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Estudo inovador demonstra que ILPF e SAFs oferecem maiores retornos econômicos que métodos tradicionais

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) divulgou resultados de estudos que confirmam a viabilidade econômica de sistemas sustentáveis de produção na Amazônia e no Cerrado. A pesquisa revela que os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e os Sistemas Agroflorestais (SAFs) apresentam retornos financeiros superiores aos métodos tradicionais de produção.

Viabilidade econômica dos sistemas integrados: os destaques do estudo

  • Pela primeira vez, análises de ILPF e SAFs vão além do desempenho ambiental e agronômico e evidenciam retorno financeiro aos produtores.
  • Documento pode subsidiar políticas do Banco Mundial e apoiar a inclusão desses sistemas em programas de crédito rural.
  • Foram avaliados cinco sistemas, reunindo dados econômicos sobre produtividade, emprego e renda.
  • Estudos identificaram barreiras financeiras, sociais, técnicas e de mercado e apontam soluções para ampliar a adoção de sistemas sustentáveis nos dois biomas.
  • Expectativa é que o documento estimule a criação de um banco de dados robusto com informações econômicas, sociais e ambientais sobre ILPF e SAFs no Brasil.

Impacto na agricultura familiar e comunidades tradicionais

As tecnologias desenvolvidas pela Embrapa já são adotadas em mais de 140 mil hectares, gerando um impacto econômico superior a 160 milhões de reais. Os modelos de sistemas agroflorestais são especialmente direcionados para a recuperação de áreas degradadas de produtores familiares, comunidades tradicionais e populações indígenas.

“As informações sobre o desempenho econômico de sistemas integrados de produção na Amazônia e no Cerrado servirão de subsídio para as políticas do Banco Mundial. Além disso, podem contribuir para inserir esses sistemas nas políticas nacionais de crédito, como o Plano Safra da Agricultura Familiar. O documento evidencia ainda que, principalmente na Amazônia, existe a necessidade de ampliá-los”, declara o pesquisador da Embrapa Acre (AC) Judson Valentim.

Segundo dados da instituição, o estudo é inovador ao mostrar que, além dos benefícios ambientais e agronômicos, os sistemas de ILPF e os SAFs trazem maiores retornos econômicos e financeiros ao agricultor e ao pecuarista, comparados aos dos sistemas tradicionais.

A bioeconomia inclusiva na Amazônia tem potencial para beneficiar até 750 mil famílias, representando uma alternativa sustentável que combina conservação ambiental com geração de renda. O projeto inclui tecnologias sociais como o “Sisteminha Embrapa”, voltado para a produção integrada de alimentos em pequenas propriedades.

Desafios e metas de sustentabilidade

O Brasil estabeleceu metas ambiciosas para os próximos anos, incluindo a redução de 80% nas taxas de desmatamento na Amazônia e 40% no Cerrado. As ações propostas abrangem o reflorestamento de 12 milhões de hectares e o alcance de 45% de participação de energias renováveis na matriz energética brasileira.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Embrapa indicam que as políticas promovidas nos últimos 70 anos resultaram na conversão de cerca de 20% do bioma amazônico e na degradação de outros 38% devido ao uso inadequado do fogo.

Tecnologias disponíveis para produtores

A Embrapa disponibilizou um aplicativo que reúne tecnologias sustentáveis para o bioma Amazônia, permitindo buscas por produto ou município. A ferramenta faz parte do Projeto Integrado para a Produção e Manejo Sustentável do Bioma Amazônia (PIA), que visa viabilizar a transição de sistemas agropecuários de baixa produtividade para modelos intensivos e sustentáveis.

Entre as soluções oferecidas estão pacotes para recuperar a produtividade do cupuaçuzeiro, com controle da vassoura-de-bruxa e uso eficiente de resíduos, representando uma alternativa sustentável para a agricultura familiar e extrativista.

Barreiras e lacunas de conhecimento precisam ser superadas para ampliar adoção

Foto: Fabiano Bastos (ILPF)

A área ocupada com sistemas de ILPF no País, em 2017, era de 17 milhões de hectares, o que representa 7% de toda a área ocupada pela agropecuária, de acordo com dados da Rede ILPF. No documento, os pesquisadores elencam uma série de barreiras financeiras, ambientais, sociais e técnicas e de infraestrutura e mercado para a adoção dos sistemas de ILPF e dos SAFs na Amazônia e no Cerrado, além das políticas públicas e dos incentivos existentes, com sugestões de melhorias para a expansão dessas práticas sustentáveis. Eles também apontam lacunas no conhecimento relacionadas à avaliação econômica dos sistemas.

Entre as barreiras financeiras, são citadas as políticas de crédito, que não estão alinhadas à dinâmica de fluxo de caixa dos sistemas de produção sustentáveis, pois focam em resultados anuais. Apesar de o Plano Safra e o Plano ABC oferecerem empréstimos a juros baixos para investimentos em diversificação produtiva, são sugeridos ajustes para que os mecanismos de crédito considerem resultados econômicos, sociais e ambientais de longo prazo.

A falta de regulamentação da Lei 14.119/2021, que institui a Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais, é uma das barreiras ambientais. Mesmo com o novo Código Florestal, os pesquisadores ressaltam a necessidade de fortalecer o investimento público em pesquisa para desenvolver indicadores e métricas que sirvam de referência para políticas ambientais, além da priorização da criação do Cadastro Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais, do Programa Federal de Pagamento por Serviços Ambientais e do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa.

A falta de assistência técnica e a disponibilidade limitada de mão de obra qualificada para tarefas complexas dos sistemas de ILPF e SAFs são as principais barreiras quanto aos aspectos sociais e técnicos. Apesar das pesquisas e iniciativas de extensão rural apoiadas pelo governo federal, bem como das unidades demonstrativas para produtores, sugere-se o fortalecimento do vínculo entre o acesso ao crédito e a prestação de assistência técnica especializada, além da ampliação dos recursos humanos e financeiros da Agência Nacional de Extensão Rural (Anater) e da implementação da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural.

Foto: Ronaldo Rosa (SAF)

Como principal barreira de infraestrutura e mercado, é apontada a ausência de infraestrutura agrícola em regiões mais distantes das áreas consolidadas de produção de soja e milho no Cerrado. São sugeridos investimentos especialmente em ferrovias e hidrovias para potencializar a competitividade e a abertura de novos mercados.

Diversos fatores são apontados para explicar a escassez de conhecimento para as análises econômico-financeiras de sistemas sustentáveis na Amazônia e no Cerrado. Entre eles, a dificuldade de coletar informações econômicas em estudos de campo; a dependência, em muitos estudos, de experimentos controlados ou estudos de caso em fazendas, o que restringe a extrapolação dos dados; a grande variabilidade nas abordagens metodológicas; e, diante da disponibilidade limitada de dados, a tendência de avaliação dos componentes dos sistemas isoladamente, sendo que a característica fundamental da ILPF e dos SAFs são as interações sinérgicas entre eles.

“Ao apontar não apenas o potencial como também barreiras para a adoção e lacunas de conhecimento sobre os sistemas de ILPF e os SAFs, esperamos que esta síntese possa estimular uma agenda de pesquisa que leve à construção de um banco de dados econômicos, sociais e ambientais robusto sobre esses sistemas no Brasil”, conclui Reis.

Os resultados dos estudos reforçam o papel estratégico da pesquisa agropecuária brasileira no desenvolvimento de soluções que conciliem produtividade, rentabilidade e sustentabilidade ambiental. O novo marco de colaboração entre instituições científicas e produtores rurais promete acelerar a adoção dessas tecnologias nos biomas brasileiros.


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