A fragmentação geopolítica está redesenhando os fluxos de comércio global. A busca de empresas e governos por resiliência em vez de apenas eficiência abriu espaço para um novo mapa de cadeias de suprimentos produtivas.
Nesse tabuleiro, o Brasil surge como candidato natural, com todos os desafios existentes para transformar vantagens potenciais em estratégia de valor percebido.
Segundo o FMI, a economia global já vive um processo de “slowbalisation” (tendência de desaceleração da globalização): o comércio mundial cresce hoje pouco mais da metade do ritmo da década de 2000. O que parecia ser uma globalização irreversível passou a ser redesenhado em blocos regionais, em torno de segurança alimentar, energética e tecnológica.
Nesse cenário, países com abundância de recursos estratégicos e segurança política relativa ganharam relevância. E o Brasil tem trunfos inegáveis:
- É o 3º maior destino de investimentos em energia renovável no mundo (BloombergNEF, 2024).
- Responde por 10% das exportações globais de alimentos, sendo o maior fornecedor para a China e o Oriente Médio (FAO, 2023).
- Possui a maior biodiversidade do planeta e liderança em biocombustíveis.
O que isso significa na prática?
Não é apenas uma narrativa positiva: é uma janela histórica. Quando os EUA transferem produção para o México via nearshoring (países geograficamente próximos), pro além das restrições tributárias, o Brasil precisa se perguntar: qual narrativa estamos oferecendo para atrair Europa e Ásia em busca de segurança alimentar, energética e climática?
Aqui está o ponto central: ter recursos não basta. O diferencial será conectar esses ativos a estratégias de certificação, rastreabilidade, inovação e acordos bilaterais. Em outras palavras, transformar abundância em confiabilidade global.
Três implicações estratégicas para negócios e investimentos:
- Indústria e exportadores: Certificações de baixo carbono e cadeias rastreáveis deixam de ser “opção ESG” e passam a ser condição de acesso a mercados premium.
- Investidores: O Brasil é hoje hedge climático para portfólios globais. Energias renováveis, infraestrutura logística e agritech já concentram fluxos crescentes de capital.
- Executivos globais: O país pode ser elo estratégico em cadeias mais curtas e seguras. Mas exige governança, marcos regulatórios estáveis e diplomacia comercial proativa.
A encruzilhada brasileira
O dilema não é se o Brasil terá espaço – ele já tem. A verdadeira questão é se vamos liderar como plataforma confiável de cadeias críticas ou continuar como fornecedor de baixo valor agregado, sujeito a ciclos de preço de commodities.
A geopolítica abriu a porta. Cabe ao Brasil decidir se atravessa apenas como exportador de recursos ou como estrategista de cadeias globais de alto valor.
Rosana Blasio, conselheira, mentora e executiva em desenvolvimento e expansão de negócios, com mais de 20 anos de experiência em alimentos, varejo e tecnologia. Atua junto a líderes, boards e empresas na construção de estratégias para escalar negócios, aumentar eficiência operacional e impulsionar a transformação digital.
Formada em Administração, com especializações em Tecnologia, Economia Circular e Conselhos pela ESPM, FGV, IBGC e Cambridge. Liderou programas de impactos notáveis em sete países. Foi CEO, conselheira e executiva de M&A, Operações e Sustentabilidade, em empresas como Seara Alimentos, Vigor Laticínios, JBS, Food To Save, Banco Itaú e Pacto Contra a Fome BR.
Como colunista, compartilha análises disruptivas sobre gestão, inovação, expansão sustentável e tendências que direcionam o futuro.
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