Por José Antônio Dias Lopes *
Em homenagem ao Dia do Brigadeiro, 10 de setembro, transcrevo o capítulo sobre esse doce entrelaçado com a memória gustativa do Brasil, publicado no livro “O País das Bananas” (Companhia Editora Nacional, São Paulo, SP, 2014), de minha autoria.
O DOCINHO MAIS AMADO DO BRASIL
Quem encontrar no caderno de cozinha da avó uma receita de brigadeiro, antigamente conhecido por negrinho, verá que o docinho mais amado do Brasil levava ingredientes de marcas determinadas: Leite Moça, chocolate “dos padres” e manteiga. A recomendação acontecia entre o final das décadas de 1920 e de 1930, período no qual ele foi inventado, até a de 1950, quando popularizou-se nacionalmente.
O primeiro ingrediente prescrito era o Leite Moça, da Nestlé. Suas latinhas começaram a chegar no Brasil a partir de 1890, importadas da Suíça, sede da multinacional. Tinham estampado no rótulo o nome de Milkmaid, que ninguém no país conseguia pronunciar direito. Quando iam às compras, as pessoas pediam “o leite da moça”, porque na embalagem havia a figura de uma vendedora de leite. Em 1921, a Nestlé montou sua primeira fábrica no Brasil, na cidade paulista de Araras. Ali começou a produzir o Leite Moça, adotando o nome dado espontaneamente pelo povo.
A indicação do “chocolate dos padres” referia-se a outro produto, originário de São Paulo. Era fabricado pela Gardano, fundada no estado coincidentemente em 1921. Tratava-se de um chocolate em pó de alta qualidade. Na embalagem, havia um detalhe da tela do pintor toscano Alessandro Sani (1870-1950), retratando dois sorridentes monges católicos. Por isso, os consumidores batizaram o produto de “chocolate dos padres”. Coincidentemente, a multinacional suíça acabou comprando a Gardano em 1957. Mas os monges permaneceram na embalagem do atual Chocolate em Pó Solúvel Nestlé, com a pintura de Sani transformada em desenho. Quanto à manteiga das receitas das vovós, não havia indicação de marca.
No início, o hoje polivalente Leite Moça tinha o mercado concentrado em São Paulo e o consumo restrito. Misturado com água, servia de substituto para o leite fresco, cujo abastecimento revelava-se irregular, especialmente no inverno, ou quando doenças bacterianas atingiam os bovinos, como por exemplo a brucelose, que causa principalmente abortos em vacas e é transmissível para humanos. Entretanto, poucos usavam o Leite Moça na cozinha, ou melhor, na doçaria. O Brasil ainda não havia descoberto de fato o produto nem se transformado no maior mercado mundial de leite condensado, como hoje acontece.
Mas foi naquela época que alguém teve a ideia de criar um docinho misturando o Leite Moça com chocolate em pó – e a marca escolhida, como mostram as receitas das vovós, foi a Gardano, a “dos padres”. Alguém duvida que a invenção ocorreu em São Paulo? Na falta de outra designação, chamaram o docinho de negrinho, pela cor escura do doce e do chocolate granulado que o envolve, lembrando uma carapinha. Os gaúchos até hoje continuam usando o nome antigo.
Pois o negrinho foi promovido a brigadeiro em 1945, quando o militar e político brasileiro Eduardo Gomes (1896-1981) disputou com Eurico Gaspar Dutra a Presidência da República, sendo derrotado nas urnas. Brigadeiro da Aeronáutica (patente mais alta na Força Aérea Brasileira, equivalente a general no Exército), ele ajudou a escrever um capítulo marcante da História do Brasil. Foi um dos líderes do tenentismo, movimento político protagonizado por jovens das Forças Armadas. No dia 5 de julho de 1922, um grupo formado por três oficiais, 15 praças e um civil que aderiu no trajeto, saiu do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, e enfrentou a tropa governamental fortemente armada.
O combate durou 30 minutos. Eduardo Gomes recebeu um tiro de fuzil e tombou ferido. Recuperado, fez carreira brilhante na Aeronáutica. Fundou o Correio Aéreo Nacional e transformou-se em patrono da Força Aérea Brasileira. Em 1950, voltou a disputar a Presidência da República, perdendo novamente a eleição, daquela vez para Getúlio Vargas. “Vote no brigadeiro, que é bonito e é solteiro”, dizia seu slogan eleitoral, que aliás não lhe rendeu os votos necessários. Em compensação, encantou as mulheres.
Afinal, consideravam-no charmoso, bonito e com pinta de galã. Já nenhum dos seus adversários podia ser considerado padrão de beleza. Dutra era homem feio. Getúlio, baixinho e barrigudo. Três versões explicam a razão de Eduardo Gomes ter influenciado o nome do docinho. A primeira sustenta que mulheres do Rio de Janeiro, engajadas em sua campanha, faziam negrinhos, que vendiam com o nome de brigadeiro, em benefício do fundo de campanha. A outra afirma que a carioca Heloísa Nabuco, pertencente à tradicional família carioca, quis homenagear Eduardo Gomes batizando o docinho que inventara com a patente militar do amigo e frequentador de sua casa.
A terceira versão, além de grosseira, é duvidosa. Foi espalhada por seus adversários políticos. Se fosse hoje seria classificada de fake news. Mas no terreno da política, habitualmente regido pelas leis da guerra, a verdade desfruta de pouca ou nenhuma importância. O tiro desferido em Eduardo Gomes na rebelião do Forte de Copacabana teria atingido os seus testículos. Ora, o docinho que ele inspirou não incorpora ovos. Portanto, seu nome seria impulsionado por uma crueldade.
BRIGADEIRO DE LIMÃO-SICILIANO
Rende 30 unidades
Massa
- 2 colheres (sopa) de raspas de chocolate branco
- 1 lata de leite condensado
- 1 colher (sopa) de manteiga sem sal
- Raspas de 2 limões-sicilianos
- Manteiga para untar
Cobertura
- 200 g de raspas de chocolate br
Preparo
- Retire as raspas dos limões com um descascador de frutas cítricas, sem usar a pele branca, que amarga.
- Com um ralador manual, faça raspas de chocolate branco – para a massa (2 colheres) e para a cobertura dos brigadeiros (200 g).
- Em uma panela, coloque o leite condensado, 2 colheres de raspas do chocolate branco, a manteiga e leve ao fogo brando, mexendo sempre, até desgrudar do fundo da panela (aproximadamente 10 minutos).
- Apague o fogo, junte as raspas de limão e misture bem para liberar o óleo essencial da casca (que é o que vai aromatizar os brigadeiros).
- Transfira para um recipiente de louça untado com manteiga.
- Quando esfriar, unte as mãos com manteiga e faça bolinhas de 3 centímetros de diâmetro.
- Cubra os brigadeiros artisticamente, com as raspas de chocolate branco (200 g) que sobraram.
- Sirva-os em forminhas de papel.
Dica: Em época de calor, os brigadeiros se tornam mais refrescantes quando gelados.
(*) Receita da pâtissière Juliana Motter, de São Paulo, SP.
O docinho batizado de brigadeiro (Foto do craque Luiz Henrique Mendes).
*José Antônio Dias Lopes é jornalista e escritor especializado em gastronomia histórica e colaborador do Food Forum News. Entre em contato conosco para projetos editoriais com o autor sobre temas de história da gastronomia.
Texto original publicado no perfil Facebook do autor.








