba orienta os horticultores em boas práticas, certificação orgânica, crédito agrícola e venda direta ao consumidor. Esse caminho de redução gradual de insumos químicos também está no centro do trabalho que a CATI desenvolve no litoral paulista, detalhado a seguir.
Capital e litoral paulista: transição agroecológica chega às hortas
Na região de Santos (SP), a transição agroecológica ganha espaço tanto na agricultura rural quanto nas hortas urbanas e periurbanas. O trabalho é conduzido pela CATI, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio do Protocolo de Transição Agroecológica (PTA). O protocolo orienta os agricultores na adoção de práticas agroambientais e contribui para abrir novas oportunidades de comercialização.
A proposta é apoiar a mudança gradual para sistemas de cultivo mais sustentáveis, respeitando a realidade de cada propriedade e valorizando os recursos que já estão disponíveis na própria natureza. Nesse processo, o extensionista acompanha o agricultor, orienta as mudanças e ajuda a identificar soluções adequadas às condições de cada cultivo.
Guarujá: bioinsumos na Horta Santa Cruz dos Navegantes
Um exemplo prático é a Horta Sustentável Santa Cruz dos Navegantes, no Guarujá (SP). Em agosto, agricultores e técnicos participaram ali de uma atividade de coleta e preparo de microrganismos eficientes (EMs), usados na produção de bioinsumos. A ação também marcou o aprendizado coletivo sobre práticas que contribuem para a transição.
No local foi instalada uma unidade demonstrativa de bioinsumos, patrocinada pela Diocese de Santos com recursos da Campanha da Fraternidade de 2025. A iniciativa reúne organizações da sociedade civil, poder público e grupos de agricultores rurais, urbanos e periurbanos.
Para Zenaldi de Oliveira Duarte, integrante da horta, o PTA traduz bem a lógica da agroecologia.
“A serrapilheira vem da natureza e volta para a natureza na forma de bioinsumos”, afirma.
O engenheiro agrônomo Idelberto Esch Miranda Junior, da CATI Regional Santos e integrante do Grupo de Trabalho de Agroecologia da instituição, destaca o potencial dos EMs. Segundo ele, trata-se de uma tecnologia social de baixo custo de produção e alta eficiência, fundamental para quem está em transição, e uma das práticas que visam diminuir o uso de adubos solúveis e agrotóxicos.
A produção de bioinsumos é uma alternativa para quem busca aperfeiçoar o manejo das áreas, aproveitando os recursos naturais e reduzindo a dependência de insumos externos. Com orientação técnica, essas práticas podem ser incorporadas aos poucos à rotina produtiva.
Praia Grande: certificado reconhece a transição
O PTA também reconhece oficialmente os avanços de quem está em processo de transição. No início de outubro, receberam o certificado do protocolo os agricultores Cristina Ramos Rosa e Joselito Marcelino dos Santos, responsáveis por uma horta urbana em Praia Grande (SP).
O trabalho do casal se destaca pela dedicação à produção e pela busca constante de melhorias, tanto no cultivo quanto na relação com a comunidade e os parceiros. A horta conta com o apoio da Prefeitura de Praia Grande e da Transpetro, empresa que cede a área utilizada para o plantio, localizada em uma faixa de servidão. A certificação representa o reconhecimento do caminho percorrido e também amplia as oportunidades de acesso a mercados.
Zona Leste da capital: experiência acompanhada pela CATI
A equipe da CATI Regional Santos também acompanha uma experiência de agricultura urbana na Zona Leste da capital paulista. Em área cedida pela Enel, em faixa de servidão da empresa, a agricultora Joelma Marcelino desenvolve seu trabalho com assistência técnica da Prefeitura de São Paulo. Técnicos da Regional estiveram no local para conhecer a experiência e acompanhar a produção.
Os casos de Praia Grande e da Zona Leste têm um ponto em comum com Americana: o uso de faixas de servidão de empresas, como Transpetro, Enel e CPFL, para cultivar áreas que antes ficavam ociosas.
Do canteiro ao consumidor: caminhos de comercialização
Além dos benefícios ambientais, a transição agroecológica pode aproximar agricultores e consumidores. Feiras, quitandas, restaurantes, mercados de bairro e cestas de produtos são algumas das possibilidades de venda. Compras públicas, grupos de consumo, Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSAs), entregas em domicílio e vendas pelas redes sociais também ajudam a escoar a produção.
As CSAs favorecem os circuitos curtos de comercialização, nos quais o alimento percorre distâncias menores e a relação entre quem produz e quem consome fica mais próxima. Para os agricultores, representam novas oportunidades de venda e maior valorização do produto.
Prioridade na agenda da CATI Regional Santos
Na CATI Regional Santos, o PTA integra um conjunto de projetos prioritários, ao lado das iniciativas Frutas Vermelhas SP e Cacau SP. A atuação considera as particularidades do litoral paulista e da região metropolitana de São Paulo, onde a produção rural convive com áreas urbanas e periurbanas e apresenta demandas específicas de assistência técnica e extensão rural.
Segundo Hemerson Calgaro, responsável pelo PTA na Regional, o objetivo é consolidar o protocolo entre os agricultores dos municípios atendidos, com a adoção de diferentes práticas agroecológicas. Guilherme Zangerolimo Gonsales, chefe de divisão substituto da Regional à época da atividade, ressalta a importância de direcionar a produção local para sistemas mais ecológicos, o que contribui para a segurança e a soberania alimentar.
“Alimento mais ecológico é mais saúde na mesa dos consumidores”, afirma.
Xerém: a horta de Zeca Pagodinho
Em Duque de Caxias (RJ), a Horta Urbana Xerém I é mantida pelo Instituto Zeca Pagodinho em um terreno de cerca de 8 mil m² cedido pelo cantor. O projeto produz hortaliças, legumes e frutas para cozinhas solidárias e famílias em vulnerabilidade social. Conta com parcerias da Embrapa Agrobiologia e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
O espaço reúne mais de 11 mil mudas e cultiva alface, acelga, beterraba, brócolis, escarola, abóbora, acerola, manga e tangerina. A meta é chegar a 40 toneladas de alimentos por ano. Pouco depois do início das atividades, o projeto já havia colhido mais de uma tonelada em cerca de três meses. Outra publicação, do Brasil de Fato, registra duas toneladas colhidas entre julho de 2025 e junho de 2026.
Em setembro de 2026, Zeca Pagodinho recebeu o título de Embaixador da Agricultura Urbana e Periurbana. Foi anunciada ainda a intenção de expandir o cultivo para café e cacau em uma área adicional de 21 mil m².

O que as hortas mostram sobre alimentação sustentável
As hortas urbanas não substituem toda a cadeia de abastecimento, mas compõem uma resposta relevante para a alimentação sustentável. Elas aumentam a oferta de alimentos frescos, reduzem a distância entre produção e consumo e incentivam práticas de menor impacto ambiental. Também fortalecem a renda e a autonomia das comunidades, seja em bairros de Americana, no litoral paulista ou em Xerém.
