Relatório Food Outlook divulgado pela FAO prevê estoques globais em alta e queda nos preços de commodities alimentares, embora custos de importação atinjam US$ 2,22 trilhões
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou em 13 de novembro de 2025 a edição semestral do relatório Food Outlook, apresentando projeções positivas para a produção global de cereais e análises detalhadas sobre os mercados de alimentos e commodities agrícolas. O documento indica que a produção mundial de cereais deve alcançar 2.990 milhões de toneladas em 2025, representando aumento de 4,4% em relação a 2024 e estabelecendo novo recorde histórico.
O crescimento da produção abrange todos os principais cereais, com destaque para o milho, que registra o maior aumento anual, seguido pelo trigo. Tanto a produção de milho quanto a de arroz devem atingir novos patamares recordes, segundo as estimativas da organização.
Utilização global e recuperação de estoques
A utilização mundial de cereais em 2025/26 está projetada em 2.929 milhões de toneladas, representando crescimento de 51,9 milhões de toneladas ou 1,8% em relação ao período anterior. A expansão resulta principalmente da abundância de oferta e dos preços mais baixos praticados no mercado internacional.
O uso para ração animal deve crescer 2,1%, com grandes produtores como Brasil e Estados Unidos direcionando mais milho para alimentação animal. Na Ásia, a forte demanda do setor de aquicultura deve ser atendida por meio de importações de trigo de qualidade para ração. Outros usos de cereais, particularmente milho, também apresentam tendência de crescimento, enquanto o consumo humano de cereais deve aumentar marginalmente, refletindo crescimento populacional e mudanças graduais nos padrões dietéticos.
Com base nas projeções atuais para a produção global de cereais em 2025, os estoques podem aumentar 5,7% em relação aos níveis de abertura, atingindo o recorde histórico de 916,3 milhões de toneladas. Os inventários globais de milho devem registrar a maior expansão, especialmente na América do Norte, seguidos por trigo e cevada, enquanto os estoques globais de sorgo podem diminuir ligeiramente. Os estoques mundiais de arroz ao término do ano comercial 2025/26 devem crescer 2,2%, alcançando novo pico de 215,4 milhões de toneladas.
Comércio internacional e preços em declínio
O comércio mundial de cereais na temporada 2025/26 deve expandir 3,2%, totalizando 499,5 milhões de toneladas. O comércio de trigo (julho/junho) deve crescer 9,9 milhões de toneladas, ou 5,1% em relação à temporada anterior, impulsionado principalmente pelas importações asiáticas, que devem aumentar 15,6 milhões de toneladas. O comércio global de cereais secundários também deve se expandir em meio a preços de exportação relativamente baixos e maior demanda por proteína animal, embora os volumes comercializados provavelmente permaneçam abaixo do pico de 2023/24. Por outro lado, o comércio global de arroz deve declinar 1,2%, atingindo 61,1 milhões de toneladas em 2026.
Em outubro de 2025, o Índice de Preços de Cereais da FAO registrou média de 103,6 pontos, queda de 9,5% em relação ao mesmo período do ano anterior e 40,3% abaixo do pico alcançado em maio de 2022. O declínio foi liderado pelos preços internacionais do arroz, com o Índice de Preços de Arroz da FAO apresentando redução de 21,7% na comparação anual. Os índices de preços de trigo, milho e sorgo também declinaram, enquanto o índice da cevada permaneceu ligeiramente acima do nível de outubro de 2024.
Óleos vegetais em alta contrastam com queda do açúcar
Maximo Torero, economista-chefe da FAO, explica que a recuperação da produção global de alimentos marca um ponto de virada positivo para a estabilidade do mercado. Ele aponta os desafios:
“Por trás desses números residem riscos persistentes, desde condições climáticas extremas até relações comerciais frágeis, que podem rapidamente remodelar a oferta global e o acesso. Construir resiliência em todo o sistema agroalimentar permanece nosso maior desafio.”
