A normalização dos preços expõe uma estrutura de custos e endividamento montada na euforia e inaugura uma fase de ajuste profundo no campo brasileiro
Por Gustavo Diniz Junqueira
O agronegócio brasileiro atravessa um momento que exige menos celebração e mais lucidez. Não se trata de uma crise de produção, tampouco de um colapso tecnológico ou logístico. A colheita segue volumosa, a eficiência agronômica permanece elevada e a presença do Brasil nos mercados globais continua central. O ponto de tensão é outro, mais silencioso e revelador: o estreitamento das margens combinado com uma mudança estrutural no crédito.
Nos últimos anos, o agro operou sob uma combinação incomum de preços internacionais elevados e expansão agressiva do financiamento. O valor bruto da produção agrícola superou US$ 200 bilhões em algumas safras recentes, enquanto o estoque de crédito rural se aproximou de US$ 150 bilhões equivalentes, somando operações bancárias e instrumentos de mercado. Esse crescimento ocorreu menos por meio de bancos públicos e cada vez mais via bancos privados, cooperativas financeiras e títulos adquiridos por investidores urbanos, fundos e seguradoras.
Esse detalhe muda tudo.
O crédito deixou de ser um instrumento clássico de política setorial e passou a funcionar como um ativo financeiro distribuído, sujeito a critérios de risco e retorno semelhantes aos de qualquer outro segmento da economia. Quando o custo do capital sobe, como subiu de forma persistente nos últimos ciclos globais, o impacto não se limita à redução de lucro. O que ocorre é uma reprecificação estrutural da viabilidade econômica de milhares de operações produtivas.
A política monetária encarece o crédito. O excesso de confiança encarece o erro.
A frase repetida no campo de que o agricultor “não quebra na baixa, quebra na alta” ajuda a entender o mecanismo em curso. O período de preços elevados estimulou decisões tomadas no limite da eficiência financeira: arrendamentos firmados com base em expectativas otimistas, pacotes tecnológicos completos, investimentos em máquinas e expansão de área financiados a taxas de mercado. Quando os preços das commodities retornam a patamares mais próximos da média histórica, ainda que não deprimidos, a conta deixa de fechar.
O problema não está no preço em si, mas na estrutura de custos e de endividamento montada para capturar a alta. Custos são rígidos, receitas são voláteis. O resultado é o aumento do risco de crédito, renegociações em cadeia e deterioração de carteiras. Produz-se bem, mas com balanços pressionados.
Esse ajuste, no entanto, não se distribui de forma homogênea. O Brasil vive uma assimetria crescente entre complexos produtivos. Commodities como soja, milho e algodão, que respondem por cerca de um quarto do valor gerado no agronegócio, enfrentam um ciclo de elevada produtividade combinada com pressão persistente sobre preços e margens. Já proteínas animais e café operam sob fundamentos mais favoráveis, sustentados por custos competitivos e demanda externa firme. O paradoxo do momento não é a falta de oportunidades, mas a escassez de liquidez ao longo da cadeia.
Tudo isso ocorre num contexto em que o Estado perdeu a capacidade de atuar como fiador universal do setor. Diferentemente dos anos noventa, no primeiro mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, quando programas amplos de securitização reestruturaram dívidas em escala relativamente modesta, hoje o volume envolvido tornaria qualquer solução generalizada fiscalmente onerosa e financeiramente disruptiva. O que se observa, portanto, não é um resgate clássico, mas uma triagem silenciosa conduzida pelo mercado.
As consequências são profundas. A principal delas é a aceleração da concentração operacional. Não necessariamente da propriedade da terra, mas do controle da produção. Grupos com melhor acesso a capital e gestão financeira passam a operar em vantagem estrutural. Pequenos e médios produtores não desaparecem, mas tendem a perder autonomia, migrando para modelos de integração ou cooperação. A independência produtiva cede espaço à interdependência financeira.
Esse movimento começa a se refletir no mercado de terras. A queda de preços em regiões dependentes dos grãos, combinada à execução de garantias e à entrada de fundos especializados em aquisição de terras, tende a aumentar a liquidez e a rotatividade de ativos. Para operadores capitalizados surgem oportunidades. Para estruturas frágeis, o ajuste é inevitável.
O Brasil não enfrenta uma crise existencial no campo. Enfrenta uma transição. O desfecho não será determinado pelo clima nem pela próxima safra, mas pela forma como o setor internaliza o custo do capital, organiza sua estrutura produtiva e redefine a relação entre crescimento e prudência. A agricultura brasileira continuará grande em escala. O verdadeiro teste não será a próxima safra, mas a capacidade do setor de atravessar o próximo ciclo de crédito, preços e liquidez preservando capital e solidez.
Gustavo Diniz Junqueira é empresário e foi secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo
Fonte: VEJA – 12/02/2026 – https://veja.abril.com.br/coluna/cenario-global/o-agro-nao-quebra-na-baixa-quebra-na-alta/
