relatório EAT-Lancet alimentação mundial

Segunda edição da pesquisa EAT-Lancet traça panorama de transformação necessária nos sistemas agrícolas e alimentares globais para limitar aquecimento a 1,5°C

A segunda edição do estudo EAT-Lancet, publicada recentemente, estabelece um roteiro ambicioso para a transformação dos sistemas agrícolas e alimentares globais. Segundo Matthieu Vincent, co-fundador do DigitalFoodLab, frequentemente comparado ao IPCC para agricultura e alimentos, o documento vai além das metas climáticas amplas e detalha mudanças necessárias tanto na cadeia produtiva quanto nos hábitos alimentares da população.

Três desafios simultâneos do sistema alimentar

As recomendações do EAT-Lancet buscam endereçar simultaneamente três desafios críticos do sistema alimentar atual: os danos ambientais causados pela produção de alimentos — que representa 30% das emissões globais atuais — as injustiças criadas globalmente entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, e os crescentes problemas de saúde relacionados à alimentação.

Segundo dados apresentados no estudo, menos de 1% da população mundial vive em países com sistemas alimentares “seguros e justos”, que combinam fonte confiável de alimentos com dieta saudável que não ultrapassa os limites planetários da Terra.

A Dieta de Saúde Planetária em números

A Dieta de Saúde Planetária (PHD, na sigla em inglês) recomendada leva em conta todos esses elementos e sofreu poucas alterações desde o relatório anterior de 2019. A versão atual é ligeiramente mais restritiva, com 2.400 kcal contra 2.500 kcal em 2019.

Trata-se essencialmente de uma dieta flexitariana com quantidades limitadas de alimentos de origem animal: uma porção de laticínios por dia, uma porção de carne por semana e alguns ovos semanalmente. Uma das principais críticas ao estudo é justamente essa tabela única de recomendações, considerada por muitos excessivamente restritiva.

A proposta deve ser compreendida como uma média adaptável a diferentes culturas. No entanto, é inegável que requer uma mudança significativa dos padrões atuais. A comparação entre as dietas correntes e a recomendada revela que, mais do que comer diferente, trata-se de comer muito menos. Alguns países, como o Japão, já estão bastante alinhados com a PHD, enquanto outros, notadamente no Ocidente, simplesmente consomem em excesso em todas as categorias.

Benefícios tangíveis da transição alimentar

Além das consequências ambientais de não manter o aquecimento abaixo de 1,5°C, a PHD também traz benefícios concretos: poderia evitar até 15 milhões de mortes prematuras por ano e gerar US$ 5 trilhões em economias anuais contra custos de implementação de US$ 200 a 500 bilhões.

Desafios na implementação global

O ponto fraco do estudo EAT-Lancet reside na implementação: embora forneça um panorama claro da situação atual e do destino desejado, não oferece instruções precisas sobre como alcançá-lo. Comparada à transição energética, a transição alimentar equivalente parece muito mais difícil.

Além de uma mudança mais rápida para a agricultura regenerativa, requer cooperação internacional em questões como gestão pesqueira e investimentos robustos em agricultura sustentável nas economias em desenvolvimento.

Os países deveriam aceitar tornar-se cada vez mais interdependentes para especializar-se nas culturas e produções mais adequadas às suas localidades. Também deveriam engajar-se em uma redução voluntária de cerca de 75% na produção de carne vermelha — que deveria ser ainda mais acentuada nas economias desenvolvidas, onde o consumo de carne e laticínios precisaria restringir-se para alinhar com a PHD.

Estima-se que essa dieta custaria cerca de US$ 2,80 por dia, tornando-a inacessível para 1,6 bilhão de pessoas globalmente, o que torna indispensáveis grandes transferências financeiras.

O papel da inovação na transição alimentar

No contexto político global atual, essa combinação de cooperação global e incentivos locais — através de ferramentas como tributação sobre carne vermelha nas economias desenvolvidas para incentivar consumidores em direção à PHD — parece altamente otimista. É nesse ponto que a inovação deveria desempenhar papel fundamental.

Através da inovação disruptiva, seria possível alcançar uma dieta com impacto ambiental e de saúde similar sem perturbar tanto os comportamentos culturais: no lado agrícola, o desenvolvimento de culturas altamente produtivas e mais resistentes diminuirá a necessidade de fertilizantes à base de nitrogênio; no meio da cadeia, novos ingredientes sustentáveis, incluindo proteínas alternativas — de plant-based a carne cultivada — deveriam trazer benefícios significativos.

Estratégia PHD mais AgriFood Tech

A análise do DigitalFoodLab, consultoria especializada em inovação para agricultura e alimentos, sugere que não é realista um cenário onde coletivamente conseguiremos reduzir nosso consumo alimentar significativamente o suficiente para ter impacto climático, excluindo eventos adversos extremos.

A proposta defendida é uma dieta “PHD + AgriFoodTech”, onde parte da alimentação (equivalente à PHD) viria de fontes alimentares tradicionais, e outra parte de novas fontes tecnológicas.

Segundo Matthieu Vincent, cofundador do DigitalFoodLab, para líderes e inovadores do setor agroalimentar, a PHD fornece uma estrutura que deveria ser usada para avaliar portfólios e estratégias.

“Dependendo do quão alinhados estão com a dieta recomendada, isso deveria criar um imperativo para inovar em sustentabilidade, adaptar seus portfólios e garantir suas futuras cadeias de suprimentos”, analisa Vincent.


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1 Comentário
  1. […] BioeEstudo EAT-Lancet propõe dieta planetária desafiadora para alinhamento com Acordo de Paris […]

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