Por Paulo Pianez *
O debate sobre os limites do nosso sistema alimentar é urgente. E precisa ser conduzido com equilíbrio, evidência e responsabilidade. O artigo “As ameaças da economia do excesso”, de Ricardo Abramovay, publicado no Valor em 17 de julho de 2025, é uma contribuição brilhante a esse debate. O professor Abramovay denuncia com precisão os riscos de um modelo pautado no desperdício, na hiperdisponibilidade e na dissociação entre produção e bem-estar coletivo e propõe repensar a alimentação dentro de um novo pacto civilizatório.
A partir dessa reflexão, olhando para a produção animal, estou convencido de que a solução passa por compreender a complexidade dessa cadeia e reinventá-la, algo que, felizmente, já está acontecendo. Acompanho iniciativas concretas que alinham produtividade à regeneração ambiental, ética ao manejo, rastreabilidade à transparência. Sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de pastagens, protocolos de bem-estar animal e práticas regenerativas já não são exceção. São avanços reais.
A produção animal não precisa ser problema; e sim solução. A FAO reconhece o papel fundamental dessa atividade na segurança alimentar global, especialmente ao prover proteína de alto valor nutricional em contextos vulneráveis. Reforça também que práticas sustentáveis são viáveis e escaláveis. O desafio: acelerar essa transição, com políticas públicas, instrumentos financeiros adequados, assistência técnica e compromisso empresarial.
A ética é inegociável. Temple Grandin demonstra que o bem‑estar animal pode e deve ser plenamente integrado ao sistema produtivo, com ganhos morais e operacionais. Respeitar cada animal, garantir transparência em cada processo e comprometer-se com a vida em cada elo da cadeia é o mínimo esperado de uma produção responsável.
Não se trata de defender cegamente a cadeia produtiva, mas de olhar para o futuro com realismo, ciência e equilíbrio. Construir sistemas alimentares mais moderados, justos e conectados à realidade das pessoas, dos territórios e do planeta.
A crítica de Abramovay é essencial e soma-se, não se opõe, à urgência de mostrar que há soluções em curso. Que já existem caminhos. Que produzir com ética, preservar com rigor e alimentar com responsabilidade não é utopia, mas uma escolha possível. E urgente.
* Paulo Pianez é Diretor Global de Sustentabilidade da Marfrig









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