AgFunder Report 2025 Agri foodtech

Relatório da AgFunder mostra virada do setor: capital mais seletivo, upstream em alta e deeptech ganhando prioridade entre investidores

O setor global de tecnologia para alimentos e agricultura captou US$ 16,2 bilhões em 2025, praticamente estável em relação ao ano anterior — uma queda de apenas 3%. Mas os números gerais escondem uma transformação mais profunda: o dinheiro está mudando de rota. Saindo de plataformas de entrega e varejo digital, o capital migra para empresas com ciência sólida, modelos econômicos viáveis e trajetória real de receita.

É o retrato traçado pelo Global AgriFoodTech Investment Report 2026, publicado pela AgFunder, firma de venture capital especializada em deeptech para alimentos, agricultura e saúde planetária. O relatório analisa uma década de dados e inaugura este ano sua primeira seção dedicada a tendências de deeptech — dez páginas que revelam onde está o dinheiro mais inteligente do setor.

Upstream em alta: a volta do capital para a origem da cadeia

Startups upstream — aquelas que desenvolvem tecnologia para fazendas, produção de alimentos e sistemas biológicos — captaram US$ 9 bilhões em 2025, alta de 7% em relação a 2024. O avanço acontece mesmo com o número de rodadas caindo 12%, o que revela uma lógica clara: menos cheques, mas maiores e mais qualificados.

O financiamento upstream em estágio tardio e via dívida cresceu 73% no período, passando de US$ 2,2 bilhões para US$ 3,8 bilhões. Empresas como Chestnut Carbon, Cambrian Innovation e Inari protagonizaram grandes rodadas nessa fase. Na Europa, a francesa Ecorobotix levantou US$ 105 milhões em rodada Série D; na Coreia do Sul, a GINT fechou quase US$ 100 milhões em Série C.

O fim da era dos cheques bilionários para delivery

O maior negócio de 2025 foi a Série D da americana Wonder, que captou US$ 600 milhões. O valor impressiona, mas representa uma queda de 80% em relação ao maior aporte do setor em 2021. A contração reflete o esgotamento do modelo de crescimento a qualquer custo que dominou o período pré-pandemia e os anos seguintes.

Em 2021, o número de rodadas acima de US$ 100 milhões chegou a 95 — sendo 65 delas em empresas downstream, como as de entrega de alimentos. Em 2025, foram apenas 21, com distribuição mais equilibrada entre segmentos upstream e downstream. A eGrocery continua como categoria com maior volume de capital, com US$ 2,1 bilhões captados no ano, mas o número de negócios caiu 23%.

Deeptech: a vanguarda científica do agro

Uma das novidades do relatório deste ano é a análise dedicada ao segmento deeptech dentro do agrifoodtech. A AgFunder classifica como deeptech as empresas cuja vantagem competitiva central está enraizada em inovação científica ou de engenharia — biologia sintética, edição genética, novos materiais, sistemas físico-biológicos.

A participação do deeptech no total de negócios do setor subiu de 22% para 32% nos últimos dez anos. Em 2025, as categorias com maior concentração de negócios deeptech foram Ag Biotech (97% do volume por contagem de negócios), Farm Robotics (62%), Novel Farming Systems (46%) e Bioenergy & Biomaterials (45%).

Louisa Burwood-Taylor, CCO e diretora de inteligência da AgFunder, no relatório:

“O advento da IA agêntica, ao lado de avanços em biologia sintética, edição genética, descoberta molecular e sensoriamento avançado, está comprimindo ciclos de P&D que antes levavam uma década em prazos que os investidores conseguem financiar.”

Prêmio deeptech: quem paga mais e em qual estágio

Rodadas de deeptech em estágio seed fecham com prêmio de 78% sobre equivalentes não-deeptech, o que sinaliza apetite genuíno por empresas lideradas pela ciência nos estágios iniciais. Mas esse prêmio se dilui a partir da Série B, quando os investidores de crescimento passam a exigir receita comprovada.

