alimento como remedio_ITAL

Por Luis Madi

Quando o Ital e a Fiesp elaboraram, em 2010, o documento Brasil Food Trends 2020, identificamos cinco macrotendências para o setor de alimentos. A categoria “Saudabilidade e Bem-Estar” apareceu, à época, nas últimas posições na percepção do consumidor, enquanto “Conveniência e Praticidade” liderava.

Quinze anos depois, o cenário mudou de forma significativa. Hoje, saúde é – na minha avaliação – o principal eixo estratégico relacionado a alimentos.

Os conceitos “Food as Medicine” e “Food is Medicine” ganham espaço consistente na literatura científica, em debates regulatórios e na formulação de políticas públicas, especialmente nos Estados Unidos. A proposta central é integrar nutrição ao sistema de saúde, ampliando o papel da alimentação na prevenção e no manejo de doenças.

Publicações no BMJ (2020), na Nature Medicine (2022) e discussões recentes sobre a medicalização da nutrição (Revista de Saúde Coletiva, 2024) reforçam essa agenda.

Mas é importante fazer algumas distinções. Alimento não é medicamento. A literatura mais sólida posiciona o “Food is Medicine” como ferramenta de prevenção populacional, segurança nutricional e suporte terapêutico complementar, não como substituto de intervenções médicas. A matriz alimentar é complexa e seus efeitos são probabilísticos e dependem de padrão dietético, estilo de vida, contexto social e variabilidade biológica. Simplificações conceituais podem gerar ruído regulatório, promessas exageradas e insegurança para o setor.

Outro ponto sensível é o risco da medicalização excessiva da alimentação. Reduzir alimentos a nutrientes isolados ou a alegações funcionais ignora dimensões culturais, comportamentais e sociais da comida. Comer envolve prazer, identidade e convivência. Saúde não se constrói apenas com compostos bioativos, mas com padrões alimentares viáveis e sustentáveis no mundo real.

No Brasil, infelizmente, o debate ainda se concentra demasiadamente em ideologia e grau de processamento, e menos em valor nutricional efetivo, qualidade global da dieta e impacto metabólico real.

Processamento não é sinônimo de problema, é tecnologia. Pode ampliar segurança, acesso, estabilidade e até melhorar perfil nutricional quando bem direcionado. O foco deveria estar em densidade de nutrientes, composição, contexto de consumo e contribuição para a saúde pública, não em classificações simplificadas.

A revista Food Technology tem destacado que, quando alimento e medicina se aproximam, é fundamental evitar a contaminação política do debate. Como aconteceu no caso da elaboração do Guia Alimentar para a População Brasileira.

Nesse cenário, a indústria de alimentos, ingredientes e bebidas não é coadjuvante, é parte estruturante da solução.

Programas de “Food as Medicine” só terão impacto real com participação ativa do setor de ingredientes, alimentos e bebidas, especialmente em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Isso implica investir em ciência, reformulação baseada em evidência robusta, parcerias com universidades e diálogo técnico com o sistema de saúde.

Há uma oportunidade concreta de desenvolver produtos com maior valor nutricional, menor impacto ambiental e benefícios mensuráveis à saúde. Inclusive considerando a crescente evidência sobre a relação entre alimentação, microbiota e saúde mental.

Na minha visão, o caminho passa por:

  • Reforçar aspectos nutricionais com base científica sólida;
  • Integrar saúde física e mental ao debate alimentar;
  • Superar simplificações conceituais;
  • Trabalhar de forma colaborativa entre ciência, indústria e políticas públicas.

Inclusive, esse é o propósito do Projeto Comer Com Ciência do ITAL – Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital/Apta), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo.

A pergunta que deixo é estratégica: estamos prontos para tratar alimento como parte estruturante da saúde, com rigor científico, responsabilidade regulatória e maturidade técnica, e não apenas como tema ideológico?

Luis Madi é Coordenador da Plataforma de Inovação Tecnológica no ITAL

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