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Enquanto gigantes do setor permanecem presos a contratos futuros, players menores têm vantagem momentânea com preços spot mais baixos

O mercado global de cacau passa por um momento de transição após dois anos de volatilidade extrema. Depois de atingir picos históricos em 2024, os preços do cacau caíram significativamente, chegando a cerca de US$ 3.778 por tonelada em fevereiro de 2026, valor similar ao registrado no final de 2023. A questão que move a indústria agora não é apenas sobre a queda dos preços, mas sim sobre quem pode realmente se beneficiar dessa mudança no cenário.

A resposta surpreende. Enquanto as gigantes da indústria como Mondelēz, Nestlé e Mars já possuem seus suprimentos de cacau garantidos por meio de contratos futuros, os pequenos e médios produtores de chocolate podem estar em posição mais favorável para aproveitar os preços mais baixos no curto prazo.

Contratos futuros limitam grandes empresas

A dinâmica dos contratos futuros explica essa aparente contradição. Grandes fabricantes tradicionalmente garantem seu fornecimento de cacau com cerca de um ano de antecedência, protegendo-se contra flutuações de preço através de uma estratégia conhecida como hedging. Essa abordagem funcionou bem quando os preços dispararam em 2024, mas agora se tornou uma desvantagem.

Friedel Huetz-Adams, pesquisador sênior do Suedwind-Institute, instituto de pesquisa alemão, explica que antes da crise do cacau, grandes fabricantes cobriam seu fornecimento com aproximadamente um ano de antecedência. No entanto, quando os preços começaram a subir no final de 2023, todas as certezas anteriores foram descartadas.

“Muitas das grandes empresas previram a queda nos preços e decidiram esperar antes de fazer novos contratos de hedging”, afirma Huetz-Adams.

Durante sua recente apresentação de resultados anuais de 2025, a Mondelēz International admitiu que não conseguiria aproveitar a queda dos preços no curto prazo, pois já havia garantido seu fornecimento para 2026. A empresa americana destacou que a maior parte de seu volume está vinculada a posições previamente acordadas, que não expiram todas de uma vez.

Jordan Kear-Nash, consultor principal da consultoria de cadeia de suprimentos Proxima, explica essa dinâmica. Para grandes empresas, uma pequena porção não protegida por hedging pode se beneficiar imediatamente da queda dos preços spot, mas a maioria de sua base de custos só sentirá o impacto quando os contratos existentes expirarem.

Pequenos produtores ganham flexibilidade temporária

Para os pequenos fabricantes de chocolate, que não têm condições de fazer hedging tão longe no futuro quanto as gigantes, surge uma janela de oportunidade. Esses players podem comprar cacau pelo preço spot atual, que se tornou significativamente mais baixo.

De acordo com o pesquisador Huetz-Adams em matéria do FoodNavigator, esses produtores menores podem reduzir seus preços de chocolate mais cedo do que as grandes marcas. Essa vantagem, porém, é inerentemente temporária e representa uma faca de dois gumes. Enquanto se beneficiam durante períodos de queda de preços como o atual, ficam muito mais expostos a aumentos rápidos de preço, como ocorreu em 2024 e 2025.

No mercado brasileiro, essa dinâmica se torna ainda mais relevante com a aproximação da Páscoa 2026. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), o setor prevê uma retração de cerca de 20% na quantidade total de ovos de Páscoa produzidos este ano em relação à produção do ano passado.

Mercado brasileiro se prepara para Páscoa com estratégias diversificadas

Apesar da redução prevista na produção, a expectativa da Abicab é de contratação de pouco mais de 9.600 trabalhadores temporários para a Páscoa 2026, aumento de 26% em relação a 2024, com previsão de que 20% sejam efetivados. Os dados revelam que o setor está apostando em diversificação de portfólio, com produtos menores e mais variados, como estratégia para lidar com o aumento de custos.

Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), os preços dos ovos de chocolate e produtos relacionados como bombons, miniovos, coelhos e barras tiveram aumento médio de 14%, enquanto as colombas ficaram 5% mais caras em relação ao ano anterior.

Pesquisa realizada pela Kantar revela que durante a Páscoa de 2024, o volume de compras de chocolate cresceu 15% em relação ao mesmo período de 2023, com destaque para formatos regulares. As barras de chocolate registraram aumento de 22,5%, enquanto as caixas de variedades representaram 45,3% do volume de vendas sazonais. Cerca de 44,4% dos lares brasileiros compraram chocolate no período da Páscoa, sendo o autosserviço o canal preferido.

Várias empresas nacionais já estão com produtos dispostos nos pontos de venda, em redes supermercadistas e lojas próprias. A Cacau Show, maior rede brasileira de chocolates, apresentou seu portfólio de Páscoa 2026 com 75 produtos, reunindo chocolates em diferentes formatos, sabores e faixas de preço.

