Iniciativa lançada durante a Festa da Uva beneficia 90 famílias em cinco municípios gaúchos e propõe modelo replicável de alimentação saudável nas escolas públicas
O sul do Brasil ganhou, no dia 26 de fevereiro de 2025, um novo marco na intersecção entre produção sustentável e alimentação escolar. Nos pavilhões da Festa da Uva, em Caxias do Sul, foi lançado oficialmente o PNAE Agroecológico — programa que conecta a transição agroecológica de famílias agricultoras à oferta de refeições mais saudáveis nas redes municipais de ensino de Antônio Prado, Caxias do Sul, Ipê, Montenegro e Porto Alegre. A iniciativa reafirma o papel estratégico dos municípios na construção de sistemas alimentares locais mais justos, saudáveis e resilientes.
Conduzido nacionalmente pelo Instituto Comida do Amanhã, em parceria com o Instituto Fome Zero (IFZ) e o Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (WFP) no Brasil e da Fundação Rockefeller, o programa conta, no Rio Grande do Sul, com a atuação do CETAP — Centro de Tecnologias Alternativas Populares e do Centro Ecológico. Com duração prevista de quatro anos, o projeto busca influenciar políticas públicas nacionais e consolidar um protótipo replicável para o aumento da oferta de alimentos saudáveis na alimentação escolar.
O potencial transformador dos municípios gaúchos
Ao todo, 90 famílias agricultoras serão diretamente beneficiadas pelo programa, com foco no fortalecimento da agricultura familiar, na transição agroecológica e na oferta de refeições mais saudáveis nas escolas municipais. A programação do lançamento incluiu a assinatura de aditivo entre os municípios participantes e o Instituto Comida do Amanhã, além de uma mesa de diálogo sobre a importância da agroecologia para o território.
A escolha dos municípios não é aleatória. Antônio Prado e Ipê, por exemplo, acumulam décadas de experiência em agricultura ecológica, sendo reconhecidos como territórios pioneiros na transição agroecológica no Sul do Brasil. Porto Alegre, Caxias do Sul e Montenegro representam centros urbanos com redes escolares expressivas e potencial de escala para políticas de compras públicas sustentáveis da agricultura familiar local.
Sobre o engajamento dos gestores públicos na pauta, a diretora do Instituto Comida do Amanhã, Juliana Tângari, destacou a relevância da iniciativa como modelo de desenvolvimento territorial. Ao comentar o envolvimento dos municípios participantes, ela ressaltou:
“É muito importante que os municípios saiam à frente na agenda da promoção da alimentação saudável e do apoio à produção familiar ecológica. Os municípios de Antônio Prado, Caxias do Sul, Ipê e Porto Alegre mostram que, sim, é possível investir em desenvolvimento local sustentável a partir da promoção de práticas ecológicas na produção local de alimentos e da conexão com a oferta de alimentação escolar.”
Agroecologia como estratégia de saúde e soberania alimentar
A agroecologia, diferentemente do sistema de produção orgânico convencional, adota uma abordagem sistêmica que integra sustentabilidade ambiental, biodiversidade e aspectos sociais, promovendo a produção de alimentos mais saudáveis e o desenvolvimento local sustentável. Trata-se de um modelo que vai além da simples substituição de insumos químicos por alternativos naturais: envolve reorganização dos processos produtivos, valorização dos saberes locais e fortalecimento dos vínculos entre campo e cidade.
O PNAE — Programa Nacional de Alimentação Escolar é um dos maiores programas de segurança alimentar do mundo, atendendo cerca de 40 milhões de estudantes da educação básica pública brasileira. A Lei nº 11.947/2009 determina que pelo menos 30% dos recursos repassados pelo FNDE sejam destinados à compra direta de produtos da agricultura familiar. Em 2025, esse percentual foi ampliado pela Lei nº 15.226/2025, que eleva o índice mínimo para 45% a partir de 1º de janeiro de 2026 — reforçando o papel do programa na oferta de alimentação saudável e no estímulo a práticas sustentáveis de produção.
No cenário gaúcho, os números confirmam a relevância da política: segundo o Censo Sisan 2025, 82% das prefeituras do Rio Grande do Sul adquirem alimentos da agricultura familiar para a merenda escolar, índice acima da média nacional, refletindo a força histórica da agricultura familiar na região Sul do Brasil.
Uvas agroecológicas estreiam na Festa da Uva de Caxias do Sul
O lançamento do PNAE Agroecológico coincidiu com uma estreia simbólica: pela primeira vez na história da Festa da Uva de Caxias do Sul, o público recebeu cachos cultivados por meio do sistema orgânico, com foco na substituição de insumos químicos por alternativas naturais. Cerca de oito toneladas de uva orgânica foram adquiridas para a edição deste ano, dentro de um total de aproximadamente 130 toneladas da fruta oferecidas ao público durante o evento. A distribuição ocorreu tanto nos pavilhões quanto no Desfile Cênico da festa.
A presença da produção orgânica na Festa da Uva — uma das mais tradicionais celebrações da imigração italiana no Brasil — simboliza a convergência entre identidade cultural e inovação sustentável, reforçando a agenda de valorização da agricultura familiar e da produção ecológica no território da Serra Gaúcha.
Parceiros e compromissos institucionais
O evento reuniu prefeitos dos municípios participantes, agricultores, equipes técnicas e representantes de organizações parceiras. A programação incluiu falas de representantes das prefeituras e da equipe do projeto, com apresentação dos objetivos e metas para os próximos três anos, além de destaque para temas como a relevância da alimentação escolar de qualidade para o desenvolvimento das crianças, a importância da agroecologia como modelo sustentável, as conquistas já alcançadas pelos municípios em políticas públicas de alimentação e o compromisso das gestões municipais com a implementação e consolidação do projeto.
A iniciativa se insere em um movimento mais amplo de fortalecimento da alimentação escolar como política pública estruturante. A Fundação Banco do Brasil, por exemplo, já investe R$ 1,5 milhão em projeto agroecológico que beneficia mais de 300 famílias no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, demonstrando que o setor privado e o terceiro setor também reconhecem o potencial transformador da produção ecológica familiar na região.
O portal Food Forum News registrou, em maio de 2025, o avanço de projeto similar conduzido pela Fundação Banco do Brasil em parceria com a Associação Ecoterra, que modernizou a infraestrutura de produção agroecológica de agricultores gaúchos. A reportagem revelou como a adoção de equipamentos como classificadoras de grãos e veículos de distribuição reduziu drasticamente o tempo de trabalho nas propriedades rurais, tornando a agricultura familiar mais atrativa para jovens do campo. O projeto reforça a relevância econômica e social da agroecologia como vetor de desenvolvimento local sustentável — exatamente o terreno em que o PNAE Agroecológico busca atuar.
Perspectivas: quatro anos para consolidar um protótipo nacional
Com duração prevista de quatro anos, o PNAE Agroecológico tem metas que transcendem os municípios gaúchos. O programa busca consolidar um protótipo de política pública com potencial de replicação em escala nacional, alimentando o debate sobre como os municípios podem liderar a transição para sistemas alimentares mais saudáveis, sustentáveis e economicamente inclusivos. A iniciativa dialoga diretamente com compromissos internacionais do Brasil, como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a cúpula do G-20 em 2024.
O Rio Grande do Sul se consolida, assim, como laboratório vivo de políticas agroecológicas integradas à alimentação escolar — um modelo que une campo e cidade, saúde e sustentabilidade, produção familiar e refeição escolar de qualidade.
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