Mercado mundial do cacau em colapso abre oportunidades para produtores brasileiros apostarem em práticas regenerativas mesmo com ameaças tarifárias americanas
Há mais de um ano e meio, o mercado global do cacau vive uma crise sem precedentes. Este ingrediente essencial – transformado no doce favorito dos consumidores, o chocolate – tem sido duramente atingido por doenças e eventos climáticos extremos. Culturas perdidas significam desastre não apenas para produtores de cacau, mas para todo o setor chocolateiro.
Agora testemunhamos o impacto da severa volatilidade nos preços e fornecimento de cacau. Algumas marcas repassam custos aos consumidores, outras reformulam receitas, e algumas investem em tecnologia inovadora para cacau.
Grandes corporações adaptam estratégias em meio à escassez
Segundo informações da publicação FoodNavigator, marcas importantes como Nestlé e Pladis tiveram que remover a palavra ‘chocolate’ de alguns produtos, já que o teor de cacau caiu abaixo dos limites legais estabelecidos. A KitKat e fabricante de Aero, Nestlé, desenvolveu uma nova técnica para obter mais chocolate de menos frutos de cacau, enquanto a Mars aposta na tecnologia CRISPR em parceria com a empresa de biotecnologia Pairwise para proteger as culturas de cacau do caos climático através da edição genética.
A estratégia mais radical vem da Barry Callebaut, maior fornecedora mundial de chocolate, que está investindo no desenvolvimento de cacau cultivado em laboratório como forma de reduzir riscos. No entanto, conforme reporta a FoodNavigator, permanece a questão se os clientes da empresa estarão abertos ao cacau baseado em células.
Brasil emerge como protagonista na sustentabilidade cacaueira
Diante deste cenário de crise global, o Brasil se destaca com iniciativas sustentáveis que podem transformar o país em um dos principais fornecedores mundiais de cacau do futuro. A iniciativa teve início em 2012, no município de São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, com o projeto Cacau Mais Sustentável. Hoje o trabalho já beneficia 310 agricultores familiares, com cerca de 1.000 hectares de plantio de cacau em sistemas agroflorestais implantados.
A Dengo, marca brasileira de cafés e chocolates de alta qualidade, ilustra como empresas nacionais lideram a transformação sustentável do setor. Em parceria com a ReSeed, a empresa lançou a iniciativa “Créditos para a Terra”, que mede o carbono estocado nas fazendas de cacau e remunera produtores por seu compromisso ambiental.
Estevan Sartoreli, CEO e cofundador da Dengo Chocolates, destaca:
“Um estudo recente realizado pelo WRI, Instituto Arapyaú e Dengo mostra que um hectare de Cabruca remove quase duas vezes mais CO² da atmosfera do que um hectare convencional”.
Segundo matéria do Food Forum News, a Dengo já integrou 75 agricultores ao programa Farm Fresh Carbon Credit da ReSeed, onde 50% das vendas de créditos de carbono são direcionadas diretamente aos pequenos produtores, 30% destinam-se à assistência técnica rural e 20% cobrem custos operacionais da iniciativa. A empresa destaca que historicamente “a maioria dos pequenos agricultores, responsáveis por 75% do cacau mundial, vive na linha da pobreza”, mas essa parceria pode transformar esse cenário.
O projeto Cacau Floresta, desenvolvido pela The Nature Conservancy, exemplifica como práticas regenerativas podem revolucionar a cacauicultura nacional. O cultivo envolve a preservação da floresta, mantendo a biodiversidade local. A colheita é realizada por comunidades tradicionais, como ribeirinhos, que utilizam métodos sustentáveis. O beneficiamento geralmente ocorre em pequenas unidades familiares, integrando práticas de agroecologia
Políticas públicas fortalecem cadeia produtiva sustentável
No dia 5 de junho de 2024, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei nº 14.877/24 que cria os selos verdes Cacau Cabruca e Cacau Amazônia. A determinação, que tem como objetivo atestar a sustentabilidade da produção nacional, representa um marco regulatório importante.
