dia nacional abelhas

Estado paulista reúne 261 mil colmeias e vê controles sanitários aprovados pela UE; no Rio Grande do Sul, projeto leva soja e apicultura ao mesmo território

Neste sábado (3), o Brasil celebra o Dia Nacional da Abelha. A data lembra que esses insetos, ao transportar pólen entre as flores, sustentam a reprodução das plantas, a produtividade agrícola e a conservação da biodiversidade.

Em São Paulo, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) atua em várias frentes para proteger as abelhas. Pesquisas da Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA) e o trabalho da Defesa Agropecuária compõem o conjunto de ações, que inclui vigilância, fiscalização, rastreabilidade e orientação aos produtores.

A atividade também tem peso econômico. Segundo a série histórica da Pesquisa da Pecuária Municipal, do IBGE, o valor da produção de mel no estado superou R$ 100 milhões em 2025. Mais ao sul, no Pampa gaúcho, uma iniciativa da indústria mostra outro caminho: lavouras de soja e colmeias dividindo o mesmo espaço.

Uma cadeia com mais de 261 mil colmeias

O estado soma 1.884 apiários, com 234.090 colmeias, e 1.121 meliponários, com 27.347 colmeias. Os apiários concentram a criação de abelhas do gênero Apis, enquanto os meliponários reúnem espécies nativas sem ferrão.

Juntas, as duas modalidades chegam a 261.437 colmeias. O número mostra a dimensão da atividade e a importância do acompanhamento sanitário e do apoio técnico aos criadores.

Própolis, geleia real, pólen apícola e cera completam a oferta e abastecem as indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética.

Vigilância sanitária e apoio ao produtor

A saúde das colmeias é uma das bases da atividade. Por meio do Programa Estadual da Saúde das Abelhas (PESAb), a Defesa Agropecuária monitora doenças e pragas que afetam tanto as abelhas Apis quanto as espécies nativas sem ferrão.

O trabalho inclui vistorias em apiários e meliponários, análise de dados epidemiológicos e acompanhamento das condições sanitárias. Essas informações orientam medidas de prevenção e controle, o que protege as colmeias e a qualidade dos produtos.

O programa também cadastra produtores e propriedades e define critérios sanitários para o trânsito de abelhas, colmeias, produtos e materiais apícolas. Outra atribuição é reduzir os riscos do uso de agrotóxicos em áreas de alimentação das abelhas e no entorno.

A educação sanitária completa o pacote. As orientações chegam a apicultores, meliponicultores, associações e entidades do setor, para prevenir problemas e manter a regularidade da atividade.

Inspeção na cadeia do mel

O Serviço de Inspeção de São Paulo (SISP) tem 57 unidades de beneficiamento de produtos das abelhas registradas na modalidade industrial. Na modalidade artesanal, são 333 estabelecimentos registrados em diferentes cadeias produtivas.

Desse total, 30 se dedicam ao mel e aos produtos apícolas. Há ainda uma unidade que trabalha com ovos e mel.

Controles sanitários e acesso ao mercado europeu

O trabalho paulista também ajuda a demonstrar a qualidade dos controles brasileiros aos mercados internacionais. Em 31 de agosto, durante missão da União Europeia na região de Ribeirão Preto, a Defesa Agropecuária apresentou as ações do estado na cadeia do mel.

Foram mostradas a vigilância ativa nos apiários desde 2023, os registros auditáveis de cadastro dos produtores e os mecanismos de rastreabilidade. Também entraram na demonstração os controles sobre o uso de antimicrobianos e a educação sanitária junto aos criadores.

A etapa paulista integrou uma auditoria nacional realizada entre 24 de agosto e 4 de setembro, com avaliações nas cadeias de mel e carne de aves. O relatório final europeu, divulgado em 28 de setembro, considerou satisfatórios os controles brasileiros.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o resultado representa um avanço para a retomada das exportações ao bloco. Naquela atualização, a retomada ainda dependia do cumprimento das etapas administrativas europeias.

Pesquisa para produzir e conservar

Enquanto a Defesa Agropecuária acompanha as condições sanitárias, a pesquisa paulista busca ampliar o conhecimento sobre as abelhas, aperfeiçoar o manejo e conservar espécies essenciais aos ecossistemas.

Na APTA Regional de Monte Alegre do Sul, um projeto avaliou a instalação de apiários com abelhas Apis mellifera. O objetivo foi investigar o potencial apícola da região, já que havia poucas informações sobre o desempenho da atividade no município.

