Estudo do Rabobank mostra que os juros do crédito agropecuário seguem os ciclos de alta da Selic, enquanto a inadimplência responde também às condições de renda do setor
Toda vez que o Banco Central eleva a taxa Selic, o custo do dinheiro sobe para toda a economia — e o campo não fica de fora. Um novo estudo do Rabobank mapeou como esse aperto monetário se propaga pelo crédito rural brasileiro, modalidade essencial para financiar produção e investimento no agro.
A pesquisa, assinada pelos economistas Mauricio Une e Renan Alves, do Rabobank, identifica que a transmissão da política monetária ao crédito agropecuário é mais forte entre produtores pessoa física do que entre empresas do setor. O motivo está na forte presença de linhas direcionadas e subsidiadas do Plano Safra, que blindam parte do crédito das oscilações da Selic.
Os dados analisados vão de 2011 a 2026 e cruzam taxas de juros, concessões de crédito e inadimplência com os ciclos de alta da taxa básica, além dos preços de commodities agrícolas e de insumos como ureia, MAP e KCl.
Juros acompanham a Selic, mas a inadimplência segue outra lógica
O levantamento mostra que as taxas de juros do crédito rural, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, sobem de forma consistente nos ciclos de aperto monetário. O movimento é mais acentuado entre as pessoas jurídicas, cujos juros já se aproximaram ou superaram 14% ao ano nos ciclos mais recentes.
Já a inadimplência tem comportamento menos previsível. Entre 2019 e 2021, a taxa de calotes das pessoas jurídicas deu um salto atípico, para perto de 6% ao ano, efeito de medidas emergenciais do Conselho Monetário Nacional durante a pandemia, que permitiram renegociar e prorrogar operações de crédito rural.
Entre as pessoas físicas, a trajetória de inadimplência é mais gradual, com alta mais expressiva apenas no fim da série histórica, entre 2024 e 2026, quando chega a cerca de 7% ao ano.

Preço de commodity é o que decide se o juro alto vira calote
O estudo aponta que o efeito dos juros sobre a inadimplência depende diretamente do ciclo de preços das commodities agrícolas. Em 2013 e 2014, e novamente em 2021 e 2022, a Selic subiu com força, mas os preços elevados de soja e milho sustentaram a renda do produtor e mantiveram os calotes sob controle.
O cenário mudou no ciclo mais recente, entre 2024 e 2025. Os juros do crédito rural seguiram altos, mas os preços de soja e milho recuaram dos picos, enquanto os custos de fertilizantes só começaram a normalizar. Essa combinação de crédito caro com receita mais fraca coincidiu com a alta mais clara da inadimplência, sobretudo entre pessoas físicas.

Concessões de crédito rural formam um mercado pró-cíclico
As concessões de crédito rural, ou seja, o volume efetivamente contratado, mostraram forte volatilidade ao longo da série histórica, mas com viés de alta desde 2020. Entre 2021 e o início de 2022, houve um boom liderado por pessoas físicas, com crescimento acima de 60% na comparação anual, seguido por uma correção mais intensa em 2023.
Em 2024, o crescimento das concessões voltou a acelerar, dessa vez puxado por pessoas jurídicas, que também registraram picos superiores a 60% ao ano antes de desacelerar no início de 2025. Já em 2026, os dados indicam uma recomposição moderada do crescimento agregado, com desempenho heterogêneo entre os dois perfis de produtor.

O que um choque de Selic realmente muda no crédito rural
Para isolar o efeito puro da política monetária, os pesquisadores aplicaram um modelo estatístico que mede a resposta de juros, concessões e inadimplência a surpresas na taxa Selic, em horizontes de três, seis, nove e doze meses.
Os resultados mostram efeitos concentrados e específicos. Entre pessoas físicas, um choque monetário eleva a inadimplência em cerca de 0,1 ponto percentual entre seis e doze meses após o evento — o efeito mais robusto e estatisticamente significativo do estudo.
Já entre pessoas jurídicas, o impacto mais relevante aparece nas concessões de crédito, que avançam 0,37 ponto percentual seis meses após o choque. Segundo os autores, essa alta temporária ocorre sem evidência de deterioração generalizada nas condições de financiamento das empresas do setor.
Linhas subsidiadas seguram o impacto da Selic sobre as empresas do agro
A explicação para a menor sensibilidade das pessoas jurídicas está na estrutura do crédito rural brasileiro. A forte participação de linhas direcionadas e subsidiadas, sobretudo dentro do Plano Safra, reduz o repasse direto das oscilações da Selic para o custo final do crédito nesse segmento.
Para Mauricio Une e Renan Alves, do Rabobank, o canal de transmissão da política monetária ao crédito rural segue ativo, mas com intensidade desigual entre os públicos atendidos. O aperto monetário encarece o crédito de forma mais visível do que reduz o volume de recursos disponíveis, e o efeito sobre a inadimplência aparece de forma gradual, concentrado entre as famílias produtoras rurais.

Mais informações sobre a metodologia do estudo estão disponíveis nos sites do Rabobank e do Banco Central do Brasil. Você pode ler a íntegra do Estudo Especial Brasil no arquivo abaixo:
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