A fome mundial não é um problema de produção, mas de vontade política. Esta é a realidade cruel que emerge quando analisamos o atual cenário global da segurança alimentar
Enquanto 343 milhões de pessoas enfrentam níveis agudos de insegurança alimentar mundial, incluindo 1,9 milhão em fome catastrófica à beira da fome, milhões de toneladas de alimentos destinados a salvar vidas estão literalmente apodrecendo em armazéns ao redor do mundo.
Isto é insano e muito cruel.
O escândalo dos armazéns cheios
A recente reportagem da revista Wired, de autoria de Kate Knibbs, trouxe à tona uma das faces mais perversas da inação governamental no combate à fome. Rações alimentares que poderiam suprir 3,5 milhões de pessoas por um mês estão apodrecendo em armazéns ao redor do mundo devido a cortes na ajuda humanitária americana. O valor desperdiçado é astronômico: US$ 489 milhões em alimentos estão em risco de deterioração, distribuídos em quatro armazéns governamentais americanos.
Os alimentos, avaliados em US$ 98 milhões, eram destinados para distribuição de emergência em regiões assoladas pela fome, incluindo Gaza, Sudão e República Democrática do Congo. A maioria acabará em incineradores ou como ração animal – um desperdício criminoso em um mundo onde crianças morrem de desnutrição.
O colapso do sistema RUTF
Particularmente grave é a situação dos Alimentos Terapêuticos Prontos para Uso (RUTF, na sigla em inglês), fundamentais para tratar a desnutrição aguda severa. Com o financiamento nutricional da USAID pausado, fabricantes relatam que o sistema destinado a prevenir mortes infantis por desnutrição severa está paralisando. A empresa Edesia, que produz alimentos terapêuticos para 65 países, opera a apenas 40% da capacidade e seus armazéns estão se enchendo com produtos que não podem ser enviados.
É importante lembrar que o RUTF é um dos tratamentos mais eficazes para a desnutrição severa, com 92% de taxa de sucesso na cura da desnutrição aguda severa em apenas oito semanas. Cada dia de atraso significa vidas perdidas que poderiam ser salvas.
A responsabilidade compartilhada
Esta crise expõe a fragilidade de um sistema que depende excessivamente de decisões políticas de curto prazo. Governos, empresas e organizações internacionais poderiam ter feito melhor em criar mecanismos resilientes que garantam a continuidade da ajuda humanitária independente de mudanças políticas ou econômicas.
A inação não é apenas governamental. O setor privado e a sociedade civil também precisam ser questionados sobre sua responsabilidade no combate à fome. Onde estão as iniciativas corporativas robustas? Por que organizações internacionais não conseguem criar fundos de emergência que garantam continuidade operacional?
Certamente existem boas iniciativas e intenções em todo o ecossistema de alimentação. Jack Ma, fundador do Alibaba, já dizia em evento da empresa em 2017 ser inconcebível a fome no mundo com tanta produção de alimentos. Na visão dele e com base em sua experiência profissional, logísticas ágeis são parte da solução e devem levar um prato de comida a qualquer ser humano com fome no mundo em até 48 horas.
No entanto, somadas à questão logística, diversos gargalos devem ser resolvidos na cadeia alimentar: perdas desde o campo até o pós-consumo, aumento de eficiência produtiva, questões climáticas, investimentos, financiamentos, entre outros.
Luzes na escuridão: iniciativas que funcionam
Apesar deste cenário sombrio, existem exemplos inspiradores de como a determinação pode vencer a burocracia. O Food Forum News tem documentado extensivamente essas iniciativas transformadoras:
- Inovações Tecnológicas: Empresas como a própria Edesia desenvolveram fórmulas de RUTF mais eficazes e baratas, revolucionando o tratamento da desnutrição infantil quando conseguem operar sem interrupções políticas.
- Parcerias Público-Privadas: Programas como o da Nestlé em parceria com organizações internacionais têm criado cadeias de suprimento resilientes que não dependem exclusivamente de financiamento governamental.
- Agricultura Regenerativa: Iniciativas na África Subsaariana mostram como pequenos agricultores podem aumentar a produtividade enquanto restauram ecossistemas, criando segurança alimentar sustentável a longo prazo.
- Tecnologia Blockchain: Projetos piloto do Programa Mundial de Alimentos usam blockchain para garantir que a ajuda chegue diretamente aos necessitados, reduzindo corrupção e desperdício.
O caminho a seguir
A fome mundial é um problema solucionável. Temos a tecnologia, o conhecimento e os recursos. O que falta é a vontade política sustentada e a pressão social necessária para transformar recursos em ação efetiva.
É inaceitável que em 2025, em um mundo de abundância tecnológica e produtiva, ainda permitamos que milhões morram de fome enquanto toneladas de alimentos apodrecem em armazéns. Esta é uma falha moral coletiva que exige resposta urgente de todos os setores da sociedade.
O Food Forum News continuará monitorando e divulgando tanto os fracassos quanto os sucessos no combate à fome mundial. Porque a inação não é uma opção quando vidas estão em jogo.
O Food Forum News tem publicado regularmente sobre iniciativas inovadoras no combate à fome mundial. Acompanhe nossas reportagens para conhecer projetos que estão fazendo a diferença e cobrar maior responsabilidade de governos e empresas.
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