Para o pesquisador científico e coordenador da APTA Regional, Daniel Gomes, gerar informação técnica é fundamental para fortalecer a atividade e ampliar oportunidades aos produtores rurais. Ele relaciona o estudo ao conhecimento sobre os recursos florais ao longo do ano:

“O trabalho também contribui para a compreensão da disponibilidade de recursos florais ao longo do ano e para o desenvolvimento sustentável da apicultura paulista.”

Em Brotas, outra frente de pesquisa e extensão se dedica às abelhas nativas sem ferrão. A iniciativa promove a meliponicultura sustentável e associa conservação ambiental, educação e geração de renda, com capacitações teóricas e práticas sobre criação racional.

Coordenado pela pesquisadora científica Carla Cachoni Pizzolante, o projeto reúne instituições de pesquisa, órgãos de assistência técnica, produtores e especialistas. Ao explicar a proposta, ela resume o propósito da iniciativa:

“O objetivo é fortalecer a conservação das abelhas nativas, incentivar sua criação de forma responsável e valorizar o potencial socioeconômico da atividade.”

Já em Piracicaba, a pesquisadora científica Maria Imaculada Zucchi investiga a diversidade genética da abelha jataí (Tetragonisca angustula) em áreas restauradas e fragmentos naturais da Mata Atlântica. O estudo busca subsidiar a conservação dessas populações e a recuperação ambiental. Sobre o foco da pesquisa, Zucchi afirma:

“O projeto busca compreender como essas populações se comportam geneticamente em ambientes restaurados, contribuindo para ações de conservação e para a manutenção dos serviços ecossistêmicos de polinização.”

Diagnóstico e investigação da mortalidade de abelhas

A proteção das abelhas envolve conservar habitats, observar o clima, prevenir doenças e adotar boas práticas no uso de defensivos agrícolas. Nesse contexto, o Instituto Biológico (IB) faz pesquisas e oferece suporte laboratorial à defesa sanitária.

A pedido da Defesa Agropecuária, o IB analisa abelhas mortas em busca de resíduos de pesticidas. Os resultados ajudam a avaliar possíveis relações entre a mortalidade e a exposição a esses produtos, e apoiam a fiscalização e a orientação sobre o uso responsável. O Laboratório de Ecologia de Agroquímicos participa dessa investigação.

Em Pindamonhangaba, o Instituto mantém o Serviço Laboratorial Regional de Pesquisa em Sanidade Apícola. A unidade se dedica à criação e ao manejo de abelhas Apis mellifera africanizadas, com foco na saúde das colmeias e no desempenho produtivo.

O serviço diagnostica vírus, fungos, bactérias e parasitas que afetam as abelhas. Os resultados de suas pesquisas saem em revistas científicas e técnicas e são usados por produtores de várias regiões do Brasil e de outros países.

Abelhas no meio da metrópole

A criação de abelhas também está presente na maior cidade do país. O município de São Paulo tem 10 apiários, com 193 colmeias, e 141 meliponários, com 2.257 colmeias. Ao todo, são 2.450 colmeias na capital, com destaque para as abelhas nativas sem ferrão.

No cafezal urbano do Instituto Biológico, a pesquisa com polinizadores ocorre em um espaço experimental de agricultura regenerativa. Ali são testados manejo sustentável do solo e incentivo à biodiversidade, e os pesquisadores acompanham a diversidade de abelhas.

O monitoramento identificou, além de Apis mellifera, abelhas de oito gêneros. Os estudos buscam entender como as práticas de manejo favorecem esses polinizadores e como sua presença pode contribuir para a produtividade e a qualidade do café.

Soja e apicultura na mesma área, no Pampa gaúcho

A importância dos polinizadores ultrapassa as fronteiras paulistas. Segundo a Organização das Nações Unidas, 75% das plantações de alimentos do mundo, além de 35% da terra agricultável do planeta, dependem de polinizadores como as abelhas.

Nesse contexto, a BASF Soluções para Agricultura Brasil desenvolve no Pampa gaúcho o Projeto Coexistência entre Agricultura e Apicultura – Mel de Florada de Soja. A proposta é demonstrar que a oleaginosa e a apicultura podem dividir o território com boas práticas, manejo adequado e diálogo contínuo entre produtores e apicultores.

Durante a floração, as lavouras funcionaram como fonte complementar de alimento para as abelhas. Na safra 2025/26, 23 apicultores participantes extraíram cerca de 36 mil quilos de mel de florada de soja, volume 44% maior que o da safra anterior.

Segundo a empresa, os agricultores envolvidos também relataram benefícios produtivos associados à maior presença de polinizadores nas áreas de cultivo.

