O agro que cresce com inteligência, somando conectividade, dados e liderança para um setor em transformação
Por Rosana Blasio *
A cadeia de alimentos vive sua maior disrupção em décadas. O que era analógico agora é digital. O que era isolado agora é conectado. E quem não acompanhar ficará à margem – seja produtor, indústria ou varejo.
Pressionada por consumidores mais conscientes, avanços tecnológicos, mudanças climáticas e escassez de recursos, a cadeia precisa ser digital, eficiente, integrada e preparada para decisões em tempo real.
Tecnologia, dados e integração deixaram de ser vantagem competitiva. Hoje, são pré-requisitos de sobrevivência. Vamos entender por quê.
Um pouco de história e contexto
O termo agrobusiness surgiu na Universidade de Harvard, em 1957, por meio dos professores John Davis e Ray Goldberg. Desde então, o conceito evoluiu para o que conhecemos como cadeia agroindustrial, uma rede ampla de operações antes, dentro e depois da porteira.
O agronegócio é formado por uma teia robusta de players, que hoje operam em um ecossistema cada vez mais interdependente, onde a velocidade da informação e a rastreabilidade dos processos se tornaram diferenciais competitivos. São fornecedores de insumos, fertilizantes, sementes, produtores rurais, cooperativas, indústrias, exportadoras, empresas de logística, transporte e muitos outros.
No Brasil, somos referência mundial. Segundo a Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, o Brasil alimenta cerca de 10% da população mundial com sua produção agrícola – e ainda tem potencial de crescimento com sustentabilidade. Desde a agricultura familiar até o mercado global de commodities, como soja, milho, carne bovina, suína, aves, suco e café.
Curiosidade: de cada 5 copos de suco de laranja consumidos no mundo, 3 vêm do Brasil.
A transformação da cadeia de alimentos: de analógica para digital, de linear para integrada
O agronegócio brasileiro continua sendo um dos grandes motores da economia. Em 2024, o setor foi responsável por US$ 164,37 bilhões em exportações, aproximadamente R$ 1,00 trilhão (na cotação de hoje) – quase metade do total exportado pelo país.
Esse avanço é sustentado por alguns pilares:
- O Brasil possui mais de 66% do seu território coberto por florestas, e mais de 25% disso está dentro de propriedades rurais privadas. Toda a produção agrícola nacional utiliza menos de 30% do território total.
- Tecnologia e inovação são práticas fundamentais: agricultura de precisão, irrigação inteligente, biotecnologia, embalagens inteligentes, engenharia genética, automação de processos.
- Nosso diferencial está na tecnologia tropical combinada ao clima, relevo e abundância hídrica.
- A legislação florestal brasileira também se destaca frente a países como China, EUA, Alemanha e França.
Como a tecnologia, os dados e a inovação estão redesenhando o setor
O agro brasileiro está mais conectado e estratégico. Segundo o Ministério da Agricultura, 67% das propriedades já utilizam ferramentas digitais para gestão da produção, controle de estoques e outras áreas. E os resultados não param por aí:
- McKinsey (2023): digitalizar a cadeia pode aumentar margens em até 20% e reduzir desperdícios em até 35%.
- Rabobank (2024): integrar dados da produção ao consumo pode elevar a produtividade em até 40%.
- Embrapa (2024): IA, blockchain e IoT já são usadas em rastreabilidade, redução de perdas e eficiência logística.
- World Resources Institute (2024): a cadeia alimentar representa cerca de 25% das emissões globais de gases do efeito estufa e precisa urgentemente se tornar mais eficiente.
Inteligência artificial no campo: mais do que tendência, uma aliada de decisão
No agro, a IA é uma ferramenta ativa. Com algoritmos conectados a sensores, máquinas e satélites, a tecnologia já permite:
- Previsões meteorológicas mais precisas e localizadas.
- Detecção precoce de pragas e doenças.
- Otimização no uso de água, fertilizantes e insumos.
- Melhor planejamento logístico e de armazenagem.
O resultado? Produtividade, previsibilidade e qualidade com menos perdas e mais inteligência aplicada ao processo.
Quem está puxando essa transformação?
Não são apenas empresas do campo. A transformação da cadeia de alimentos envolve gigantes de diferentes setores, como JBS, BRF, Ambev, Nestlé, Mercado Livre, Marfrig, Cargill, Bunge, Camil, Aurora, Lactalis, Vigor, iFood, Food to Save, dentre outras.
A liderança estratégica está onde há visão de integração entre tecnologia, logística, produção, distribuição e consumo.
Os avanços são muitos, mas os desafios seguem relevantes
- Mudanças climáticas: impactam a produção e exigem resiliência operacional.
- Dependência de insumos importados: alta do dólar pressiona custos e margens.
- Juros elevados: dificultam acesso ao crédito e dificultam investimentos.
- Barreiras comerciais externas: colocam o Brasil sob constante escrutínio ambiental e social.
- Desperdício de alimentos: segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura FAO (2023), aproximadamente 30% da produção global é perdida ao longo da cadeia.
- Infraestrutura e logística defasadas: elevam custos e reduzem a competitividade internacional.
- Políticas públicas instáveis: dificultam previsibilidade e planejamento estratégico.
- Adoção de IA ainda desigual: exige investimento, cultura digital e conectividade no campo.
O papel dos líderes e conselhos nessa agenda
A cadeia de alimentos não é mais um ciclo fechado. É uma rede viva, inteligente, pressionada por resultados e movida por decisões cada vez mais rápidas.
Liderar esse setor exige mais do que experiência agrícola. Exige visão sistêmica, fluência digital e coragem para integrar tecnologia ao coração do negócio – da cultura interna à estratégia de expansão.
A inovação não é um projeto paralelo. É uma pauta de conselho.
O agro do futuro será comandado por quem entende que dados, tecnologia e sustentabilidade são mais que diferenciais: são os novos pilares da competitividade global.
Quem quiser alimentar o mundo amanhã precisa se transformar hoje.
Rosana Blasio, conselheira, mentora e executiva em desenvolvimento e expansão de negócios, com mais de 20 anos de experiência em alimentos, varejo e tecnologia. Atua junto a líderes, boards e empresas na construção de estratégias para escalar negócios, aumentar eficiência operacional e impulsionar a transformação digital.
Formada em Administração, com especializações em Tecnologia, Economia Circular e Conselhos pela ESPM, FGV, IBGC e Cambridge. Liderou programas de impactos notáveis em sete países. Foi CEO, conselheira e executiva de M&A, Operações e Sustentabilidade, em empresas como Seara Alimentos, Vigor Laticínios, JBS, Food To Save, Banco Itaú e Pacto Contra a Fome BR.
Como colunista, compartilha análises disruptivas sobre gestão, inovação, expansão sustentável e tendências que direcionam o futuro.
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