O maior negócio deeptech de 2025 foi a rodada de US$ 144 milhões da Inari, empresa americana de edição genética. Nenhuma empresa deeptech ultrapassou US$ 200 milhões em uma única rodada — enquanto sete empresas não-deeptech superaram esse patamar. O motivo é racional: cinco das 33 empresas deeptech que levantaram mais de US$ 200 milhões entre 2019 e 2022 faliram completamente, todas nos segmentos de Novel Farming ou Innovative Food.

A revolução do P&D acelerada por IA e robótica

O relatório traz um especial sobre como a inteligência artificial e a automação estão reformulando o processo de descoberta científica no agro. A startup suíça Atinary é um dos exemplos destacados: sua plataforma combina IA com robótica em laboratórios autônomos que projetam, executam e analisam experimentos em ciclo fechado, 24 horas por dia.

Loïc Roch, cofundador e CTO da Atinary, ao relatório:

“Cientistas passam cerca de 80% do tempo otimizando coisas. Não há criação, não há criatividade — só refinamento. Cientistas deveriam passar 80% do tempo pensando em qual problema atacar e por quê, e deixar a máquina cuidar do resto.”

A Atinary trabalhou com a iniciativa SwissCat+ da ETH Zurich para identificar o melhor catalisador para converter dióxido de carbono em metanol. O processo que levaria cerca de 100 anos pelo caminho convencional foi concluído em seis semanas. Mais recentemente, a empresa desenvolveu com a ABB Robotics um laboratório autônomo capaz de rodar entre 200 e 400 experimentos por dia.

Renee Boerefijn, diretora sênior de P&D da Cargill, ao relatório:

“A IA encurta os ciclos de feedback — mas a expertise humana continua central para interpretar resultados e tomar decisões. A velocidade não vem apenas da automação, mas de uma melhor seleção, bases de dados mais sólidas e colaboração mais próxima entre clientes e a Cargill.”

Climate tech: recuperação puxada por grandes rodadas

O financiamento para empresas de clima dentro do agrifoodtech atingiu US$ 3,9 bilhões em 2025 — alta de 39% em relação ao ano anterior. A recuperação, porém, é concentrada em poucos grandes negócios: Chestnut Carbon (gestão de carbono), Cambrian Innovation (bioenergia), Tidal Vision (quitosana), Gestcompost (gestão de resíduos energéticos) e CH4T (biometano) — todos com rodadas acima de US$ 100 milhões.

Startups de climate tech fecham rodadas maiores do que as de não-climate tech em todas as fases de crescimento e dívida. A diferença é de 42% na fase de crescimento e de 50% no estágio tardio e dívida. Mas o prêmio mal aparece nos estágios iniciais, o que indica que o risco científico ainda pesa na precificação das rodadas seed.

Mapa global: quem sobe, quem cai

Os Estados Unidos seguem líderes com US$ 5,9 bilhões captados, mas registraram queda de 8%. A Índia vem em segundo com US$ 2,2 bilhões, também em recuo de 20%. Os destaques de crescimento ficam com China (+43%), Holanda (+44%), Coreia do Sul (+171%) e Austrália (+60%).

A África atingiu US$ 260 milhões em 2025, alta de 30%, com destaque para plataformas de marketplace agrícola e fintech conectando pequenos produtores a insumos e financiamento. O maior negócio do continente foi a rodada de dívida de US$ 80 milhões da BURN, empresa queniana de fogões eficientes.

Brasil: grande produtor, pequeno investido

Um dos pontos mais reveladores do relatório não está no que ele mostra — está no que ele omite. O Brasil, maior exportador mundial de soja, carne bovina, frango, açúcar e café, aparece de forma marginal no ranking global de investimentos em agrifoodtech. Em 2025, o país captou US$ 227,5 milhões — queda de 14% sobre o ano anterior — e ficou em segundo lugar entre os mercados em desenvolvimento da América Latina, distante dos volumes registrados por Índia, China e até países menores como Holanda e Austrália.

A ausência do Brasil no topo do ranking contrasta com seu peso na produção global de alimentos. O país responde por cerca de 10% das exportações agroalimentares mundiais e é peça-chave na segurança alimentar de dezenas de nações. O ecossistema de venture capital voltado ao agro, porém, enfrenta barreiras estruturais: escassez de capital de crescimento, dependência de subsídios públicos, dificuldade de acesso a mercados internacionais e ausência de grandes fundos especializados com tese exclusiva para o agrifoodtech brasileiro.