Segundo a legislação, os selos serão concedidos pelo órgão ambiental federal competente, a partir de solicitação do cacauicultor, com validade de dois anos, podendo ser renovados. O marco legal estabelece que produtores de cacau e cooperativas poderão usar os selos verdes na promoção da produção e dos negócios.
Contudo, passados mais de seis meses da sanção da lei, ainda não há resultados concretos visíveis. A implementação efetiva dos selos depende da regulamentação específica pelo Ministério da Agricultura, que deve estabelecer os critérios técnicos detalhados e os procedimentos operacionais para certificação dos produtores.
O plano é coordenado por meio do MAPA, através da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e CocoaAction Brasil, iniciativa da Fundação Mundial do Cacau (WCF), e converge com a elaboração do Plano de Desenvolvimento Agropecuário da Bahia, demonstrando articulação entre diferentes esferas governamentais e organizações internacionais.
Metas ambiciosas para expansão produtiva
Entre as iniciativas, a CocoaAction já treinou técnicos que prestam assistência a 2.600 produtores no sul da Bahia, e prevê expandir o suporte para 5.000 agricultores em um futuro próximo, evidenciando o compromisso com a transferência de conhecimento e tecnologia.
A estratégia brasileira para o cacau sustentável vai além da preservação ambiental. Ou seja, a produção do cacau sustentável pode aumentar a biodiversidade com o plantio de árvores nativas na região. Dessa forma, acontece, então, a recuperação das áreas utilizadas com pastagens e a redução do desmatamento e do impacto ambiental.
Ameaças tarifárias comprometem exportações para os EUA
Paradoxalmente, no momento em que o Brasil fortalece sua posição como produtor sustentável de cacau, o setor enfrenta sérios desafios no mercado americano. Entre 2020 e 2024, os Estados Unidos responderam, em média, por 18% do valor total exportado de derivados de cacau pelo Brasil. Em 2024, esse valor atingiu US$ 72,7 milhões, com um volume de 8,1 mil toneladas
Entre os setores da agroindústria brasileira mais afetados pelo tarifaço americano, a indústria de processamento de cacau deve amargar perdas de aproximadamente R$ 180 milhões com a medida imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Impactos na cadeia produtiva nacional
As consequências das novas tarifas americanas são pesadas para o setor no Brasil. Conforme análise da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), que representa Barry Callebaut, Cargill e Ofi – empresas responsáveis por aproximadamente 95% do processamento de cacau no Brasil – o impacto sobre a indústria nacional será imediato: a ociosidade média do parque processador, hoje já elevada devido à escassez de amêndoas, poderá saltar para até 37%, comprometendo empregos, investimentos e a manutenção das operações.
O aumento de tarifas de importação nos Estados Unidos representa uma forte ameaça para as exportações brasileiras de cacau e seus derivados, gerando um possível prejuízo de cerca de R$ 180 milhões para o setor. A imposição de uma alíquota de 50% sobre a manteiga de cacau, por exemplo, torna praticamente inviável a continuidade das exportações para o mercado americano.
Oportunidades em meio aos desafios
Apesar das adversidades tarifárias, a forma mais rápida de aumentar a renda do produtor é expandir a produtividade da lavoura. Se agregarmos 150 quilos por hectare à média nacional, por exemplo, teremos um impacto de um bilhão de reais em valor bruto de produção e isso retorna ao campo.
A agricultura regenerativa aplicada ao cacau representa uma alternativa promissora. O FoodNavigator destaca que a agricultura regenerativa pode ser aplicada também a paisagens tropicais, revelando o segredo da vida sob a copa das árvores.
Com preços do cacau despencando após recordes históricos, conforme reporta a publicação, o mercado respira aliviado com a estabilização do custo desta commodity tão procurada. Este cenário cria uma janela de oportunidade para que produtores brasileiros consolidem suas práticas sustentáveis e conquistem novos mercados.
O futuro do cacau mundial pode estar sendo redesenhado no Brasil, onde tradição, inovação e sustentabilidade convergem para criar um modelo de produção que serve tanto ao meio ambiente quanto aos mercados globais em transformação.
