Colheita manual, sustentabilidade e um mercado em expansão moldam o padrão de qualidade da marca suíça
A Nespresso processa, em suas fábricas na Suíça, os cafés verdes que compõem suas cápsulas, recebidos de diversos países produtores. Todos os cafés usados passam por critérios rígidos de seleção de qualidade, e o Brasil está entre os principais fornecedores da marca, figurando entre os líderes globais na oferta de café. Essa participação chega a 30% dos cafés processados na empresa, quantidade muito representativa na definição da qualidade dos cafés que vão para as cápsulas. Para garantir a qualidade, exige um esforço grande de todos os envolvidos, do campo ao produto final que chega às gôndolas — e continua no pós-venda. O caminho é longo, complexo e altamente especializado.
O café, por ser uma fruta, demanda muitos cuidados e um horizonte de longo prazo até que atinja maturidade e o retorno do investimento do agricultor comece a aparecer. Em média, um pé de café recém-plantado começa a produzir grãos a partir de três anos, alcançando sua plena capacidade produtiva por volta de sete anos, dependendo do clima, do manejo e da variedade cultivada. Esse ciclo exige atenção constante com fertilização do solo, combate a insetos e fungos que podem comprometer os grãos e monitoramento das condições climáticas, evitando geadas que queimam plantações inteiras ou secas prolongadas que exigem sistemas de irrigação em milhares de ruas de cafeeiros.
Depois de superar tantos desafios, chega o momento crucial: a colheita. Nesta etapa, o excesso de chuvas no período de colheita ou já durante a secagem ao sol em terreiros (opção adotada pela empresa) pode comprometer seriamente a safra. Quando o clima ajuda, a colheita de café costuma ser “democrática”: máquinas percorrem as ruas dos cafezais, derrubando os frutos em esteiras, sem uma seleção rigorosa de maturação, da perfeição do grão e de impurezas. Para a Nespresso, porém, essa solução prática não funciona. Como os cafés da marca exigem rigor extremo na seleção de grãos maduros, a colheita mecanizada, que mistura frutos em diferentes estágios, não atende ao padrão de qualidade desejado.
Na Fazenda Cachoeira da Grama, em São Sebastião da Grama, localizada no Estado de São Paulo, próxima à divisa com Minas Gerais e a cerca de 9 quilômetros de Poços de Caldas, a colheita dos grãos de café é feita manualmente, grão por grão, apenas daqueles que estão no ponto exato de maturação. Os frutos ainda verdes são deixados para colheita em dias futuros, e são descartados os que apresentam qualquer defeito na casca ou no grão. Ainda no campo, muitos grãos não são aproveitados pela Nespresso: são aqueles que caem no solo, acabam mofando ou apresentam defeitos que não se enquadram no padrão da marca.
Os grãos selecionados um a um no padrão Nespresso ainda passam por análise de qualidade quanto a sabor, aroma e presença de defeitos. Os que não se enquadram nesse padrão são destinados a outros mercados: parte vai para exportação como cafés de boa qualidade e parte atende indústrias de café torrado e moído que abastecem o mercado interno, com produtos que vão dos cafés gourmet e especiais até os tradicionais e extra-forte, encontrados nas prateleiras dos supermercados.





O trabalho no campo
Hoje, a Cachoeira da Grama é uma das principais fornecedoras de cafés especiais para a Nespresso. A empresa mantém um relacionamento de longo prazo com a fazenda, apoiado por um programa de qualidade sustentável, com atuação direta de times de engenheiros agrônomos e equipes de assistência social, buscando as melhores práticas para elevar a qualidade dos grãos, aperfeiçoar o manejo da cultura do café e promover sustentabilidade no campo.
A região da Cachoeira da Grama é extremamente montanhosa. As plantações de café acompanham a topografia, recebendo excelente insolação e umidade, e a fazenda mantém áreas de preservação ambiental muito superiores às exigidas pela legislação nacional. Raphael Gonçalves, engenheiro agrônomo responsável pelos cuidados na fazenda, destaca:
“É notável a presença crescente de fauna, com mamíferos de pequeno porte e aves, sinal de que o manejo da vegetação e a conservação ambiental fortalecem a biodiversidade. Os cuidados com as matas reativam a flora e a fauna, colaborando na redução de uso dos defensivos agrícolas.”

Essa topografia exige cuidados especiais com os trabalhadores da colheita, que contam com estruturas de suporte para alimentação, hidratação, higiene e descanso. Assim como em outras culturas do agronegócio, esses grupos de trabalhadores rurais são contratados para o período de colheita, vivendo nas fazendas de café por aproximadamente quatro meses.
Todos são registrados em carteira nesse período, com acesso aos benefícios trabalhistas devidos e sob supervisão da Nespresso em relação às condições de trabalho e bem-estar. A colheita manual de café enfrenta hoje grave falta de mão de obra qualificada, capaz de identificar com precisão quais grãos devem ser colhidos e em que momento, o que torna o trabalho ainda mais especializado.


