Estudo da Embrapa mostra que adubos verdes a partir de girassol, nabo-forrageiro e níger oferecem recursos florais estratégicos em sistemas agroecológicos
O plantio consorciado de três adubos verdes — girassol, nabo-forrageiro e níger — garantiu um período contínuo de aproximadamente 123 dias de florescimento, assegurando oferta permanente de néctar e pólen para diferentes espécies de abelhas. A estratégia, testada em Jaguariúna (SP) pela Embrapa Meio Ambiente, confirmou que a diversidade de cultivos prolonga o calendário floral, um recurso essencial tanto para a meliponicultura quanto para a agricultura familiar que depende da polinização.
O estudo foi apresentado no 19º Congresso Interinstitucional de Iniciação Científica – CIIC 2025, realizado em agosto de 2025, recebendo menção honrosa pela relevância dos resultados para sistemas agroecológicos.
Sucessão floral sem lacunas
André Barbosa, bolsista da Embrapa Meio Ambiente, explica os benefícios do consórcio.
“Estudos anteriores com outras espécies já haviam registrado resultado semelhante, reforçando que o consórcio é uma prática eficiente para ampliar a disponibilidade de flores em sistemas agroecológicos.”
Embora cada espécie tenha mantido a mesma duração de floração em cultivos solteiros ou em consórcio, a combinação das três culturas possibilitou sucessão estável de recursos, eliminando lacunas de oferta ao longo dos mais de quatro meses.
Diferenças na intensidade de floração
O pesquisador destaca as características de cada cultivo.
“Entre os adubos avaliados, o nabo-forrageiro foi o que apresentou maior número de flores por área no pico da floração, enquanto o girassol teve a menor oferta. Mesmo sem sobreposição entre os períodos de maior florescimento das três culturas — o que impossibilitou comparações simultâneas de atratividade —, foram registradas diferenças marcantes na intensidade de visitação dos polinizadores.”
Preferências dos polinizadores
O nabo-forrageiro atraiu principalmente abelhas-sem-ferrão (ASF), como jataís, mirins e iraís, criadas em meliponários da Embrapa Meio Ambiente. O níger também se destacou, sobretudo pela forte presença da mandaguari, ASF abundante na região, observada coletando pólen e néctar em alta frequência. Essa interação foi registrada pela primeira vez em estudo sistemático no Brasil, reforçando a importância do níger para a meliponicultura.
Na Etiópia, o níger já é considerado uma das plantas apícolas mais relevantes, reconhecida pela oferta abundante de néctar e pólen. No Brasil, análises de mel de Scaptotrigona postica já identificaram pólen da espécie em amostras de Mogi Guaçu (SP). A confirmação de sua atratividade para mandaguari em Jaguariúna amplia as evidências do potencial da planta como recurso estratégico para abelhas nativas.
Já o girassol foi o cultivo mais procurado pela abelha africanizada (Apis mellifera), espécie exótica com colônias silvestres comuns na região. Essa diferenciação no comportamento dos polinizadores mostra que a diversidade de adubos verdes favorece distintos grupos de abelhas, aumentando a resiliência dos sistemas agrícolas.
Ganhos ambientais e produtivos
Joel Queiroga, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e orientador de Barbosa, destaca os benefícios múltiplos dos adubos verdes.
“O girassol, por exemplo, cicla nutrientes das camadas profundas do solo e estimula fungos benéficos. O nabo-forrageiro contribui para a ciclagem de nitrogênio e potássio e apresenta rápida decomposição. O níger, mesmo sendo de inverno, adaptou-se bem ao cultivo de verão, florescendo justamente em abril e maio — período de escassez natural de flores na região.”

Estratégia multifuncional
Para agricultores familiares e meliponicultores, o consórcio desses adubos verdes representa uma estratégia multifuncional: amplia recursos florais para abelhas, melhora a qualidade do solo, reduz plantas espontâneas, aumenta a infiltração de água e fortalece a biodiversidade.
Na prática, garante mais alimento para polinizadores, mais segurança para a produção agrícola e mais resiliência frente às mudanças climáticas.
Polinização na prática: o caso Rasip Agro
A importância da polinização por abelhas ganha contornos práticos em experiências como a da Rasip Agro, unidade da RAR Agro & Indústria e uma das maiores produtoras de maçãs do Brasil. Para a safra 2025, a empresa investiu no aluguel de 300 milhões de abelhas para atuar na polinização de 1,5 mil hectares de pomares. Foram distribuídas mais de 5,5 mil caixas ninho, com cerca de cinco colmeias de abelhas da espécie Apis mellifera por hectare.

Sergio Martins Barbosa, presidente executivo da RAR Agro & Indústria, destaca o compromisso com práticas agrícolas de excelência.
“Investimos no último ano na expansão de nossos pomares, com um aumento de 10% em relação a 2024, a polinização é fundamental para a qualidade e produtividade e a decisão de investir em um número expressivo de abelhas reflete nossa visão de longo prazo. Queremos garantir não apenas altos índices de produção, mas também frutos com padrão superior, que consolida a Rasip Agro como referência nacional e internacional em maçãs de qualidade.”
Celso Zancan, diretor da Rasip Agro e engenheiro agrônomo, explica o papel das abelhas no processo produtivo.
“Essa interação natural resulta em frutos mais uniformes, com melhor qualidade e maior valor agregado. O investimento garante eficiência e sustentabilidade ao manejo dos pomares.”
As abelhas desempenham papel essencial no processo de polinização, aumentando o pegamento das flores e influenciando diretamente na formação e no calibre das maçãs. O ciclo de florescimento das macieiras, que teve início na segunda quinzena de setembro, é considerado um dos períodos mais importantes do processo produtivo.
A empresa também ampliou em 20% suas áreas de cultivo em relação ao mesmo período do ano anterior, o que fortalece sua posição no mercado. A expansão dos pomares e o uso de tecnologias sustentáveis, como a polinização com abelhas, evidenciam o compromisso da Rasip em manter sua liderança no mercado e promover o desenvolvimento da região de Vacaria.
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