Tendências de consumo apontam para produtos premium e personalizados

Análise do mercado indica que os consumidores brasileiros têm feito escolhas mais racionais, equilibrando o orçamento sem abrir mão da categoria chocolate. Pesquisa da Puratos, empresa global de ingredientes para panificação e confeitaria, revela que 75% dos consumidores brasileiros mantêm o consumo de doces mesmo em momentos de restrição orçamentária, acima da média mundial de 68%.

Os sabores de chocolates, bolos e confeitos são os principais motivadores para as escolhas dos consumidores, enquanto o preço dos produtos é um fator secundário na decisão de compra. Os consumidores de chocolates são mais flexíveis e adoram realizar compras em multicanais, segundo a pesquisa Taste Tomorrow da Puratos.

Para 2026, especialistas do setor apontam tendências que incluem ovos de Páscoa em formato 2D, mais práticos para envio e com melhor proporção de recheio, além de sabores exóticos como praliné de noz pecan, macadâmia caramelizada com chocolate branco tostado e gergelim preto. A sustentabilidade também ganha espaço, com embalagens mais conscientes e produtos que atendem restrições alimentares.

Vantagem temporária requer análise estratégica

Especialistas alertam, porém, que a vantagem atual dos pequenos produtores não é absoluta. Jordan Kear-Nash, da Proxima, esclarece que empresas menores não são inerentemente incapazes de acessar hedging. A diferença é que negócios maiores frequentemente têm o fluxo de caixa e a capacidade de armazenamento para manter mais estoque físico, o que lhes permite combinar inventário existente com posições futuras e suavizar sua base de custos.

Empresas menores, por terem menos mão de obra, capital e capacidade de manter estoque físico, têm sua habilidade limitada para aproveitar totalmente a queda dos preços spot antes que a demanda volte a subir. Por outro lado, empresas maiores que não estão totalmente protegidas para o futuro previsível podem comprar cacau físico agora e usar isso para apoiar contratos futuros, criando um portfólio balanceado que ajuda a fazer a média dos custos.

Friedel Huetz-Adams ressalta ainda que, mesmo que as mudanças de preço proporcionem uma vantagem às empresas menores, isso não será suficiente diante da reputação gigantesca das marcas estabelecidas e reconhecidas. Nos últimos dois anos, ficou provado que o preço não é tudo para este setor. Muitas pessoas mantêm sua marca preferida mesmo quando o preço aumenta significativamente.

Gigantes da indústria diversificam fornecimento

Enquanto lidam com a volatilidade de preços, as grandes empresas do setor estão investindo em estratégias de diversificação de fornecimento. A Mondelēz International explicou em recente apresentação de resultados que está focando mais significativamente no mercado latino-americano, particularmente Brasil e Equador, além de pequenas quantidades na Índia e Indonésia.

O CEO da Mondelēz, Dirk Van de Put, afirmou que do ponto de vista de gestão de risco de longo prazo é melhor equilibrar o fornecimento de cacau em diferentes regiões geográficas. A Barry Callebaut também assinou acordos no Brasil para expandir a produção de cacau, já tendo produção no Equador. A empresa está inclusive investindo em parcerias com empresas de biotecnologia para desenvolver alternativas ao cacau cultivado.

A Mars abriu em 2024 um laboratório de pesquisa na Indonésia para melhorar os rendimentos. Em dezembro do ano passado, fez parceria com a corretora de commodities Sucden para impulsionar a produção de culturas resilientes ao clima na República Dominicana e no Equador. A Nestlé, no entanto, permanece focada principalmente na África Ocidental, onde a Costa do Marfim continua sendo sua principal origem.

Futuro incerto mantém setor em alerta

A incerteza em torno da produção sugere outra possível alta de preços no futuro. Agricultores estão lutando para produzir cacau suficiente devido ao custo de insumos como fertilizantes, que muitos não podem pagar. Muitas empresas nem mesmo estão comprando o cacau disponível.

Para Friedel Huetz-Adams, as empresas deveriam sair dessa forma de fazer negócios que está arruinando seu próprio futuro. Os agricultores precisam de um preço que cubra uma renda digna e os encoraje a investir em sistemas de produção mais resilientes. Se as empresas não mudarem a forma como fazem negócios, a volatilidade no setor de cacau continuará.

Jordan Kear-Nash sugere que, em vez de um ciclo fixo de compra, as empresas devem ter uma estratégia de portfólio genuína. Elas precisam construir opcionalidade em seus contratos, o que significa que não têm a obrigação de executá-los. As empresas mais bem-sucedidas combinam posições de estoque físico com margem de manobra seletiva, o que lhes dá maior flexibilidade e capacidade de agir quando o mercado muda.

A queda atual dos preços do cacau traz alívio temporário, mas o cenário permanece complexo. Para pequenos produtores brasileiros que se preparam para a Páscoa 2026, a janela de oportunidade existe, mas exige análise estratégica cuidadosa. Para os gigantes do setor, o momento reforça a importância de portfólios diversificados e estratégias flexíveis de fornecimento.

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