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O volume é superior ao registrado no mesmo período do plano anterior, de R$ 198,2 milhões

Os produtores rurais estão antecipando o acesso ao crédito para o Plano Safra 2026-27. Em julho, primeiro mês de vigência do plano, a Sicredi Dexis liberou R$ 385,9 milhões para associados do Paraná e São Paulo. O volume é 94% superior ao registrado no mesmo período do plano anterior, de R$ 198,2 milhões.

Já foram liberadas 996 operações de crédito, número superior às 782 registradas em julho do ciclo passado. As operações destinadas à agricultura familiar (Pronaf) representam 6% do total. Já o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) responde por 35%, enquanto a agricultura empresarial concentra 43%. A Cédula de Produto Rural (CPR) foi responsável por 16% do volume de operações.

Neste ciclo, o governo federal ampliou os recursos disponíveis, reduziu as taxas de juros e incentiva o crédito voltado ao aumento da produtividade e à sustentabilidade. Nas principais linhas de custeio e investimento, as taxas foram reduzidas entre 0,5 e 1,5 ponto percentual.

A expectativa da Sicredi Dexis é liberar R$ 4,5 bilhões em operações até 30 de junho de 2027. Os recursos serão destinados às modalidades de custeio, investimento, comercialização, industrialização, Cédula de Produto Rural (CPR) e soluções de proteção de risco, como instrumentos cambiais.

A cooperativa iniciou em julho e continua em agosto uma programação de mais de 60 eventos voltados aos produtores rurais para apresentação do Plano Safra, taxas de juros, prazos e o funcionamento de cada linha. Além de contar com equipes do Agro e gerentes das 114 agências para esclarecer dúvidas, os eventos contam com parceiros que expõem produtos e soluções, como veículos, máquinas agrícolas e equipamentos de energia solar.

A Sicredi Dexis está preparada para atender à demanda dos produtores, com equipes capacitadas, processos estruturados e orientação personalizada. Além do crédito rural, a cooperativa oferece soluções como seguro rural, seguro para máquinas e equipamentos, cartões, investimentos e consórcios.

Recursos totais do Plano Safra 2026/27

Neste Plano Safra, o governo federal destinou R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, um aumento de quase 2% em relação ao ciclo anterior. O principal destaque é o crescimento de 38% nos recursos destinados a investimentos, que passaram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões, impulsionando áreas como armazenagem, irrigação, inovação e aquisição de máquinas. Para o custeio, foram reservados R$ 384,9 bilhões.

No Pronamp, voltado aos médios produtores, serão disponibilizados R$ 72,6 bilhões, com taxa máxima de juros de 9% ao ano, ante os 10% da safra passada. Já a agricultura familiar contará com R$ 85,2 bilhões por meio do Pronaf, valor 9% superior ao do ciclo anterior, além da redução das taxas nas linhas prioritárias, que variam de 1% a 7,5% ao ano.

A liberação dos recursos com juros equalizados só se tornou possível depois de o Ministério da Fazenda publicar a portaria que autoriza o pagamento da equalização das taxas, medida que destrava a contratação das linhas subsidiadas pelas 26 instituições financeiras habilitadas para operar no ciclo 2026/27. O Banco do Brasil segue como a instituição com os maiores volumes autorizados nas modalidades de custeio e investimento.

Outras instituições ampliam volumes para a nova safra

O movimento de expansão do crédito não se limita à Sicredi Dexis. Em nível nacional, o Sicredi já havia anunciado a disponibilização de R$ 72,1 bilhões para o Plano Safra 2026/2027, reforçando a posição do sistema cooperativo como um dos principais financiadores privados do agronegócio brasileiro.

O Sicoob, por sua vez, projeta liberar R$ 70 bilhões em crédito rural neste ciclo, avanço de cerca de 18% sobre os R$ 59,5 bilhões desembolsados na safra 2025/2026. Do total previsto, R$ 11,5 bilhões serão destinados ao Pronaf e R$ 15,8 bilhões ao Pronamp, altas de 39% e 48%, respectivamente. Ao anunciar os números, a cooperativa também comentou o cenário de maior seletividade entre os agentes tradicionais de crédito rural.

O diretor-presidente do Sicoob, Marco Almada, afirmou ter observado o “principal agente de crédito se retraindo”, em referência ao Banco do Brasil.