O único negócio brasileiro entre os dez maiores de mercados emergentes em 2025 foi uma rodada de dívida de US$ 64,8 milhões para uma empresa de bioenergy e biomateriais — segmento em que o país tem vantagem competitiva estrutural, dada a matriz energética renovável e a escala da indústria de cana-de-açúcar. Mas o potencial vai muito além desse nicho.

A América Latina como um todo captou menos de US$ 500 milhões em 2025 — número modesto para uma região que abriga dois dos maiores sistemas agroalimentares do mundo. A Colômbia surpreendeu com crescimento de 962% sobre uma base pequena, puxada por uma única rodada relevante. O Brasil, com toda a sua base produtiva, segue subrepresentado tanto na atração de capital internacional quanto na geração de startups deeptech com escala para competir globalmente.

O relatório da AgFunder sinaliza que o capital global está se tornando mais disciplinado e que as oportunidades no agrifoodtech continuam enormes. A afirmação vale como diagnóstico preciso para o Brasil. O país reúne as condições naturais, a escala produtiva e os problemas complexos que justificam investimento intensivo em ciência e tecnologia aplicadas ao agro. O que falta, segundo especialistas do setor, é a construção de um ecossistema mais robusto de capital de risco especializado — com paciência para os longos ciclos de P&D e capacidade de conectar os avanços científicos locais às cadeias globais de valor.

O desconto agrifoodtech: oportunidade para investidores

O relatório aponta uma diferença estrutural entre os valuation de rodadas no agrifoodtech e no setor de software americano. No estágio seed, o desconto é de 75%: a mediana do agrofood é de US$ 1 milhão contra US$ 4 milhões no software. Na Série A, a diferença cai para 42%, mas persiste em todas as fases até a Série D.

Para os investidores, isso representa uma vantagem real: mais participação por dólar investido, runway mais longo por rodada e menos capital necessário para atingir marcos significativos. O relatório questiona se o agrifoodtech está hoje onde o software empresarial estava há 15 anos — subcapitalizado em relação à oportunidade, com menos disputas em cada estágio.

Proteína alternativa: lições de uma década de erros e acertos

A seção sobre Innovative Food detalha os aprendizados do segmento de proteínas alternativas, que concentrou boa parte das falências entre 2023 e 2026. O analista Eugen Kaprov, da newsletter The New Bioeconomy, concluiu que a maioria dos fracassos não foi científica — foi financeira.

Eugen Kaprov, The New Bioeconomy, citado no relatório:

“As falências se dividem em incompatibilidades de financiamento, economia unitária quebrada, choques de infraestrutura e mercados que evaporaram. São falências de financiamento disfarçadas de falências tecnológicas.”

Empresas que levantaram recursos menores e acertaram a economia desde o início têm resultados diferentes. A Rebellyous Foods, que fabrica nuggets de origem vegetal, registrou crescimento de 30% em 2025. A JOYN Foods, com sua solução de carne blend que reduz custos para o foodservice, espera triplicar a receita este ano e atingir EBITDA positivo em 2027.

Previsões dos VCs para 2026

O relatório fecha com a visão de investidores sobre o que esperar do próximo ano. O tema dominante é a consolidação, a disciplina de capital e o papel crescente da IA agêntica na cadeia agroalimentar.

Rob Leclerc, AgFunder:

“Este vai ser o ano do agente de IA. Pode não chegar ao agtech por um a dois anos, mas está chegando, e vamos ver uma internet inteira para agentes — e isso vai desintermediar profundamente os canais comerciais tradicionais.”

Maarten Goossens, Anterra Capital:

“A IA está migrando de modelos para aplicações embarcadas em fluxos de trabalho, e o agrifood é um dos maiores conjuntos de oportunidades na ‘economia real’ onde os fluxos ainda estão subdigitalizados — o ROI é excepcionalmente tangível.”

Matilda Ho, Bits x Bites:

“O retorno da liquidez sistêmica, alimentado por políticas pró-crescimento e pelo suporte do ‘capital paciente’ estatal na China. Vemos este ano não apenas como uma recuperação, mas como uma transição para um ciclo de investimento mais resiliente e focado em saídas.”

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