Produção familiar em Piumhi alia pecuária regenerativa, bem-estar animal e recuperação ambiental, mostrando que é possível fazer queijo premiado com impacto ambiental positivo
Na Serra da Canastra, uma pequena propriedade de 25 hectares em Piumhi demonstra que a produção de queijo artesanal pode ir muito além da conquista de paladares exigentes. A Queijaria Faz o Bem, criada em 2021, transformou-se em referência de produção agroecológica ao combinar tradição queijeira, recuperação ambiental e sistemas produtivos regenerativos.
O engenheiro agrônomo Vinícius Soares deixou uma carreira consolidada em grandes empresas do setor lácteo, como Danone e Itambé, para retornar à sua terra natal durante a pandemia. O movimento não foi apenas uma mudança geográfica, mas uma transformação de propósito. Hoje, 44% da propriedade está preservado com mata nativa, enquanto o restante abriga um sistema integrado que combina pastagem, agrofloresta e bem-estar animal.
O queijeiro ressalta a importância de pensar no longo prazo para a região.
“A proposta é melhorar o ambiente onde estamos inseridos, beneficiando as futuras gerações.”
Certificação orgânica e desafios da produção sustentável
A Queijaria Faz o Bem conquistou em 2023 o selo de certificação orgânica concedido pelo Instituto de Biodinâmica (IBD), tornando-se a primeira e única queijaria da região da Canastra com essa certificação. O reconhecimento veio com apoio do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Agroindústria.
O pioneirismo, contudo, revelou desafios significativos. As restrições de insumos impactaram diretamente a produtividade do rebanho, levando o produtor a uma decisão difícil após três anos certificado.
Vinícius explica a questão da produtividade que enfrentou durante o período certificado.
“Ficamos certificados por cerca de três anos, mas optamos por não seguir, uma vez que as restrições de insumos impactavam diretamente no desempenho do rebanho. Não podíamos usar milho e soja transgênicos. As vacas produziam em torno de 8,5 a 9 litros por dia. Quando deixamos o orgânico, essa média subiu para 14 litros por vaca/dia.”
Mesmo sem o selo orgânico, o manejo permanece agroecológico e regenerativo, provando que a sustentabilidade pode existir independentemente de certificações formais.

Inovação em sistemas integrados e economia circular
Um dos diferenciais da propriedade é o aproveitamento total dos subprodutos. O soro do queijo, tradicionalmente descartado e considerado um passivo ambiental, alimenta porcos da raça crioula Piau criados em sistema extensivo. Os animais vivem soltos em quase dois hectares, integrando-se ao ecossistema da fazenda.
O sistema silvipastoril intensivo é outro destaque. Em 3,4 hectares de pastagem rotacionada, foram plantadas cerca de 800 árvores e centenas de arbustos, criando um ambiente que integra gramíneas, leguminosas e espécies arbóreas. O produtor projeta o futuro dessa integração.
“Daqui a cinco ou dez anos, poderemos dizer que produzimos queijo debaixo de uma floresta.”
Os queijos são produzidos com leite cru e fermento natural, permitindo a degradação natural da lactose durante a maturação, resultando em produtos zero lactose. A propriedade possui o Selo Queijo Artesanal, que autoriza a comercialização em todo o território nacional.
Mercado do queijo Canastra em expansão
A região da Serra da Canastra vive um momento de reconhecimento internacional. O setor de queijos artesanais apresentou crescimento de 8% nas exportações em 2024, impulsionado pela demanda crescente por produtos de alta qualidade. A produção brasileira de queijos ultrapassou 1,6 milhão de toneladas, com crescimento de 6,5% em relação ao ano anterior.
A região da Canastra conta com cerca de 800 produtores protegidos pela Indicação Geográfica, que além de valorizar o produto, estabelece um diferencial competitivo e promove uma imagem positiva ligada à qualidade. O reconhecimento via Indicação de Procedência, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 2012, delimita que apenas queijos produzidos em sete municípios podem usar a denominação: São Roque de Minas, Medeiros, Vargem Bonita, Tapiraí, Delfinópolis, Bambuí e Piumhi.
O mercado brasileiro tem ampliado a oferta de queijos regionais e de terroir, como canastra, coalho e minas frescal, com a certificação de origem fortalecendo a credibilidade e agregando valor. O queijo Canastra, em particular, alcançou o primeiro lugar no ranking do site americano TasteAtlas, uma conquista que reforça a qualidade do produto brasileiro no cenário internacional.
Contudo, desafios permanecem. A venda para o mercado internacional é objetivo dos produtores, mas o caminho entre a propriedade rural e o exterior é longo e cheio de obstáculos, incluindo custos de produção 30% mais altos que os principais players internacionais.
Apoio institucional e valorização regional
O produtor destaca o papel fundamental do Sebrae Minas na estruturação da marca e na organização da cadeia produtiva regional.
“Fazemos parte da rota do café, queijo e cachoeiras. É um suporte constante para colocar nossos produtos no mercado e manter viva a tradição do Queijo Minas Artesanal.”
A queijaria integra o projeto de turismo Rotas da Canastra, que posiciona a região como destino de ecoturismo e gastronomia. A Serra da Canastra foi apontada como uma das principais tendências de viagem para 2026 no Brasil, segundo a plataforma Booking.com, o que tende a impulsionar ainda mais a valorização dos produtos locais.
Qualidade reconhecida nacional e internacionalmente
A excelência na produção rendeu reconhecimento em importantes concursos. Em 2022, com apenas um ano de atividade, a Faz o Bem conquistou medalhas de Prata e Bronze no Mundial do Queijo do Brasil. O produtor relembra a importância do reconhecimento.
“Foi como passar no vestibular. Tivemos certeza de que estávamos no caminho certo.”
Em setembro de 2025, a queijaria alcançou o segundo lugar na categoria Queijos de Casca Florida Natural no 18º Concurso de Queijos Artesanais de Minas Gerais, consolidando sua reputação no mercado de queijos especiais.
Visão de futuro e legado
Para os próximos anos, o foco não está no aumento de volume, mas na consolidação de um modelo que inspire outros produtores. O empreendedor compartilha sua visão de longo prazo.
“Nosso objetivo é consolidar a queijaria como referência em impacto ambiental positivo, bem-estar animal e inspiração para outros produtores. Quem sabe, ser uma fazenda modelo, uma área experimental para produtores, estudantes e interessados.”
A trajetória da Queijaria Faz o Bem demonstra que é possível conciliar tradição, qualidade e sustentabilidade na produção de alimentos. Em um momento em que a região da Canastra aumentou em 12% sua produção artesanal em 2024, com mais de 400 propriedades dedicadas à fabricação, iniciativas como essa mostram caminhos para que o crescimento do setor venha acompanhado de responsabilidade ambiental e social.
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