A Cresol também confirmou avanço nas liberações, superando R$ 16,8 bilhões no encerramento do Plano Safra 2025/26, enquanto o BNDES mantém linhas próprias e perenes, sem equalização do Tesouro, voltadas a investimento, aquisição de máquinas, custeio e apoio a cooperativas, com orçamento que já soma bilhões em aprovações desde a criação do programa.

Inadimplência rural mais que dobra em um ano

O aumento no volume de crédito ocorre em paralelo à deterioração dos indicadores de risco do setor. Segundo dados do Banco Central, a inadimplência das operações rurais contratadas por pessoas físicas chegou a 7,4% no primeiro trimestre de 2026, mais que o dobro dos 2,9% registrados no mesmo período do ano anterior.

A série histórica da autoridade monetária mostra trajetória semelhante: o indicador saltou de 3,99% em maio de 2024 para 7,17% em maio de 2026. A chamada carteira “estressada” — que reúne operações em atraso, prorrogadas, renegociadas e inadimplentes — passou de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025, o equivalente a cerca de 15% de todo o crédito ativo do agronegócio no país.

Levantamento da Serasa Experian aponta um recorte ainda mais amplo: a inadimplência da população rural chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, considerando dívidas vencidas há mais de 180 dias e contraídas junto a empresas ligadas ao agronegócio.

Diante do avanço dos atrasos, o setor produtivo cobrou uma resposta rápida do governo. Ao comentar a articulação em torno da renegociação de dívidas, o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion, contextualizou a origem do endividamento entre os produtores.

“O produtor não se endividou porque quis crescer demais. Ele se endividou tentando continuar produzindo”, pontuou o parlamentar.

A resposta do governo veio por meio da Medida Provisória 1.376/2026, publicada em 15 de julho, que autoriza linhas de crédito para composição de dívidas e a participação da União em um fundo garantidor para cobrir operações afetadas por eventos climáticos adversos. A medida não perdoa dívidas, mas busca conter o avanço da inadimplência e preservar a capacidade de financiamento da safra 2026/2027.

Tecnologia entra na linha de frente da concessão e cobrança de crédito

Diante do cenário de maior risco, bancos, cooperativas e fintechs têm investido em ferramentas de inteligência artificial e geoprocessamento para qualificar a análise e o monitoramento das operações rurais. A fintech Agree, especializada em crédito rural, estabeleceu a meta de atuar na reestruturação de até R$ 5 bilhões em dívidas do agronegócio até o fim de 2026, com análises baseadas em inteligência artificial para antecipar negociações antes que produtores recorram à recuperação judicial.

A Serasa Experian desenvolveu o Agro Score, modelo que combina machine learning com informações financeiras, cadastrais e produtivas para qualificar o perfil de crédito dos produtores rurais. A empresa destaca que cada propriedade tem características próprias, o que exige uma análise de risco mais específica para o setor.

Segundo a companhia, o Agro Score utiliza inteligência artificial e técnicas de machine learning para combinar informações financeiras, cadastrais e específicas da atividade rural, oferecendo uma visão mais completa sobre o perfil de crédito dos produtores.

Outra frente é a inteligência territorial, usada para validar as operações financiadas. A Agrotools, com sua plataforma Monitor de Safras, cruza imagens de satélite, séries temporais e dados de diferentes bases para verificar plantio, cultura implantada e evolução da lavoura, permitindo que bancos monitorem grandes carteiras de forma automatizada e reduzam a dependência de visitas presenciais.

No cooperativismo de crédito, iniciativas como o projeto ICrédito, do Sicoob Costa do Descobrimento, aplicam modelos de análise com inteligência artificial para agilizar decisões e reduzir vieses. A adoção dessas ferramentas também aparece como tendência estrutural para o setor em 2026, com o cruzamento de big data e IA usado para identificar padrões de comportamento e prever inadimplência com mais precisão.

Especialistas do setor reforçam que a tecnologia deve funcionar como apoio à decisão, e não como substituta do julgamento humano, especialmente ao incorporar dados alternativos — como imagens de satélite e histórico produtivo — para avaliar produtores sem demonstrativos financeiros formais ou histórico de crédito robusto, ampliando o acesso responsável ao financiamento.

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