Audax Capital projeta operação bilionária em crédito estruturado fora do eixo Rio–São Paulo
O mercado de crédito brasileiro entrou em 2026 sob forte reorganização estrutural. Com a taxa Selic mantida em 15% ao ano, o crédito bancário tradicional perdeu tração, especialmente nas operações de maior risco e prazo mais longo.
Dados do Banco Central mostram que o crescimento do crédito livre para empresas ficou abaixo de 5% em termos reais ao longo de 2025, refletindo maior seletividade das instituições financeiras. Em contrapartida, o crédito privado estruturado ganhou espaço como principal alternativa de financiamento da economia real.
O patrimônio líquido dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) chegou perto dos R$ 800 bilhões no último ano, com crescimento anual próximo de 15%.Esse avanço consolida o segmento como um dos vetores mais dinâmicos do mercado financeiro brasileiro.
A nova geografia do capital no Brasil
Esse avanço não ocorre de forma homogênea no território nacional e tem alterado a distribuição do capital pelo país.
Em 2025, os setores que lideraram o crescimento da economia brasileira estiveram fortemente concentrados fora do eixo Rio–São Paulo. A agropecuária cresceu 7,5% no ano, com o Centro-Oeste respondendo por mais de 45% da produção nacional de grãos.
Cadeias ligadas à logística, armazenagem, indústria de base e serviços corporativos também apresentaram desempenho acima da média. Esse desempenho criou empresas com geração de caixa previsível e demanda recorrente por financiamento estruturado — ambiente propício à formação de novos polos regionais de crédito.
R$ 3,1 bilhões e o significado de um número
É nesse contexto que uma empresa do Centro-Oeste projeta operacionalizar R$ 3,1 bilhões em crédito em 2026. O valor sintetiza uma transformação estrutural do mercado financeiro que vai além de um resultado isolado.
Para Pedro da Matta, CEO da Audax Capital, o dado não é pontual, mas reflexo direto do novo desenho do crédito no país. Sobre a retração bancária e o avanço do crédito privado, ele avalia:
“Com a retração do crédito bancário, muitas empresas que nunca haviam recorrido a estruturas alternativas passaram a buscar crédito privado. O que define essas operações não é o CEP, mas a qualidade do ativo, o fluxo de caixa e o lastro real por trás do recebível.”
Tecnologia como fator estruturante da descentralização
A digitalização do sistema financeiro foi um catalisador decisivo para esse deslocamento do capital. Mais de 90% das transações financeiras no Brasil já são realizadas por canais digitais, segundo dados do setor. Esse índice reduziu drasticamente a necessidade de presença física para análise, originação e monitoramento das operações de crédito.
Da Matta aponta a transformação digital como elemento central para eliminar as barreiras geográficas históricas do mercado financeiro:
“A digitalização eliminou a barreira geográfica. Hoje, a estruturação do crédito acontece de forma integrada, com dados, governança e controle de risco, independentemente de o operador estar em São Paulo ou no Centro-Oeste.”
Consolidação regional e perspectivas para os próximos anos
Na avaliação do executivo, a tendência de consolidação dos FIDCs em polos regionais deve se intensificar ao longo dos próximos anos. A combinação entre crescimento econômico acelerado fora das capitais tradicionais e o aperfeiçoamento dos instrumentos de controle de risco cria condições para que novos centros financeiros regionais ganhem relevância sistêmica.
Ao explicar por que o Centro-Oeste passou a concentrar volumes bilionários em crédito estruturado, Da Matta conclui:
“A combinação entre crescimento acelerado, controle de risco e proximidade com cadeias produtivas fora do eixo tradicional ajuda a explicar por que empresas do Centro-Oeste passaram a concentrar volumes bilionários em crédito estruturado, desafiando a hegemonia histórica das capitais no mercado financeiro.”
O avanço de R$ 3,1 bilhões em crédito fora do eixo tradicional se torna, assim, um indicador concreto de uma nova geografia financeira em formação no Brasil.
Mais do que um resultado corporativo, o movimento da Audax Capital aponta para uma reconfiguração estrutural do mercado de capitais — em que a proximidade com a cadeia produtiva real, a tecnologia e a governança de risco determinam o protagonismo financeiro, não mais o endereço da sede.
