Projeto Paisagens Alimentares conecta gastronomia tradicional e desenvolvimento econômico em territórios vulneráveis do semiárido, com potencial de R$ 1,5 milhão anuais
O turismo sustentável de base comunitária está se consolidando como uma alternativa concreta para o desenvolvimento socioeconômico de comunidades rurais no Nordeste brasileiro. O projeto Paisagens Alimentares, coordenado pela Embrapa Alimentos e Territórios (AL) e financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), demonstra como a valorização da cultura alimentar pode estruturar rotas turísticas autênticas e economicamente viáveis.
Com atuação em cinco territórios de Alagoas, Pernambuco e Sergipe, a iniciativa envolveu diretamente mais de 500 participantes e impactou estimadamente cinco mil pessoas da região. A proposta inovadora conecta biodiversidade, produção agroalimentar, história dos alimentos e cultura local, permitindo que os territórios contem suas histórias através de sabores, saberes e práticas cotidianas.
Impactos econômico e social mensuráveis
O potencial econômico das seis rotas estruturadas é significativo. De acordo com os cálculos do projeto, em um cenário moderado de 100 visitantes por mês por território, com gasto médio de R$ 200 por pessoa, a renda anual pode chegar a R$ 240 mil por território, totalizando R$ 1,44 milhão anuais nos seis municípios participantes.
Anatália Costa Neta, da Associação das Mulheres Empoderadas de Terra Caída, em Indiaroba (SE), destaca o impacto transformador da iniciativa:
“O Paisagens Alimentares trouxe um despertar: fez a gente perceber o valor do conhecimento local e da força que temos enquanto rede de mulheres. Ele abriu portas para a autonomia financeira, para mudanças de hábitos e, principalmente, para o fortalecimento da autoestima dessas mulheres”
Protagonismo feminino e juventude rural
O projeto se destaca pelo protagonismo feminino em todas as suas fases. Mulheres rurais lideraram associações, coordenaram trilhas turísticas, organizaram vivências e estimularam a produção artesanal e agroecológica. Junto a elas, jovens atuaram como guias, comunicadores e multiplicadores das tradições locais.
Um exemplo emblemático é a Trilha das Marisqueiras, na Área de Proteção Ambiental de Guadalupe, em Pernambuco, onde 35 mulheres da Associação das Marisqueiras de Sirinhaém (Amas) estruturaram uma rota baseada em seus conhecimentos sobre o ciclo das marés e ecossistemas locais. A experiência inclui visitas guiadas aos manguezais, apresentação de técnicas sustentáveis de coleta de mariscos e degustação de pratos típicos.
Viviane Maria Wanderly, presidente da Associação das Marisqueiras de Sirinhaém, celebra o reconhecimento internacional conquistado com o 3º lugar no Green Destinations Stories Awards, na categoria “Comunidades Prósperas”, durante a Feira Internacional de Berlim 2025:
“O projeto agregou muito na nossa associação e na comunidade. Hoje, nós somos reconhecidas e valorizadas dentro de casa, pelos nossos esposos, na cidade e até fora do Brasil”
Rotas turísticas autênticas e diversificadas
Cada território desenvolveu roteiros únicos que celebram suas especificidades culturais e ambientais. Em São Cristóvão (SE), a rota “Cidade Mãe de Sergipe” reconta a miscigenação brasileira através do uso do coco, mandioca e açúcar. No litoral sergipano, “Delícias da Terra” valoriza os saberes de mulheres marisqueiras e catadoras de mangaba.
Em Alagoas, “Da Caatinga aos Cânions” celebra a biodiversidade com pratos preparados com ingredientes nativos da caatinga, enquanto “Agricultura Familiar na Serra das Pias”, em Palmeira dos Índios, aproxima visitantes do universo da agroecologia e da jabuticaba. Em Pernambuco, “Riquezas ancestrais e do manguezal” convida os visitantes a mergulhar nos modos de vida de quilombolas e marisqueiras.
Metodologia participativa e rede colaborativa
O diferencial metodológico do projeto está na escuta ativa, com rodas de conversa, oficinas, capacitações, intercâmbios e planejamento coletivo. Essa abordagem participativa resultou na criação da Rede Territórios Saberes e Sabores, que permite às comunidades manter autonomia e executar ações sustentáveis mesmo após o encerramento formal do projeto.
Lydayanne Lilás Nobre, turismóloga e agrônoma que atuou como bolsista no projeto, ressalta a importância da autenticidade territorial:
“A experiência mostrou como os produtos turísticos autênticos, enraizados na realidade de cada localidade, podem gerar impacto econômico com gestão comunitária, inovação social e articulação em rede”.
Conexão com a agenda da COP30
A iniciativa do Paisagens Alimentares dialoga diretamente com as discussões que pautarão a COP30, que ocorrerá em Belém em novembro de 2025. O evento internacional coloca a Amazônia e as comunidades tradicionais no centro do debate sobre desenvolvimento sustentável, reconhecendo o papel fundamental dos povos originários, quilombolas e comunidades rurais na preservação da biodiversidade.
Iniciativas similares estão se estruturando na região Norte em preparação para a conferência climática. O turismo sustentável no Pará se apresenta como uma oportunidade de alavancar o desenvolvimento econômico e social, especialmente com a chegada da COP 30, segundo o Sebrae. A COP 30 é uma oportunidade única para Belém se consolidar como um destino global de turismo sustentável, apontam estimativas governamentais que preveem investimentos de R$ 4 bilhões no estado.
A Associação de Sociobioeconomia (ASSOBIO) também prepara ações para mostrar “a potência de todo conhecimento indígena que temos aqui na região” durante a COP30, fortalecendo a cultura e ancestralidade indígena através da sociobioeconomia amazônica.
Alinhamento estratégico e replicabilidade
O projeto está alinhado às estratégias da Embrapa (Visão 2030), Estratégia País Brasil 2024-2027, ao Programa de Regionalização do Turismo (PRT), ao Plano Nacional de Turismo e ao Plano Plurianual 2024-2027. As ações contribuem diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados à erradicação da pobreza, igualdade de gênero e desenvolvimento sustentável.
Aluísio Goulart, analista de inovação da Embrapa e coordenador do projeto, explica a multifuncionalidade das paisagens alimentares:
“Além de produzir alimentos, elas constroem vínculos sociais, preservam a natureza e resguardam o patrimônio cultural de comunidades guardiãs da sociobiodiversidade”.
Perspectivas de expansão
O modelo desenvolvido tem potencial para inspirar outras iniciativas no país e contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas à multifuncionalidade da agricultura, ao turismo sustentável e à valorização de territórios vulneráveis. A metodologia e os resultados demonstram o potencial transformador da conexão entre alimento, cultura, turismo e território.
Denise Levy, especialista ambiental sênior do BID, vislumbra a expansão da metodologia para outros territórios:
“Ações como as desenvolvidas no projeto têm potencial para serem aplicadas em outras regiões do Brasil e da América Latina para que possam florescer a partir de suas próprias paisagens alimentares”
A Comunidade Quilombola Engenho Siqueira, em Rio Formoso (PE), já demonstra os frutos dessa articulação em rede, conseguindo participar de editais e acessar recursos voltados para o turismo de base comunitária.
Rodney da Silva, presidente da Associação da Comunidade Quilombola, celebra a transformação proporcionada pela iniciativa:
“Participar do projeto foi um divisor de águas. A gente vinha iniciando com ações de turismo de base comunitária e o Paisagens Alimentares abriu as nossas mentes”