Tecnologia de fixação biológica de nitrogênio desenvolvida pela Embrapa consolida-se como pilar de sustentabilidade na produção da leguminosa
A parceria de uma década entre a Embrapa Soja e o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) comprova que a adoção de boas práticas de fixação biológica de nitrogênio (FBN) é uma estratégia eficaz para elevar a produtividade da soja. Os dados consolidados ao longo de dez anos de monitoramento em Unidades de Referência Tecnológica mostram ganhos médios de 8,33% quando se utiliza a coinoculação de sementes.
Na safra 2024/2025, foram instaladas 22 Unidades de Referência Tecnológica em lavouras comerciais de 17 municípios paranaenses. Os resultados revelam que a produtividade média de grãos nas áreas coinoculadas alcançou 3.916 quilogramas por hectare, enquanto nas áreas não inoculadas ficou em 3.615 kg/ha. Esses números superam tanto a média estadual de 3.663 kg/ha quanto a média nacional de 3.561 kg/ha, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Como funciona a tecnologia de bioinsumos
A fixação biológica do nitrogênio representa um dos pilares de sustentabilidade no sistema de produção de soja no Brasil. A cultura necessita de aproximadamente 80 quilogramas de nitrogênio para cada tonelada de grãos produzida. A tecnologia permite que essa demanda seja atendida sem o uso de fertilizantes nitrogenados sintéticos, reduzindo custos e impactos ambientais.
O pesquisador André Mateus Prando, da Embrapa Soja, explica que o processo ocorre pela simbiose entre bactérias do gênero Bradyrhizobium e as plantas de soja, formando nódulos radiculares. Nas raízes, as plantas hospedam, protegem e nutrem as bactérias simbiontes. Em troca, as bactérias capturam o nitrogênio atmosférico e, pela ação da enzima nitrogenase, o convertem em compostos nitrogenados que são aproveitados pela planta.
Coinoculação potencializa os resultados
A pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, destaca que a inoculação anual com Bradyrhizobium é essencial mesmo em áreas tradicionais de cultivo. As plantas de soja coinoculadas com Bradyrhizobium e Azospirillum apresentam nodulação mais abundante e precoce, aumentando os ganhos proporcionados pela inoculação.
A partir da safra 2013/2014, a Embrapa passou a recomendar o uso conjunto de uma segunda bactéria no processo denominado coinoculação, que utiliza duas estirpes da espécie Azospirillum brasilense (Ab-V5 e Ab-V6). Essa prática promotora de crescimento em plantas já é empregada em cerca de 35% das áreas cultivadas com soja no Brasil, segundo dados da Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII Bio) e Kynetec de 2024.

Validação em condições reais de produção
Edivan José Possamai, coordenador técnico do projeto Grãos do IDR-Paraná, ressalta que as Unidades de Referência Tecnológica oferecem um panorama realista da safra por sua diversidade geográfica. Os locais apresentam diferentes tipos de solo, clima, sistemas de cultivo, sucessão a diversas culturas e níveis de tecnologia empregados pelos produtores.
Prando e Possamai enfatizam que os resultados obtidos ano após ano confirmam que o uso adequado da inoculação e coinoculação aumenta a produtividade da soja, isenta os agricultores de custos com adubação nitrogenada e garante benefícios ambientais para toda a sociedade. Na safra 2024/2025, cerca de 64% dos produtores paranaenses consultados afirmaram ter utilizado inoculante no cultivo da soja. A média de uso da coinoculação com Bradyrhizobium e Azospirillum foi de 28% no estado.
Impacto econômico e ambiental
Atualmente, 85% dos 47 milhões de hectares cultivados com soja no Brasil adotam a inoculação anual. A prática da coinoculação encontra-se em expansão e já beneficia aproximadamente 35% das áreas cultivadas com a leguminosa no país.
A pesquisadora Mariangela Hungria aponta que a inoculação e coinoculação da soja no Brasil, que dispensam o uso de fertilizantes nitrogenados, promoveram em 2024 uma economia estimada em US$ 25 bilhões. Além do benefício econômico, no mesmo ano o uso dessas bactérias ajudou a mitigar a emissão de mais de 260 milhões de toneladas de CO2 equivalente para a atmosfera.
