Sobreoferta pressiona produtor, mas sinais de recuperação acenam para a cadeia leiteira brasileira
O Brasil encerrou 2025 com a maior produção de leite da sua história, um crescimento estimado em 7,2% em relação ao ano anterior, segundo o Centro de Inteligência do Leite (Cileite/Embrapa). Ao mesmo tempo, o volume importado se manteve elevado, resultando em excesso de oferta no mercado interno e em uma queda de 22,6% no preço médio pago ao produtor ao longo do ano. Em dezembro, o litro chegou a R$ 1,99 — o patamar mais baixo em anos recentes.
Apesar de um primeiro semestre relativamente favorável para as margens produtivas, o cenário piorou de forma consistente a partir de abril. A sobreoferta estrutural expôs uma fragilidade central da cadeia leiteira nacional: o Brasil produz mais do que o mercado interno consegue absorver sem um forte ajuste de preços, mas ainda não tem competitividade suficiente para exportar o excedente de forma regular. Para 2026, o horizonte começa a desenhar sinais moderados de recuperação, mas exige cautela e estratégia de quem produz.
O peso da sobreoferta em 2025
O recorde produtivo de 2025 não veio sozinho. Um conjunto de fatores favoráveis — clima adequado, maior profissionalização do campo e crescimento das grandes fazendas tecnificadas — impulsionou a produção a níveis sem precedente. Ao mesmo tempo, as importações, embora 4,2% menores do que em 2024, ainda registraram um déficit comercial de cerca de 2 bilhões de litros equivalentes. O leite em pó continuou como principal produto importado.

O custo de produção subiu apenas 3% no acumulado até dezembro de 2025, abaixo da inflação oficial de 4,3% no período. Isso criou uma espécie de amortecedor para os produtores mais eficientes, especialmente no primeiro semestre.
O pesquisador Glauco Carvalho, da Embrapa Gado de Leite, aponta que a estabilidade dos insumos foi decisiva para manter as margens fora do território negativo na maior parte do ano:
“Observamos uma mudança estrutural na produção leiteira no Brasil, com maior concentração nas grandes fazendas. Essas fazendas estruturadas respondem à questão da rentabilidade de maneira mais forte.”
O último trimestre, porém, foi consideravelmente mais difícil. A combinação de preços em queda e oferta ainda elevada comprometeu a rentabilidade do produtor médio e revelou o quão frágil é a dependência exclusiva do mercado interno para escoar a produção.
Perspectivas para o mercado internacional em 2026
O mercado global de lácteos inicia 2026 com oferta elevada. Argentina e Uruguai registraram crescimentos de 7% a 8% na produção em 2025, contribuindo para pressionar os preços internacionais. O cenário de margens apertadas e incertezas geopolíticas — na Venezuela, no Irã e no Leste Europeu — deve moderar o crescimento produtivo global ao longo do ano, mas sem reverter a tendência de preços baixos no curto prazo.
O pesquisador Samuel Oliveira, também da Embrapa Gado de Leite, analisa os movimentos recentes do mercado spot e alerta para uma interpretação cuidadosa dos sinais externos. Os leilões da Global Dairy Trade (GDT) — uma das principais plataformas de comercialização de lácteos do mundo — mostraram alguma recuperação pontual, mas isso não deve ser lido como uma virada consistente de tendência:
“Movimentos de alta percebidos no último leilão GDT devem ser percebidos como correções pontuais de preços.”
A valorização recente do real frente ao dólar adiciona uma camada de risco adicional: produtos importados tendem a se tornar mais competitivos em preço, o que pode intensificar a concorrência no mercado doméstico nos próximos meses.
Sinais de recuperação no mercado interno
Nem tudo é sombra no horizonte de 2026. O mercado spot brasileiro começou a reagir, sinalizando uma retomada gradual de preços. A aproximação da entressafra — período de menor produção — tende a criar um viés de alta na precificação do leite ao longo do primeiro semestre. Outro fator positivo é a recuperação dos preços de bezerras e da arroba do boi, que gera renda extra para os produtores na venda de novilhos e no descarte de vacas.
No campo macroeconômico, o ambiente é de cautela. O crescimento do PIB projetado para 2026 é de 1,8%, abaixo dos 2,3% estimados para 2025. Com juros ainda altos para conter a inflação e um ano eleitoral que traz volatilidade cambial e expectativa de aumento nos gastos públicos, os produtores precisam planejar com mais rigor do que nunca.
Tecnologia e competitividade como saída estrutural
A discussão sobre o futuro do leite no Brasil inevitavelmente passa pela tecnologia e pela produtividade. O SondaLeite, sistema desenvolvido pela Embrapa, exemplifica o potencial da inovação aplicada ao campo: a tecnologia monitora a qualidade do leite diretamente no local de produção, usando feixes de luz para classificar o leite cru em apenas 25 segundos, eliminando interferências humanas e agregando eficiência a toda a cadeia.
Iniciativas como essa ganham ainda mais relevância quando se observa que o Brasil conta com cerca de 513 mil produtores espalhados pelo país, segundo estimativas do Cileite. A heterogeneidade tecnológica e de gestão é um dos maiores obstáculos à competitividade nacional na exportação do excedente produtivo.
Glauco Carvalho aponta que existem regiões no Brasil que já operam em nível de competitividade internacional, como demonstração concreta do que é possível alcançar com maior tecnificação.
“Existem hoje condições de o País ser competitivo. Há regiões e sistemas de produção que estão mostrando isso. Por exemplo, na região de Castro, no Paraná, a produção é de quase 3 milhões de litros de leite por dia e a produtividade das fazendas é igual ou superior à observada na Argentina.”
Samuel Oliveira reforça que o ritmo de transformação do setor exige postura proativa dos produtores, alertando que quem não acompanhar as mudanças ficará para trás. A chave está em combinar redução de custos com agregação de valor e adoção de tecnologia:
“As transformações no setor são rápidas e quem não acompanhá-las ficará para trás. É preciso buscar o aumento de produtividade e a redução de custos ou a agregação de valor, aproveitando o espaço que o Brasil ainda tem para evoluir em competitividade tecnológica.”
Acordo Mercosul-UE: oportunidade de longo prazo
A aprovação do Acordo Mercosul-União Europeia em janeiro de 2026 abriu uma nova janela de possibilidades para a cadeia leiteira brasileira — ainda que no curto prazo os impactos sejam limitados. As cotas de isenção previstas para leite em pó e queijos têm volumes modestos em relação ao tamanho dos mercados. O queijo muçarela ficou de fora do acordo e segue taxado. Já a manteiga terá redução tarifária imediata de 30%.
O maior impacto deverá ser sentido nos nichos de queijos de alto valor agregado, onde a concorrência europeia pode se intensificar. O processo ainda depende de ratificação pelos países membros e pode ser atrasado pelo exame do Tribunal de Justiça da União Europeia — o Parlamento Europeu enviou o acordo para avaliação de conformidade com as leis do bloco.
Glauco Carvalho propõe uma leitura estratégica positiva do acordo, enxergando a conexão com o padrão europeu como um caminho para elevar a competitividade global do leite brasileiro:
“A Europa funciona como uma certificação para o Brasil. Se aprimorarmos nossas questões sanitárias e de qualidade para atender aos padrões europeus, isso nos credencia globalmente, abrindo portas para outros mercados.”
O desafio, portanto, não é apenas sobreviver ao ciclo atual de preços baixos. É usar este momento de pressão para acelerar a modernização, reduzir assimetrias tecnológicas e construir as bases para uma cadeia leiteira nacional que, finalmente, consiga exportar de forma consistente e competitiva.
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