Importadores internacionais suspendem cargas por temor de intoxicação, mesmo sem restrições oficiais
Os casos de contaminação por metanol que resultaram em mortes e dezenas de internações no Brasil já começam a afetar as exportações nacionais. Importadores estrangeiros têm recusado cargas de bebidas alcoólicas brasileiras, como conhaques e espumantes, por receio de contaminação, mesmo sem haver restrição oficial de países parceiros.
Impacto no comércio exterior preocupa setor
O alerta foi emitido pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical), que ressalta a necessidade de fortalecer os mecanismos públicos de controle e fiscalização para preservar a credibilidade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
Segundo o presidente do sindicato, Janus Pablo Macedo, é fundamental esclarecer que as empresas legalmente constituídas e fiscalizadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) cumprem padrões rigorosos de qualidade e rastreabilidade.
“As empresas fiscalizadas pelo Mapa cumprem padrões de qualidade e rastreabilidade. Até o momento, não há denúncias nem suspeitas de que produtores legalizados estejam envolvidos nas ocorrências”, afirma Macedo.
Fabricantes clandestinos na origem da crise
As investigações apontam que os casos de intoxicação estão relacionados a fabricantes clandestinos, que operam à margem da legislação. A fraude consiste na adição de metanol, um álcool altamente tóxico, a bebidas destiladas, com o objetivo criminoso de reduzir custos de produção.
Quando ingerido, o metanol é metabolizado no organismo em substâncias que causam lesões severas no sistema nervoso e podem levar à cegueira ou à morte. Os casos registrados em diferentes estados brasileiros já resultaram em mortes confirmadas e dezenas de pessoas hospitalizadas.
Dimensão da falsificação no mercado brasileiro
O problema da clandestinidade no setor de bebidas vai além dos casos de contaminação. Segundo estudo da Euromonitor International para a Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD), o país deixou de arrecadar aproximadamente R$ 28 bilhões em impostos devido a bebidas falsificadas no último ano.
Os números revelam a gravidade da situação: os destilados falsificados correspondem a cerca de 28% do mercado nacional, incluindo bebidas como vodca, uísque, cachaça, tequila, rum, gin e conhaque. Já no segmento de fermentados, 9,7% do mercado é composto por produtos ilícitos, o que representa 81,5 milhões de litros, incluindo vinhos e espumantes.
Segundo Ramon Grasselli, gerente comercial da Soma Solution, fornecedora de equipamentos de codificação industrial, inspeção e automação, a falsificação atinge principalmente as bebidas de maior valor agregado.
“A falsificação atinge principalmente as bebidas de maior valor agregado. Na maioria das vezes, os falsificadores reproduzem seus rótulos de forma idêntica para confundir os consumidores, por serem os itens mais fáceis de burlar”, explica Grasselli.
Necessidade de fiscalização robusta
O presidente do Anffa Sindical enfatiza a importância do papel do Estado na proteção da sociedade.
“Casos como este mostram que a proteção da sociedade depende de um Estado forte e tecnicamente estruturado”, afirma Macedo.
A atuação dos auditores fiscais federais agropecuários é essencial para prevenir fraudes, identificar riscos e garantir que apenas produtos seguros cheguem ao consumidor. O sindicato ressalta ainda a importância da criação de um grupo de trabalho interinstitucional, que reunirá técnicos do Mapa e de outras autoridades federais, com o objetivo de aprimorar a rastreabilidade das bebidas e reforçar o combate à clandestinidade.
“É preciso investir continuamente em ações de inteligência e no fortalecimento da inspeção pública para que situações dessa gravidade não se repitam. Os profissionais que atuam no Programa de Vigilância em Defesa Agropecuária para Fronteiras Internacionais (Vigifronteira) atuam com inteligência e em parceria com autoridades policiais e também carecem de investimentos em recursos humanos e estrutura para um trabalho ainda mais eficaz”, destaca o presidente da entidade.
Tecnologias de rastreabilidade como aliadas no combate à fraude
Para combater a pirataria e a falsificação, fabricantes da cadeia de bebidas têm investido em tecnologias que reforçam a rastreabilidade e agregam diferenciais às embalagens. Produtores têm adotado técnicas que vão além dos rótulos, tornando cada item único.
Segundo Ramon Grasselli, no caso dos vinhos e espumantes, já é possível gravar nomes e códigos de rastreabilidade diretamente no vidro e até mesmo nas rolhas.
“Produtores têm adotado técnicas que vão além dos rótulos, tornando cada item único. No caso dos vinhos e espumantes, por exemplo, já é possível gravar nomes e códigos de rastreabilidade diretamente no vidro e até mesmo nas rolhas”, explica o executivo da Soma Solution.
O setor já conta com soluções eficazes que permitem atender à indústria em grande escala, com equipamentos capazes de codificar mais de cem mil produtos por hora. Além de vidros, produtos de alta densidade como metais, plásticos e embalagens metalizadas também podem receber codificação diretamente, dificultando a falsificação.
A Soma Solution, através do fornecedor Markem-Imaje, fornece soluções completas de serialização e rastreabilidade para controle de embalagens e produtos, aliados estratégicos no combate à falsificação de bebidas. Ao integrar tecnologia de identificação única em cada garrafa — por meio de códigos, QR Codes ou etiquetas inteligentes — esses sistemas permitem monitorar toda a cadeia produtiva, da fabricação ao ponto de venda.
“Isso garante transparência e autenticidade ao produto, dificultando a ação de falsificadores e facilitando a detecção de fraudes. Além de proteger o consumidor, a rastreabilidade fortalece a reputação das marcas e assegura o cumprimento das normas de segurança e qualidade impostas pelos órgãos reguladores”, destaca Ramon.
Com a consolidação do Brasil como um dos mercados mais promissores e de maior crescimento no segmento de vinhos e espumantes, a união entre autoridades, consumidores, fabricantes e fornecedores de tecnologia se torna essencial para a preservação e credibilidade do setor.
Sintomas e orientações ao consumidor
A intoxicação por metanol é uma emergência médica de extrema gravidade. Os principais sintomas são:
- Visão turva ou perda de visão (podendo evoluir para cegueira)
- Náuseas, vômitos, dores abdominais e sudorese intensa
Em caso de suspeita, a recomendação é buscar imediatamente atendimento médico de urgência e acionar um dos canais de orientação especializados:
- Disque-Intoxicação da Anvisa: 0800 722 6001
- CIATox da sua cidade: lista disponível aqui
- Centro de Controle de Intoxicações de São Paulo (CCI): (11) 5012-5311 ou 0800-771-3733 – atendimento nacional
Segundo as autoridades de saúde, também é essencial alertar outras pessoas que possam ter consumido a mesma bebida, para que procurem avaliação médica o quanto antes. A demora no atendimento aumenta o risco de sequelas graves e óbito.
Compromisso com segurança e qualidade
O Anffa Sindical lamenta profundamente as mortes e os impactos causados por esse crime, que atinge de forma direta a saúde pública e a credibilidade dos produtos brasileiros. A entidade reforça que somente o consumo e a comercialização de bebidas com procedência comprovada e submetidas à inspeção oficial garantem segurança ao consumidor.
Os auditores fiscais federais agropecuários seguem à disposição do Estado brasileiro e da sociedade para atuar com rigor técnico e compromisso público na identificação de riscos e na proteção da população.








