O ex-Diretor-Geral da FAO reflete sobre os desafios estruturais da segurança alimentar enfrentados pela América Latina e o Caribe durante sua gestão como Subdiretor-Geral e Representante Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, entre 2006 e 2011
No marco da comemoração dos 80 anos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), conversamos com José Graziano da Silva, que ocupou o cargo de Representante Regional da FAO para a América Latina e o Caribe entre 2006 e 2011 e, posteriormente, foi Diretor-Geral da organização em nível global. Seu protagonismo marcou uma etapa decisiva para a região, na qual o combate à fome passou a ser prioridade política para a maioria dos países.
Nesta entrevista, Graziano reflete sobre os desafios estruturais enfrentados pela região durante sua gestão, o impacto de iniciativas emblemáticas como os Frentes Parlamentares contra a Fome e o programa América Latina e o Caribe Sem Fome 2025, e destaca a evolução da abordagem da FAO rumo a uma compreensão mais profunda da segurança alimentar como um direito humano e uma questão política de primeira ordem. Ele também compartilha lições aprendidas e sua visão sobre o papel da América Latina na origem e no presente da Organização.
Quais foram os principais desafios durante seu período como Representante Regional da FAO para a América Latina e o Caribe?
O grande desafio da América Latina é a desigualdade, que é uma questão estrutural — da propriedade da terra, da distribuição de renda, das diferenças linguísticas, da própria região, mesmo dentro de um mesmo território. Diferenças sociais e econômicas muito, muito grandes — demais.
Outro desafio é que se trata de um continente essencialmente agrícola. É um continente cuja origem histórica está na agricultura, desde o milho no México. Mas pouco se cuidou da distribuição dessa produção. Sempre se incentivou o aumento da produção, sem pensar na sua distribuição.
A FAO veio trazer essa outra dimensão que é tão ou mais importante do que produzir: é a forma como os alimentos são distribuídos. Garantir que as pessoas tenham o que comer é um desafio diferente de apenas produzir alimentos.
Qual considera ter sido o impacto da FAO na América Latina e no Caribe, especialmente durante seu período como Representante Regional?
A grande contribuição da FAO foi trazer essa dimensão da segurança alimentar. O próprio conceito de segurança alimentar e o conceito de sistemas alimentares. E o combate à fome acabou se tornando uma prioridade política para a grande maioria dos países da região. Isso se deu após a alta dos preços de 2007–2008. Foi uma medida de grande coragem política naquele momento.
A maior contribuição da FAO foi promover a cooperação entre os países em torno desse tema.
Como o senhor vê o papel da região na criação da FAO?
A FAO foi criada em 1945 nos Estados Unidos, em Hot Springs, durante uma conferência. E havia ali dois grupos: um queria uma organização voltada para o progresso da agricultura. Vale lembrar que foi a primeira organização internacional criada após a guerra — inclusive antes da ONU. As pessoas queriam compartilhar o progresso tecnológico da agricultura norte-americana, que era o único país, na época, com excedentes de produção agrícola. Todos os demais países tinham déficit de produção.
O outro grupo era liderado por quem viria a ser o primeiro Diretor-Geral da FAO, Sir John Boyd Orr, que defendia que o combate à fome deveria ser a prioridade da Organização. Não bastava produzir, era preciso garantir que o pão chegasse a todos. E essa ideia prevaleceu graças ao apoio — e isso é muito interessante — da esposa do presidente dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt, que deu suporte e respaldo político a Boyd Orr. Com seu marido, o presidente Roosevelt, transformou o tema da fome na prioridade política da fundação da FAO.
Isso se manteve por muitos anos. A FAO passou a ser vista como uma agência de assistência técnica à agricultura, voltada à produção, ao cuidado com as variedades de sementes, fertilizantes. O mais recente dentro dessa prioridade foi o combate à fome. E acredito que essa foi uma influência externa à região, vinda da Europa e que chegou à América Latina.
Como o programa Fome Zero do Brasil e a Conferência Internacional sobre Reforma Agrária influenciaram sua gestão?
A influência do programa Fome Zero foi direta. Foi a primeira grande experiência, em nível nacional, de um país com mais de 150 milhões de habitantes à época, com 40% da população em extrema pobreza e um número recorde de pessoas em situação de fome na região. Conseguir reduzir isso a praticamente zero, em um período tão curto, influenciou inclusive a formulação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Não é por acaso que o Objetivo número 2 é “Fome Zero”. Isso vem daí.
Isso impactou toda a América Latina, ao mostrar que é possível erradicar a fome se houver vontade política e determinação de um país.
Sobre a Conferência de Reforma Agrária, ela foi realizada num momento de resgatar esse tema. A reforma agrária havia tido seu auge nos anos 1960, com a política do presidente Kennedy para evitar “outras Cubas” na região, por meio da melhoria na distribuição da terra, entre outros.
Em 2006, em Porto Alegre, no Brasil, retomou-se essa ideia de desenvolvimento territorial como necessário para erradicar a fome e a miséria. Essa, acredito, foi a grande contribuição da ICARRD, e esperamos que ela se repita na Colômbia no próximo ano. Porque, se há algo que falta à América Latina, é impulsionar seu desenvolvimento territorial, como forma de garantir segurança.
Quais lições aprendidas durante sua gestão o senhor considera mais relevantes para transmitir às novas gerações na luta contra a fome?
Acredito que a FAO aprende todos os dias. Hoje em dia está claro que o tema da fome é, sobretudo, uma questão política. Essa é a grande lição. Não se trata de encontrar uma tecnologia de irrigação ou uma sementinha milagrosa que vá acabar com a fome.
Há uma história bastante conhecida. Nos anos 1970, a FAO foi buscar no México o cientista Norman Borlaug, que fazia experimentos com milho, sorgo e arroz. Levaram ele para a Índia, para replicar a experiência com ótimos resultados — resultados que evitaram uma grande fome na Índia no início daquela década.
Mas essa forma de combater a fome, baseada em tecnologia, precisava de apoio político. Se essas variedades e seus produtos não fossem disseminados e implementados, teriam pouco impacto. Foi isso que a FAO aprendeu: era preciso trabalhar a política acima de tudo.
É nessa perspectiva que estamos caminhando agora. E, diante dos momentos difíceis que o mundo enfrenta, trabalhar a dimensão política com os países membros é o mais importante.
Qual foi o programa mais significativo realizado durante sua gestão à frente da FAO para a América Latina e o Caribe?
Um dos programas mais importantes da FAO Regional para a América Latina foi o impulso aos Frentes Parlamentares contra a Fome. Esse modelo hoje é replicado em diversas partes do mundo. Incluir não só o Poder Executivo e os governos, mas também os parlamentares na luta contra a fome, é fundamental. Especialmente porque, para garantir que essa luta seja permanente, precisamos de leis. Precisamos, inclusive, incorporar o direito humano à alimentação adequada nas Constituições de cada país.
E não foi só esse programa. A região também foi pioneira ao implementar o programa América Latina Sem Fome 2025. Deveríamos, neste ano em que celebramos os 80 anos da FAO, estar celebrando o fim da fome na região. Infelizmente, não é isso que os dados mostram. Ainda há muita fome. Em alguns países, houve retrocessos — e isso se deve, sobretudo, à falta de implementação de políticas ou ao enfraquecimento do compromisso dos países em combater a fome.
Cada vez mais, fica evidente que a segurança alimentar e a alimentação são direitos humanos. Não é qualquer coisa — é um direito fundamental à vida. E acredito que é para isso que estamos aqui.









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