Enquanto os preços de cereais e açúcar apresentam trajetória descendente, o mercado de óleos vegetais segue em direção oposta. O Índice de Preços de Óleos Vegetais da FAO aumentou 11,3% entre maio e outubro de 2025, atingindo 169,4 pontos em outubro, o nível mais alto desde julho de 2022. O aumento reflete cotações mais altas para óleos de palma, canola, soja e girassol, impulsionadas por expectativas de oferta mais restrita e demanda sustentada do setor de biocombustíveis.
Em contraste, o Índice de Preços do Açúcar da FAO caiu 14,0% no mesmo período, atingindo 94,1 pontos em outubro, o nível mais baixo desde dezembro de 2020. A queda foi impulsionada principalmente por expectativas de ampla oferta global de açúcar, com safras recordes previstas no Brasil, juntamente com resultados robustos na Índia e Tailândia.
Conta global de importação de alimentos atinge recorde
A conta global de importação de alimentos está estimada em US$ 2,22 trilhões em 2025, aumento de quase 8% em relação ao ano anterior, marcando novo recorde histórico e o segundo crescimento anual consecutivo após breve declínio em 2023. Embora os preços internacionais de commodities básicas como cereais estejam ligeiramente mais baixos, a forte demanda por produtos de maior valor agregado, apesar dos preços elevados, impulsiona esse aumento antecipado.
Os padrões por grupos de renda variam significativamente: em termos absolutos, o crescimento da conta global de importação de alimentos é impulsionado principalmente por países de alta renda, alimentado pelos custos crescentes de importação de café e cacau. Em contraste, o aumento percentual mais acentuado é observado nos países menos desenvolvidos, onde as despesas com importações de óleos animais e vegetais devem aumentar até 58% em comparação com 2024.
Desagregada por grupos de commodities alimentares, o aumento de 2025 é impulsionado por café, chá, cacau, especiarias e produtos relacionados, cuja importação global deve aumentar 34,5% em relação ao ano anterior, ou US$ 65,2 bilhões – o maior aumento anual em mais de uma década. Esse aumento acentuado reflete preços nominais recordes para esses produtos, impulsionados por disponibilidade global restrita e perspectivas de produção global desfavoráveis no curto prazo.
Perspectivas para carne e laticínios
A produção mundial de carne está prevista para atingir 384 milhões de toneladas (equivalente em peso de carcaça) em 2025, aumento de 1,4% em relação a 2024. O crescimento é impulsionado principalmente por expectativas de maior produção de carne de frango, juntamente com ganhos na carne suína e crescimento modesto na carne ovina, parcialmente compensados por declínio na produção de carne bovina. A produção global de carne bovina deve contrair, refletindo inventários reduzidos de gado, notavelmente no Brasil e nos Estados Unidos, após vários anos de altos níveis de abate provocados por fatores relacionados ao clima e forte demanda global.
O comércio global de carne deve expandir 1,7% em 2025, atingindo 43,0 milhões de toneladas. O crescimento deve ser liderado pela carne bovina, com Austrália expandindo embarques para os Estados Unidos, onde a oferta doméstica permanece limitada, e Brasil aumentando suas vendas para mercados alternativos após tarifas mais altas impostas pelos Estados Unidos.
A produção global de leite em 2025 está prevista para expandir 1,4%, crescimento moderado em relação aos 1,1% registrados em 2024. O aumento reflete principalmente a expansão contínua da produção na Ásia – embora em ritmo mais lento – juntamente com crescimento mais rápido na América Central e do Sul.
O comércio global de laticínios em termos equivalentes de leite deve contrair 1,3% em 2025, refletindo principalmente preços internacionais firmes, que impactaram o poder de compra dos consumidores e pesaram sobre a demanda. Essa contração foi agravada pela depreciação cambial em vários mercados emergentes, enquanto a melhoria da disponibilidade doméstica de leite em países importadores-chave – particularmente Argélia, Egito e Arábia Saudita – e as incertezas contínuas de política comercial limitaram ainda mais a demanda global de importação.
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