Para Maurício do Carmo Fernandes, gerente de Stewardship e Sustentabilidade da BASF Soluções para Agricultura Brasil, a experiência reforça que produtividade e conservação caminham juntas. Ele destaca o papel do trabalho integrado entre os dois setores:

“Quando agricultores e apicultores trabalham de forma integrada, com boas práticas e diálogo permanente, todos ganham e a experiência da safra 2025/26 só reforça isso.”

Plantio de 5 mil mudas nativas em São Gabriel

Para celebrar os resultados da safra, a BASF, a Fundação Eco+, a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e a Associação de Produtores Agroecológicos Pachamama (APACHA) plantaram cerca de 5 mil mudas de espécies nativas em agosto. A ação ocorreu no Distrito de Catuçaba, em São Gabriel (RS).

A mobilização reuniu agricultores, apicultores, pesquisadores, estudantes, moradores locais, voluntários e o 6º Batalhão de Engenharia do Exército. O trabalho de restauração abrangeu cerca de 2,5 hectares, incluindo Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reserva Legal e outras áreas estratégicas.

O objetivo é ampliar a oferta de recursos florais para abelhas e outros polinizadores, além de fortalecer a biodiversidade e a resiliência das paisagens agrícolas. O plantio também busca alimentar as colmeias durante a entressafra da soja.

Foram 27 espécies, escolhidas pela importância ecológica e pela capacidade de estender a oferta de flores ao longo do ano. Entre elas estão pitangueira, guabiju, guabiroba, canafístula, timbaúva, aroeira-vermelha, araucária, angico-vermelho, ingás e ipês nas cores amarela, branca, rosa e roxa.

Para Tiago Egydio Barreto, gerente de Sustentabilidade da Fundação Eco+, o mutirão mostrou o valor de construir a recuperação ambiental em conjunto com a comunidade. Ele define o significado da ação:

“É um legado ambiental e social deixado para as próximas gerações.”

A iniciativa também reuniu o meio acadêmico. Na avaliação do professor André Carlos Cruz Copetti, da Unipampa, a presença da universidade aproxima a ciência das necessidades do campo e promove extensão e educação ambiental. Ele resume a contribuição:

“É um exemplo de como ciência, conservação e produção agrícola podem avançar juntas em benefício da comunidade.”

O plantio atingiu a reserva Floresta de Artemís, em área de transição entre a Mata Atlântica e o Pampa. Felipe Biernaski, dirigente da APACHA, vê na recuperação um compromisso com os ecossistemas e com o futuro de quem vive e produz na região:

“Ver diferentes instituições e a comunidade trabalhando juntas mostra a potência dessa iniciativa.”

Pampa perde campos nativos

A recuperação ganha urgência diante dos desafios do bioma. Dados do MapBiomas mostram que os campos nativos do Pampa brasileiro passaram de 9,8 milhões de hectares, em 1985, para 5,9 milhões de hectares em 2024. A queda é de 40% no período.

Nesse cenário, práticas de recuperação ajudam a ampliar a conectividade entre fragmentos verdes e proteger recursos hídricos. Também favorecem a fauna e preservam serviços ecossistêmicos essenciais para o agronegócio.

Reconhecimento e continuidade na safra 2026/27

O compromisso foi reconhecido no 4º Encontro Abelheiro, realizado em Carazinho (RS) no fim de setembro. Maurício Fernandes recebeu o troféu Guardiões da Apicultura em nome da companhia, pela contribuição ao fortalecimento da atividade apícola na região.

O projeto terá continuidade na safra 2026/27, com a expectativa de engajar mais produtores e apicultores e consolidar um modelo colaborativo que inspire outras regiões. A iniciativa integra o programa global Starting Ventures, da BASF, voltado a modelos de negócios com saldo positivo nos pilares econômico, social e ambiental.

As ações seguem ainda a cartilha Boas Práticas para Integração entre Apicultura e Sojicultura, lançada pela BASF em colaboração com a Embrapa e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

Planeta Inseto: conhecer para proteger

A educação ambiental aproxima a população desse universo. No Museu do Instituto Biológico, em São Paulo, a exposição permanente Planeta Inseto permite observar as abelhas e entender sua importância para o ambiente e para a produção de alimentos.

Uma das atrações é o Recanto das Abelhas, com uma colônia de iraí, espécie nativa sem ferrão. Câmeras em uma sala especial mostram ao vivo a organização e o funcionamento da colônia.

Nas espécies sociais, a divisão de tarefas mantém a comunidade. A rainha põe os ovos, e as operárias cuidam das larvas, defendem a colônia e coletam néctar e pólen. Os machos, chamados de zangões nas abelhas Apis, participam da reprodução.

A visitação é gratuita, de terça a domingo, das 9h às 16h. O museu fica na Avenida Dr. Dante Pazzanese, 64, na Vila Mariana, em São Paulo.

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