Oferta democrática, mercado em expansão
Mesmo com tanto esforço nos cuidados com o plantio e a colheita, a Nespresso compra apenas 5% da produção de cafés verdes e finos da Fazenda Cachoeira da Grama, focando nos lotes que atendem ao seu padrão específico de qualidade. O destino da maior parte dos grãos é um mercado diversificado, que inclui compradores de cafés especiais e gourmet, exportadores e indústrias voltadas ao consumo interno.
O rigor da Nespresso na compra dos cafés acaba gerando um efeito positivo: abre espaço para um mercado secundário de compradores de cafés especiais que, embora não adotem exatamente o mesmo nível de exigência, buscam alto padrão de qualidade. Tatiana Nakamura, Coffee Ambassador da Nespresso Brasil, explica que o status de fornecedor da marca abre portas para que a fazenda conquiste outros compradores que buscam cafés de alta qualidade e que entendem o valor agregado. Esses lotes de alta qualidade vão para o mercado externo, em exportações, e para rótulos de café gourmet que valorizam a origem e o cuidado com o grão.
Em relação ao mercado interno brasileiro, Tatiana comenta sobre tendências de consumo de café:
“Mesmo com aumento de preços ao consumidor devido a problemas na safra de cafés no Brasil, o consumo de café se manteve em crescimento. Diversas pesquisas de mercado indicam o aumento de consumo de cafés em variadas ocasiões sociais, de trabalho e lazer”.
A Nespresso combina uma ampla oferta de variedades de café de diferentes origens em três sistemas de cápsulas, cada um projetado para tipos específicos de máquina e perfis de extração, atendendo a vários estilos de consumo. Os blends são desenvolvidos a partir de cafés verdes provenientes de diversos países produtores, com combinações pensadas para diferentes intensidades, notas aromáticas e tamanhos de bebida. Degustar as várias opções de blends Nespresso se torna uma experiência de consumo que atende a uma ampla gama de perfis e preferências.

Sustentabilidade em foco
O relacionamento entre Nespresso, produtores e demais empresas envolvidas na cadeia das cápsulas e máquinas evolui continuamente para alcançar a excelência do padrão da marca. É um conjunto de fatores — agronômicos, ambientais, sociais e industriais — que contribui para a qualidade entregue em cada cápsula de café.
Um dos pontos centrais é o equilíbrio entre o uso de defensivos e fertilizantes agrícolas de origem química e a adoção de práticas regenerativas no cultivo. Há um crescente uso de bioinsumos e manejo de vegetação rasteira entre as ruas de pés de café, atraindo insetos que combatem pragas, contribuindo para fertilização natural do solo, polinização e outros benefícios que se refletem na qualidade dos grãos e na vida longa dos cafeeiros. Tais práticas colaboram para que o solo se mantenha fértil, reduzindo a necessidade de uso de fertilizantes.
No pós-consumo, as cápsulas de alumínio e a borra de café ganham destinação que reduz o impacto ambiental. A Nespresso mantém diversos pontos de coleta de cápsulas usadas nas cidades e uma parceria de logística reversa com os Correios: os consumidores podem entregar suas cápsulas nas agências, que as enviam para a central de reciclagem localizada em Valinhos (SP), sem custo adicional. Esse processo de coleta e destinação não se limita às cápsulas da Nespresso: a empresa recebe unidades de todas as marcas do mercado, para que o alumínio seja reciclado e reintroduzido em novos ciclos produtivos.
Já a borra de café é processada para a geração de biometano e biogás, combustíveis limpos que ajudam a reduzir emissões de gases de efeito estufa ao substituir parte do uso de combustíveis fósseis. No Brasil, iniciativas da Nespresso transformam a borra em energia renovável utilizada por parceiros logísticos e em unidades industriais, consolidando um modelo de economia circular que estende o valor do café mesmo depois da xícara.
As práticas, incluindo gestão dos processos de secagem (terreiros abertos no solo e suspensos, lavadores e secadores) para garantir os atributos sensoriais exigidos pelo mercado internacional de cafés especiais adotadas em conjunto permitem que a empresa tenha diversos certificados internacionais como a UTZ/Rainforest Alliance e programas de fornecimento sustentável.
Afinal, café Nespresso é caro?
A resposta sobre o preço da cápsula do café Nespresso é relativa e se aplica a muitos outros alimentos e bebidas de alto valor agregado. A soma dos cuidados no cultivo, a atuação de equipes de profissionais dedicados, a seleção de cafés em diversos países, o rigor na torrefação e moagem, o transporte, os investimentos em sustentabilidade e as incertezas climáticas que afetam a produção compõem o custo de oferecer um café especial, com sabor e aromas diferenciados, em uma cápsula que preserva suas características originais até o momento do preparo.
Além disso, o sistema de cápsulas da Nespresso foi concebido para otimizar recursos: cada cápsula utiliza a quantidade exata de café, água e energia necessária para uma xícara, reduzindo o desperdício que é comum no preparo convencional de café, quando grandes volumes são feitos, ficam armazenados em garrafas térmicas, “cozinhando” e oxidando em cafeteiras elétricas e, por fim, parte acaba indo para a pia. A empresa destaca que essa precisão entregue nas cápsulas contribui para diminuir o impacto ambiental por xícara consumida e reforça seu compromisso com a redução da pegada de carbono.
Tatiana resume esse ponto ao longo da visita à fazenda:
“Todos deveriam repensar o tanto de café que jogam fora na pia, que não é consumido. Esse café que está sendo jogado é resultado de um grande trabalho que foi realizado e que acaba sendo desperdiçado”.
Mais do que uma questão de preço, a percepção de valor do café Nespresso passa por reconhecer o trabalho envolvido em cada xícara, do campo à cápsula, e o impacto positivo de reduzir desperdícios no preparo doméstico — em sintonia com o compromisso da marca com responsabilidade ambiental e social.
* Realizei a viagem à Fazenda Cachoeira da Grama a convite da Nespresso em 20/07/2026.
