Por Sérgio Pinto *
O café brasileiro é mais que um produto: é aroma que atravessa todos os oceanos, suor de milhares de famílias que acordam antes do sol, memória líquida nas xícaras do mundo. Agora, ele virou alvo.
Como todo mundo sabe, literalmente, os Estados Unidos — maior consumidor mundial da bebida — anunciaram sua tal tarifa de 50% sobre todo o café brasileiro. São 8 milhões de sacas por ano que hoje alimentam cafeterias, escritórios e lares americanos, agora sob ameaça de encarecimento e escassez. É o mesmo que consumir toda produção da a Etiopia. Por questões sanitárias, climáticas ou de preço. Mas por motivações políticas travestidas de urgência comercia
O impacto? Nos EUA, o café pode deixar de ser aquele companheiro acessível e se tornar luxo.
É ridículo.
Dados do Global Times indicam que cada dólar gasto com importações de café gera US $43 em atividade econômica nos EUA, impactando 2,2 milhões de empregos e cerca de 1,2% do PIB americano.
No Brasil, o risco é real para pequenos produtores, especialmente os familiares, que sustentam cerca de 70% da produção nacional. E o real? Desvalorizado, os insumos sobem, e a pressão no campo só cresce.
Podemos ampliar a presença na Europa, Ásia e Oriente Médio, mercados que valorizam qualidade e rastreabilidade, mas vai demorar.
Podemos usar a inovação brasileira — da genética à agricultura regenerativa — para posicionar nosso café como ingrediente estratégico da transição alimentar global. Mas vai demorar.
Podemos, principalmente, construir um pacto interno, fortalecendo cooperativas, agregando valor à origem, diversificando usos e protegendo quem planta, cuida e colhe. Mas vai demorar.
Por hora, o setor público e as entidades exportadoras precisam pressionar diplomaticamente por isenções ou salvaguardas, especialmente para contratos já firmados. A retórica da “emergência nacional” usada pelos EUA é frágil e contestável no âmbito da OMC e de acordos bilaterais. O café, afinal, sempre foi símbolo de conexão, não de conflito.
Com os EUA fora da jogada (por ora), países da Europa, Oriente Médio e Ásia se tornam prioritários. Estes mercados valorizam rastreabilidade, sustentabilidade e qualidade — três atributos em que o café brasileiro pode e deve brilhar. Algumas cooperativas já estão reorientando parte da produção para esses destinos, aproveitando inclusive acordos com a União Europeia.
E, com mais café disponível, há chance de estimular o consumo interno e a agroindustrialização local: cafés especiais, ingredientes derivados (como extratos, aromas naturais, compostos bioativos), aplicações em cosméticos, bebidas e até alimentos funcionais, como fazemos na Cellva Ingredients. A indústria criativa do café pode virar um motor de valor adicionado.
Se os EUA quiserem pagar mais caro por decisões unilaterais, que o façam. O mundo tem sede do nosso sabor — e o Brasil tem competência para liderar com propósito.
Que a xícara de café seja, como sempre foi, símbolo de encontro, não de separação.








