Encontro nacional reuniu governo, indústria e empresas de tecnologia para discutir a implementação da sexagem in ovo; pesquisa aponta alta aceitação entre consumidores brasileiros
Uma tecnologia capaz de identificar o sexo do embrião ainda durante a incubação começa a ganhar espaço no Brasil. A sexagem in ovo evita a eliminação de pintinhos machos logo após o nascimento e já é usada em diversos países.
O tema foi discutido no Encontro Nacional sobre Sexagem In Ovo no Brasil, realizado no dia 03 de agosto. O evento reuniu representantes do setor produtivo, empresas de tecnologia, instituições financeiras, organizações da sociedade civil e poder público.
A tecnologia surge como alternativa a uma prática considerada desumana pela avicultura mundial. Todos os anos, bilhões de pintinhos machos são eliminados por não terem valor econômico para a indústria de ovos, já que não botam ovos nem servem à produção de carne.
Métodos como trituração mecânica e gaseificação vêm sendo classificados por especialistas como procedimentos de extrema crueldade. Isso tem impulsionado governos, empresas e centros de pesquisa a desenvolver alternativas tecnológicas para encerrar essa prática.
Mais do que apresentar soluções tecnológicas, o encontro marcou um novo momento para o debate nacional. O evento aproximou os diferentes atores responsáveis por essa transição e discutiu regulamentação, financiamento, competitividade e adoção em larga escala.
Experiência internacional já mostra resultados
Países como Alemanha, França e Itália incorporaram a sexagem in ovo após mudanças regulatórias que restringiram a eliminação de pintinhos machos. A tecnologia também avança nos Estados Unidos, na Austrália e na América Latina, impulsionada por legislações e por exigências do varejo e dos consumidores.
Dados apresentados durante o encontro mostram que aproximadamente 110 milhões das cerca de 393 milhões de galinhas poedeiras da União Europeia já são provenientes da sexagem in ovo. O número segue crescendo com a expansão da tecnologia pelo continente.
Pesquisa aponta potencial de mercado no Brasil
Um dos destaques do encontro foi a apresentação da primeira pesquisa nacional sobre a percepção dos brasileiros em relação à sexagem in ovo, realizada pela YouGov a pedido da Innovate Animal Ag. O levantamento revela um cenário promissor para a adoção da tecnologia no país.
Entre os principais resultados, 79% dos brasileiros afirmam que comprariam ovos produzidos com sexagem in ovo, e 76% dizem estar dispostos a pagar um valor adicional por esse produto. O acréscimo médio aceito pelos consumidores seria de R$ 3,87 por dúzia.
A pesquisa também mostra que 73% dos entrevistados demonstram desconforto ao saber da eliminação de pintinhos machos. Embora 86% nunca tivessem ouvido falar da tecnologia, após conhecerem seu funcionamento, 72% defenderam sua adoção pela indústria.
Os dados reforçam uma percepção compartilhada entre os especialistas presentes no encontro. O principal desafio brasileiro não é convencer os consumidores sobre a importância da tecnologia, mas ampliar o conhecimento da população sobre uma prática ainda pouco conhecida.
Tecnologia já opera em escala industrial
Empresas que lideram a inovação no cenário internacional apresentaram soluções já disponíveis comercialmente. Os representantes compartilharam experiências de implementação em diferentes mercados ao longo do encontro.
A alemã Orbem apresentou seu sistema baseado em ressonância magnética associada à inteligência artificial. A tecnologia identifica o sexo dos embriões sem perfurar a casca do ovo, praticamente eliminando o risco de contaminação.
Segundo a empresa, o uso de inteligência artificial tornou possível acelerar em mais de mil vezes a aquisição e a interpretação das imagens em comparação aos equipamentos tradicionais de ressonância magnética. Isso permite que a tecnologia opere em escala industrial, com taxa de erro inferior a 1% tanto em linhagens brancas quanto vermelhas.
Também participou do encontro a startup alemã Omegga, que desenvolve um sistema baseado em imagens espectroscópicas captadas diretamente dentro das incubadoras. A tecnologia usa inteligência artificial para acompanhar o desenvolvimento embrionário sem necessidade de retirar os ovos do equipamento.
Especialistas reforçaram ao longo do evento que a sexagem in ovo resolve simultaneamente um desafio ético e uma oportunidade econômica. Ovos identificados como machos podem ser destinados à produção de vacinas, ingredientes para alimentação animal e outros insumos industriais.
Competitividade passa a impulsionar a adoção
Além da crescente demanda internacional por cadeias de produção mais responsáveis, participantes destacaram que grandes compradores e redes varejistas já começam a incorporar esse critério em suas políticas de abastecimento. Isso cria novas oportunidades de mercado para produtores que adotarem a tecnologia.
Liane Soares, diretora da LICA Consultoria e Ação e idealizadora do Encontro Nacional sobre Sexagem In Ovo no Brasil, comentou o significado do evento para o setor.
“Este encontro representa um marco para o Brasil ao reunir, pela primeira vez, governo, setor produtivo, empresas de tecnologia, financiadores e sociedade civil para discutir os caminhos da implementação da sexagem in ovo. O diálogo demonstrou que há interesse e disposição para avançar de forma colaborativa, fortalecendo a inovação, a competitividade da avicultura e o bem-estar animal.”
A percepção predominante entre os participantes foi de que o Brasil reúne capacidade técnica, escala de produção e interesse do setor para liderar essa transformação na América Latina. Isso depende, porém, da criação de condições econômicas favoráveis para acelerar sua implementação.
Financiamento concentra os principais desafios
Se existe consenso quanto ao potencial da tecnologia, os debates mostraram que o principal obstáculo para sua expansão ainda está relacionado aos mecanismos de financiamento. Representantes do setor defenderam a criação de incentivos fiscais e apoio à importação de equipamentos.
Também foram discutidas políticas públicas capazes de reduzir o impacto inicial dos investimentos necessários para incubatórios e produtores. Durante o debate, representantes do Ministério da Agricultura destacaram que ainda não existe uma política nacional sobre o tema.
Os representantes do governo reconheceram que a construção de instrumentos de incentivo depende das demandas apresentadas pela própria sociedade e pelo setor produtivo. O tema deve seguir em discussão nos próximos encontros do setor.
O consenso final
Apesar dos desafios, um dos aspectos mais relevantes do encontro foi o consenso entre diferentes segmentos da cadeia produtiva. Ficou evidente que a eliminação de pintinhos machos representa uma prática que precisa ser abolida, e a sexagem in ovo desponta como a solução mais promissora disponível atualmente.
Concluiu-se também que o avanço da tecnologia dependerá não apenas de investimentos e regulamentação, mas de um esforço conjunto para a conscientização da sociedade. Ampliar o conhecimento sobre uma prática ainda pouco conhecida pelo consumidor brasileiro segue sendo prioridade.
Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil, resumiu o momento atual da discussão sobre a tecnologia no país.
“O desafio agora não é provar que essa transformação é possível, mas construir as condições para que ela aconteça na velocidade que o Brasil precisa. Toda inovação passa por um momento em que parece cara ou distante. Depois, ela se torna o novo padrão.”
