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Brasil e China podem liderar uma nova ordem global sustentável se colocarem a Amazônia no centro da parceria estratégica para garantir o abastecimento de comida, além da proteção do clima e da promoção da prosperidade

Por Alexandre Mansur* e André Guimarães**

Diante da conjuntura comercial internacional, o Brasil está vendo cada vez mais futuro na expansão do comércio com a China. Isso significa não apenas vender mais produtos para o mercado chinês, mas também aproveitar a expertise chinesa em áreas estratégicas como carros elétricos, informática, telefonia, medicamentos, tecnologias verdes e química. Também implica mais acordos de cooperação e investimentos da China em infraestrutura no Brasil, visando um desenvolvimento comum. No entanto, para que essa parceria seja verdadeiramente sustentável – e lucrativa a longo prazo –, é preciso colocar a Amazônia no centro da equação.  

O Brasil e a China estão aprofundando sua parceria estratégica em torno da segurança alimentar. De um lado, a China precisa garantir suprimentos estáveis de carne e soja para sua população vasta e em transição nutricional. Do outro, o Brasil se consolidou como o maior fornecedor global dessas commodities para o mercado chinês. Essa sinergia gera benefícios econômicos, fortalece a interdependência produtiva e impulsiona investimentos bilaterais em infraestrutura e logística.  

Essa colaboração se alinha com a visão chinesa de “Civilização Ecológica” – um modelo de desenvolvimento que coloca a sustentabilidade como alicerce. Para a China, garantir segurança alimentar sem degradação dos ecossistemas é crucial tanto para sua estratégia nacional quanto para sua liderança climática global. Como fornecedor-chave, o Brasil pode se tornar um aliado estratégico nessa transição, alinhando sua produção a princípios de baixo carbono que já guiam investimentos chineses em energia renovável e agricultura sustentável.  

Ameaças à capacidade produtiva: o papel da Amazônia e do Cerrado

Mas essa parceria só permanecerá viável se o Brasil mantiver sua capacidade produtiva – hoje ameaçada pelo desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Sem a floresta, as chuvas diminuem nas principais regiões agrícolas do país. Sem chuva, a produtividade entra em colapso. A Amazônia funciona como um gigantesco “motor de umidade” que irriga lavouras no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. A destruição dessas florestas prejudica o agronegócio brasileiro – 90% do setor depende dos regimes de chuva. Sua proteção também está alinhada com os compromissos de neutralidade de carbono da China até 2060.  

Como maior investidor global em energia limpa, a China tem interesse em evitar que o colapso climático da Amazônia – que poderia liberar 90 bilhões de toneladas de CO2 – prejudique os esforços mundiais contra as mudanças climáticas. Parcerias em monitoramento por satélite (como o programa CBERS, desenvolvido por Brasil e China), cooperação científica e financiamento para a bioeconomia e tecnologias inovadoras podem conciliar produção e preservação.  

Outro bioma fundamental na relação comercial com a China é o Cerrado. Lá é produzida a maior parte da soja e carne brasileiras exportadas para o gigante asiático. O Cerrado abriga 8 das 12 principais bacias hidrográficas do Brasil, desempenhando um papel vital na sustentação dos sistemas hídricos que alimentam a Amazônia e grande parte do continente, tornando a perda de vegetação nesse bioma uma séria ameaça à produtividade agrícola regional. Desde 2023, o Cerrado tem registrado níveis de desmatamento anuais superiores ao da Amazônia, aumentando os riscos das mudanças do clima na produção agropecuária.

Pesquisas do INPE, Embrapa e IPAM mostram que o desmatamento já está perturbando os “rios voadores” – fluxos atmosféricos de umidade da Amazônia que mantêm a estabilidade climática em zonas agrícolas. Entre 1980 e 2019, 28% das terras cultiváveis na fronteira agrícola Amazônia-Cerrado saíram da faixa climática ideal. As projeções são alarmantes: até 2060, 74% dessas áreas podem se tornar inaptas para a agricultura dependente de chuva.  

Pecuária e riscos comerciais: a hora da mudança

O principal vetor do desmatamento na Amazônia ainda é a pecuária extensiva e de baixa produtividade, muitas vezes avançando sobre terras ilegalmente desmatadas. Cerca de 92% das áreas desflorestadas viram pasto, frequentemente sustentando menos de um boi por hectare – um desperdício de terra e um risco comercial. Estudos do projeto Amazônia 2030 mostram que o Brasil poderia dobrar sua produção de carne sem novos desmatamentos, recuperando pastagens degradadas.  

