Projeto do Instituto Favela da Paz usa a cozinha como espaço de transformação social, ancestralidade e sustentabilidade no Jardim Nakamura
Uma panela no fogão pode ser muito mais do que um utensílio doméstico. No Jardim Nakamura, bairro da zona sul de São Paulo, ela se tornou instrumento de emancipação, diálogo e cuidado coletivo. É essa a aposta do Vegearte, projeto que retorna à comunidade nos dias 12 e 19 de março com oficinas gratuitas de culinária vegana e vegetariana, rodas de conversa e atividades culturais para famílias e moradores da região.
A iniciativa integra o programa Caixa de Saberes, do Instituto Favela da Paz, com patrocínio da Caixa Econômica Federal. Mais do que ensinar receitas, o projeto propõe um encontro entre gastronomia, cultura periférica, ancestralidade e preservação ambiental — usando ingredientes acessíveis do cotidiano como ponto de partida para reflexões que vão muito além do prato.
Alimentação como ferramenta de transformação social
O Vegearte nasceu da percepção de que a cozinha, em territórios periféricos, carrega significados que extrapolam a nutrição. Preparar e compartilhar alimentos é também um ato político, cultural e afetivo — e é exatamente esse potencial que o projeto busca ativar.
Fundado por Elem Fernandes, integrante do Instituto Favela da Paz e vocalista da banda Poesia Samba Soul, o projeto parte da gastronomia vegana e vegetariana para abordar temas como saúde, pertencimento e direito à alimentação de forma acessível e conectada à realidade do território.
Sobre a proposta do projeto, Elem Fernandes é direta ao explicar o que move o Vegearte:
“Muito além de compartilhar o passo a passo de receitas, as vivências propõem debates essenciais sobre ancestralidade, saúde, pertencimento e preservação ambiental, tendo o alimento e o sabor como fios condutores.”
As ações são voltadas especialmente para famílias em situação de vulnerabilidade social, mostrando que mudanças na rotina alimentar podem ser prazerosas e viáveis com ingredientes já presentes no dia a dia.
Cozinha coletiva: espaço de vivência e reflexão
Durante as oficinas práticas, os participantes não apenas cozinham. Eles experimentam novas texturas, discutem origem dos alimentos, refletem sobre impactos ambientais do consumo e descobrem receitas que valorizam ingredientes simples e de baixo custo.
O ambiente acolhedor das rodas de conversa amplia esse processo, transformando cada encontro em uma experiência de troca entre gerações e saberes. A proposta dialoga com o que especialistas em segurança alimentar reconhecem como educação alimentar crítica — aquela que vai além da nutrição e considera o contexto social, cultural e econômico de cada comunidade.
O Instituto Favela da Paz reforça que a alimentação é, antes de tudo, um direito básico e um instrumento de emancipação. Essa visão está expressa no posicionamento público da organização:
“A cozinha, neste contexto, transforma-se em um espaço de vivência coletiva, onde os participantes experimentam novas texturas e descobrem como transformar a rotina alimentar de forma prazerosa, valorizando o uso de ingredientes acessíveis do dia a dia.”
Instituto Favela da Paz: três décadas de impacto no território
Sediado no próprio Jardim Nakamura, o Instituto Favela da Paz é referência em inovação social e sustentabilidade na periferia paulistana. Fundado por membros da banda Poesia Samba Soul, o espaço desenvolve projetos nas áreas de saúde, educação, permacultura, energias renováveis e arte há três décadas.
Entre os reconhecimentos da organização estão o Prêmio Inspiração da TV Globo e a participação na COP-26, a conferência climática da ONU realizada em Glasgow, em 2021 — evidência de que práticas desenvolvidas na periferia podem ter alcance e relevância global.
O Vegearte se insere nesse ecossistema de ações como uma frente que conecta a pauta alimentar às demais iniciativas do Instituto — da mobilização comunitária ao uso de energias renováveis. O projeto evidencia que sustentabilidade, quando pensada a partir do território, ganha uma dimensão mais ampla e concreta.
Caixa de saberes: cultura popular e conhecimento ancestral na periferia
O programa Caixa de Saberes, no qual o Vegearte está inserido, atua em territórios periféricos para fomentar práticas populares, culturais e ancestrais com apoio e patrocínio da Caixa Econômica Federal.
Por meio de celebrações, oficinas e encontros comunitários, a iniciativa valoriza a diversidade do Brasil e estimula a troca contínua de conhecimentos entre gerações. A alimentação, nesse contexto, é tratada como patrimônio cultural — e não apenas como necessidade fisiológica.
A articulação entre financiamento público, organização da sociedade civil e saberes tradicionais é o que torna o modelo do Caixa de Saberes relevante como referência para políticas de segurança alimentar e cultura nos territórios vulnerabilizados do país.
Serviço: como participar do Vegearte
As oficinas do Vegearte são gratuitas e abertas à comunidade. Os encontros acontecem nos dias 12 e 19 de março, na sede do Instituto Favela da Paz, localizado na Rua Miguel Dionísio do Vale, 1, no Jardim Nakamura, zona sul de São Paulo.
Para acompanhar as atividades e novidades do projeto, acesse o perfil @projetovegearte no Instagram ou a playlist Vegearte no YouTube.
