Mercado global movimenta US$ 184 bilhões e abre espaço para o país, enquanto exportações de tilápia sobem 32% em setembro
O pescado ganha espaço no prato e no comércio mundial. O consumo global chegou a 21,3 quilos por pessoa ao ano, segundo o relatório SOFIA 2026, da FAO. No Brasil, o indicador é de 12,6 quilos, conforme o Anuário Seafood Brasil, e segue em crescimento.
Os números foram apresentados em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (14) por Ricardo Torres, head de portfólio da Seafood Show Latin America. A quinta edição da maior plataforma de negócios do pescado da América Latina acontece de 20 a 22 de outubro, no Distrito Anhembi, em São Paulo.
O cenário, porém, tem dois lados. Enquanto a produção e as vendas avançam, o produtor de tilápia enfrenta custos maiores com alimentação e a concorrência de pescado importado. Dados da Embrapa, apresentados em reunião da PEIXE BR, mostram esse contraste.
Aquicultura supera 100 milhões de toneladas no mundo
A FAO calcula que a produção mundial de animais aquáticos e algas atingiu 235 milhões de toneladas. Desse total, 195 milhões correspondem a animais aquáticos. Pela primeira vez, a aquicultura ultrapassou 100 milhões de toneladas, enquanto a pesca extrativa ficou relativamente estável.
O comércio internacional desses produtos movimentou US$ 184 bilhões, de acordo com a mesma estimativa. A pesca esbarra na disponibilidade dos estoques e nas condições ambientais, o que dá à aquicultura o papel de sustentar o crescimento da oferta.
Para Torres, essa conexão entre países e compradores favorece quem souber se posicionar. O executivo avalia que a criação em cativeiro traz previsibilidade ao abastecimento e que a demanda em alta cria novas frentes de negócio:
“O mercado de pescado é global e interconectado. A produção, o consumo e o comércio dependem de relações entre países, fornecedores e compradores, e o Brasil tem condições de ampliar sua participação nesse cenário. A aquicultura vem contribuindo para dar mais estabilidade à oferta, enquanto o crescimento da demanda abre espaço para novos produtos, investimentos e negócios.”
Tilápia lidera a produção, e importação completa a oferta
No mercado interno, a produção de peixes de cultivo atingiu 1,011 milhão de toneladas em 2025, segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, da PEIXE BR. A alta foi de 4,41% sobre o ano anterior. A tilápia respondeu por 707.495 toneladas, cerca de 70% do total.
O levantamento inclui ainda espécies nativas, como tambaqui e pirarucu. Mesmo com a expansão, a oferta nas gôndolas e nos cardápios depende também da pesca extrativa e das importações. O Chile fornece salmão, e Vietnã, Argentina e Equador aparecem entre os demais fornecedores.
Segundo Torres, a combinação entre produção local e comércio exterior define o ritmo do setor. O head de portfólio da Seafood Show Latin America afirma que as empresas precisam atuar nas duas frentes ao mesmo tempo:
“O Brasil está se consolidando como um produtor relevante, mas também é um grande mercado consumidor. Para crescer, as empresas precisam olhar para os dois lados: desenvolver a produção nacional e, ao mesmo tempo, estabelecer relações comerciais capazes de garantir variedade, regularidade e competitividade na oferta.”
Exportação reage, mas preço médio recua
Nos embarques, os Estados Unidos seguem como mercado relevante para filés frescos de tilápia, lagosta e pargo. A China compra pescada-amarela, lagosta e bexiga natatória, com participação importante de fornecedores do Pará. Esse fluxo sofreu com as tarifas americanas do ano passado.
No primeiro trimestre deste ano, a receita de exportação de pescado caiu 39%, e o volume recuou 41%. A isenção posterior de produtos como filés frescos e tilápia inteira ajudou a recompor a competitividade. A Abipesca projeta retomada, com expectativa de cerca de US$ 600 milhões.
Em setembro, as exportações de tilápia subiram aproximadamente 32% e chegaram a 852 toneladas, ante 646 toneladas em agosto. A receita avançou de US$ 3,51 milhões para US$ 3,68 milhões. Ou seja, o volume cresceu bem mais que o faturamento.
Um cálculo da redação com base nesses números indica que o valor médio por quilo embarcado passou de cerca de US$ 5,43 para US$ 4,32, queda próxima de 20%. A diferença pode refletir a mistura de produtos exportados, mas merece atenção do setor.
Ração cara e importação do Vietnã apertam a rentabilidade
O Cepea/Esalq-USP registrou relativa estabilidade nos preços pagos ao produtor em setembro. A exceção foi o Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (MG), com queda de 2,29%, para R$ 9,38 por quilo. No Norte do Paraná, o recuo foi de 0,59%, e em Morada Nova de Minas (MG), de 0,75%.
No atacado de filé congelado, a demanda ficou retraída, e os preços caíram em São Paulo e Minas Gerais. As indústrias lidam com margens apertadas, dificuldade de repassar reajustes e forte concorrência no varejo.
Do lado dos custos, a valorização do milho e do farelo de soja encarece a ração. O poder de compra do produtor frente à ração com 32% de proteína caiu pelo terceiro mês seguido. Menores preços recebidos pela tilápia e alimentação mais cara explicam o movimento.
As importações de tilápia do Vietnã também cresceram: cerca de 1.324 toneladas em setembro, alta de 11% sobre agosto, com destaque para São Paulo. O preço médio subiu a US$ 4,35 por quilo, acima da média de US$ 4,14 entre janeiro e setembro.
Diante desse quadro, o presidente da PEIXE BR, Francisco Medeiros, indica que a associação mantém o monitoramento do tema. Ele afirma que a entidade acompanha as questões comerciais e regulatórias e busca caminhos para fortalecer o produto nacional:
“Diante desse cenário, a PEIXE BR segue acompanhando as questões comerciais e regulatórias relacionadas às importações e buscando alternativas para ampliar a competitividade da tilápia brasileira.”
Varejo cresce acima do setor, e food service precisa reduzir perdas
O varejo é um dos motores da categoria. Segundo o Ranking ABRAS 2025, o faturamento das peixarias dos supermercados respondentes passou de R$ 4,44 bilhões, em 2020, para R$ 12,33 bilhões, em 2024. A alta foi de 178%, contra 48,3% do setor supermercadista como um todo.
No food service, o desafio está na eficiência. O Raio-X do Pescado no Food Service do Brasil 2026–2027, da Seafood Brasil em parceria com a American Seafoods, apontou que 43% das operações consultadas perdem mais de 12% do pescado comprado.
Para Torres, resolver gargalos práticos é parte da expansão do consumo. Ele destaca que varejo e restaurantes têm frentes diferentes de trabalho, e que a aproximação entre fornecedores e compradores acelera os negócios:
“A expansão do consumo depende também de resolver questões práticas do mercado. No varejo, há espaço para ampliar a oferta e diversificar os formatos de produtos. No food service, rendimento, padronização e controle de perdas são fundamentais para a rentabilidade. Aproximar fornecedores e compradores é uma forma de acelerar essas conexões e transformar oportunidades em negócios.”