A China já sinaliza demanda por commodities sustentáveis: em 2023, seu Ministério do Comércio incluiu “baixo carbono” como critério para importações estratégicas. O Brasil pode se antecipar a barreiras comerciais futuras adotando certificações reconhecidas pelo mercado chinês, como o sistema “Carne Verde” proposto pela China Meat Association. Isso exigirá investimentos em rastreabilidade via blockchain e auditorias independentes – áreas em que empresas chinesas como Alibaba e JD.com já são líderes.  

Uma análise do Radar Verde em 2024 revelou uma lacuna preocupante: das 64 frigoríficos brasileiros autorizados a exportar para a China, 84% apresentavam controle “baixo” ou “muito baixo” sobre riscos de desmatamento em suas cadeias de fornecedores, especialmente entre fornecedores indiretos, onde a devastação costuma ocorrer. Esse desalinhamento pode se tornar um passivo comercial e reputacional para o Brasil.  

Infraestrutura sustentável: o caminho viável

Outro desafio crítico está na infraestrutura. Os corredores logísticos que transportam soja, milho e carne para a China cortam regiões sensíveis da Amazônia. Em conversas recentes, novos acordos de investimentos em infraestrutura no Brasil foram firmados, visando reduzir custos logísticos de produtos brasileiros ao mercado chinês. Sem planejamento adequado, esses projetos aceleram o desmatamento, fragmentam florestas, inflamam conflitos sociais e comprometem o futuro do agronegócio brasileiro – além de minar a estabilidade climática continental.  

Esses corredores poderiam ser redesenhados como “rotas verdes”, incorporando tecnologia chinesa, como sensores de IoT para monitoramento em tempo real (como os usados no Cinturão Econômico do Rio Yangtzé); ou financiamento sustentável, com linhas de crédito do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) vinculadas a critérios de desmatamento zero; e também envolvimento comunitário, replicando modelos chineses de ecoturismo comunitário próximo a zonas portuárias na Amazônia.  

É preciso um planejamento público com critérios socioambientais robustos – mapeando fluxos de carga, comparando alternativas logísticas, avaliando riscos ambientais e incluindo comunidades afetadas nas decisões. Infraestrutura que respeite a floresta é essencial para manter a competitividade do agronegócio brasileiro.  

Uma parceria para o futuro

Proteger a Amazônia não é apenas uma agenda ambiental – é um imperativo econômico e geopolítico. O futuro alimentar e a capacidade exportadora do Brasil dependem de uma floresta em pé. A “Civilização Ecológica” da China não é um projeto local, mas uma visão global que exige cooperação. Para o Brasil, conservar a Amazônia significa garantir seu lugar na nova economia movida pela sustentabilidade – onde produtos certificados valem mais. Para a China, essa parceria é uma oportunidade de mostrar liderança global genuína, transformando cadeias de suprimentos. 

Para o jornalista chinês Jiang Yifan, o momento atual representa uma janela de oportunidade histórica para uma parceria verde entre China e Brasil. De um lado, a China passa por mudanças estruturais em seu mercado interno de alimentos, com queda nas importações de carne e milho, aumento da autossuficiência agrícola e iniciativas para reduzir a dependência de farelo de soja na ração animal. Essas transformações reduzem o peso da segurança alimentar como obstáculo à adoção de critérios ambientais nas importações. Ao mesmo tempo, tensões comerciais com os Estados Unidos criam incentivos para a China diversificar fornecedores, especialmente do Brasil. Assim, o país ganha margem de manobra para incorporar exigências ambientais em suas compras externas sem comprometer o abastecimento interno.

Por sua vez, o Brasil precisa restaurar sua imagem ambiental e entregar resultados concretos antes da COP30, que sediará em novembro. O país já possui metas climáticas e compromissos de reflorestamento e combate ao desmatamento, mas precisa de investimentos e incentivos para cumpri-los. Se a China alinhar sua política de importações agrícolas com essas metas brasileiras — por exemplo, exigindo rastreabilidade e padrões de sustentabilidade — poderá acelerar o fim do desmatamento, ajudar o Brasil a cumprir seus compromissos internacionais e ainda fortalecer sua própria segurança alimentar a longo prazo. Para Jiang, uma aliança verde Brasil-China é uma chance de liderança conjunta do Sul Global, com impacto geopolítico, ambiental e comercial. Juntos, os dois países podem provar que desenvolvimento e natureza não são opostos, mas pilares complementares do nosso futuro compartilhado.  

*Alexandre Mansur é diretor de projetos do Mundo Que Queremos e coordenador do Radar Verde.

**André Guimarães é diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e enviado especial da COP30 para a sociedade civil. 


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