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Executivos defendem diversificação de mercados e maior articulação institucional para manter a competitividade do agronegócio nacional e a liderança global do setor

A manutenção da competitividade do agronegócio brasileiro depende de investimentos contínuos em inovação, formação de parcerias estratégicas e maior articulação institucional. A avaliação foi consenso entre os debatedores do painel “Alimentos, Energia e Inovação” durante o 24º Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado pela ABAG em parceria com a B3.

Preparação para desafios globais

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, presidente da ABAG, avaliou que as perspectivas globais para a próxima década são de grande complexidade, com uma nova ordem mundial, marcada pelo enfraquecimento do multilaterialismo e fortalecimento do protecionismo e unilaterialismo.

“A geopolítica está no centro das decisões globais e as recentes tarifas refletem esse processo de reposicionamento estratégico dos Estados Unidos. Assim, é urgente o diálogo e a criação de alianças para assegurar o equilíbrio”, disse.

Marcio Santos, CEO da Bayer Brasil, questionou se o país estaria preparado para atender o mercado global caso o cenário externo se normalize.

“Se o cenário externo se resolvesse hoje, nós estaríamos preparados para atender o mercado global? Será que o que construímos ao longo dessas décadas, ainda estamos mantendo?”, provocou.

Para Santos, a COP30 representa uma oportunidade marco para reposicionar o país globalmente.

“Esse evento pode abrir caminhos para dialogar com nossos e novos parceiros. Falta ambiente institucional para sermos mais competitivos”, pontuou, alertando para entraves internos.

Diplomacia focada em soluções

Alfredo Miguel, diretor LATAM da John Deere, enfatizou o papel da diplomacia presente sempre, mas focada na realidade e desafios. Segundo ele, o setor privado precisará se reorganizar em termos de custos, cadeia de fornecedores e exportação para manter competitividade.

“É importante que o governo tenha um plano de curto e médio prazo para seguirmos competitivos juntos. O agro precisa liderar o Brasil com ciência, tecnologia e inovação para continuarmos nessa crescente expansão do setor”, afirmou Miguel.

Diversificação como estratégia de resiliência

A diversificação é a base da resiliência empresarial, segundo Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS.

“Reconhecemos que o ciclo das commodities existe, e que os problemas geopolíticos e econômicos vêm e vão. Manter-se diversificado usando a inovação é a saída para manter a empresa crescendo em momentos difíceis”, explicou.

Tomazoni defendeu a criação de uma agência de comércio exterior (trade) como instrumento estratégico nacional, que poderia ser “a ponte para projetar o Brasil, não só o produto, mas o jeito e a forma de fazer e a tecnologia tropical de produção brasileira”.

Dependência chinesa preocupa mercado

Larissa Wachholz, Senior Fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), alertou para o desconforto crescente da China com a dependência de exportações do Brasil e dos EUA. Segundo ela, os chineses já estão em busca ativa de diversificação de fornecedores.

A especialista defendeu uma abordagem mais pragmática do Brasil nas parcerias internacionais, sem alinhamentos automáticos.

“Precisamos pensar em nossas dependências como país — seja em fertilizantes ou outros insumos — e nos beneficiar da inovação e diversidade dos parceiros, sem privilegiar um ou outro”, analisou.

Impactos das tarifas americanas

Durante discussões sobre os impactos do “tarifaço” americano, Francisco Turra destacou que o Brasil possui 159 milhões de hectares em pastagens, sendo quase 100 milhões com algum nível de degradação, todos passíveis de conversão para sistemas integrados.

Segundo Turra, a posição brasileira no mercado internacional exige negociação e diplomacia:

“Quando alguém define uma taxação de 10 a 15%, temos como administrar e distribuir o valor, absorvendo no negócio. Já com 50%, o agro fica sem bases para negociação”.

O Brasil tem ainda enorme potencial para crescer em produtividade na produção agropecuária, sempre adotando práticas sustentáveis, sem a necessidade de ampliar a produção em áreas protegidas. Por diversas vezes, o rigor do código florestal nacional na produção agropecuária foi destacado como sendo um dos mais rigorosos do mundo.

“Todos os 159 milhões de hectares podem ser convertidos para integração lavoura, pecuária floresta, plantando soja ou uma leguminosa qualquer, aumentando a renda do produtor, sem tirar uma árvore sequer”, explicou Turra.

Caio Carvalho explicou que o país perdeu a janela de oportunidade de se posicionar melhor no mercado internacional no momento da fixação das taxas norte-americanas.

Novos mercados em ascensão

A busca por novos mercados ganhou destaque nas discussões, especialmente no Oriente Médio. Como mencionado em cobertura anterior do Food Forum News sobre eventos do agronegócio, a diversificação de mercados é tema recorrente em grandes encontros do setor.

“Os Emirados Árabes não apenas estão interessados, mas estão investindo no Brasil. Fundos de investimento, inclusive financeiros, com grandes investimentos no agronegócio brasileiro”, destacou Luiz Carlos Carvalho, da ABAG.

Desafios estruturais

Com tarifas de até 50% impostas pelos Estados Unidos, setores como máquinas, componentes, móveis e calçados enfrentam cenário de inviabilidade comercial. “Não existe produto que suporte essa margem”, alertaram os debatedores.

O café foi citado como exemplo de dependência mútua: os Estados Unidos consomem 24 milhões de sacas, sendo o café brasileiro base fundamental do blend americano. Os norte-americanos certamente sentirão o impacto da tarifa de 50% na importação do café, que terá que ser repassado ao consumidor.

Já em relação à soja brasileira, as atuais dificuldades estruturais e conjunturais nos Estados Unidos para ampliar a produção do grão, não devem permitir a ampliação da produção a curto prazo. O uso das terras já definido para outras culturas, restrições climáticas e de acesso à irrigação, são grandes limitações para que o país consiga ocupar o espaço brasileiro na oferta global da commodity.

Investimentos no agro em expansão

“O mercado de capitais vem avançando nos últimos cincos anos e se tornou uma alternativa. Hoje, o Fiagro e o CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) representam cerca de 3% do mercado de capitais, com espaço para crescer”, afirmou Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3.

O executivo acrescentou que grande parte do desenvolvimento do mercado de capitais vem dos estímulos que foram criados. Nesse sentido, a B3 está trabalhando em novas iniciativas financeiras.

“Queremos disponibilizar ferramentas para ajudar no desenvolvimento do mercado de capitais e faço um chamado frente a questão da precificação, ajustes de contrato para desenvolver a infraestrutura da cadeia e agregar valor ao mercado brasileiro”, completou.

Um dos instrumentos fundamentais avaliados pelos debatedores foi o Fiagro, com 650 mil investidores e patrimônio líquido de R$ 44 bilhões.

“O Fiagro chegou para ajudar e potencializar o mercado de ativos da securitização. Há espaço para crescimento desde que haja dados coerentes, conhecimento educacional para corroborar a tomada de decisão dos investidores”, destacou Flavia Palacios, diretora da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA).

A fundamental contribuição do cooperativismo foi lembrada por Raphael Silva de Santana, gerente Nacional de Agronegócios do SICOOB:

“O protagonismo é do produtor e cabe ao cooperativismo de crédito estar presente em todas as praças. Acreditamos que o cooperativismo irá ajudar ao mercado de capitais acessar este público”, ressaltou Raphael.


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2 Comentários
  1. […] foi apontado durante o Congresso ABAG e relatado em matéria do Food Forum News, o mercado internacional deve considerar as limitações para o crescimento na produção de soja […]

  2. […] Investimento e inovação definem competitividade do agronegócio brasileiro na próxima década […]

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