Painel reuniu representantes do Brasil e da Argentina para debater custos, excesso de oferta, clima e os desafios da integração regional
O principal risco para o agronegócio do Mercosul pode estar menos na concorrência externa do que na dificuldade de os países do bloco atuarem de forma coordenada. Essa foi uma das conclusões do painel “Mercosul no cenário global: estratégias para manter a competitividade e a produtividade”, realizado nesta quinta-feira (1º) durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), em São Paulo.
O debate teve moderação de Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho. Participaram Bernhard Kiep, diretor da Abramilho e membro do conselho da Maizall; Federico Zerboni, presidente da Maizar; e Maciel Silva, diretor técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Dados da CNA indicam que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária brasileira deve recuar 4% em 2026, para R$ 1,45 trilhão. No caso do milho, a queda projetada é de 6,1%, reflexo principalmente da desvalorização dos preços reais.
Estoques elevados e demanda fraca prolongam a pressão sobre preços
Para Bernhard Kiep, o ambiente macroeconômico internacional ficou mais complexo justamente quando a rentabilidade do produtor está sob pressão. Ele avalia que estoques altos, somados a uma demanda insuficiente, reduzem o incentivo à produção e prolongam o período de preços achatados. Ao descrever esse quadro, o diretor da Abramilho afirmou:
“Os desafios para o agronegócio são muito grandes. O mundo não está olhando muito para o agronegócio porque a gente acabou produzindo talvez além da demanda nos últimos anos. Isso gerou estoques.”
Os custos de produção também entraram na conta. Kiep citou o preço do diesel na Europa como exemplo da pressão enfrentada pelo setor. Em seguida, ao tratar do Mercosul, defendeu que Brasil, Argentina e Uruguai evitem disputas internas e construam uma estratégia conjunta para negociar com mercados mais organizados. Na visão do executivo, o bloco ainda tem uma lição de casa a cumprir:
“Nós, argentinos, uruguaios, brasileiros, temos que tomar cuidado em não brigar entre nós, e sim nos unir. Esse é o maior desafio que eu vejo para o Mercosul, porque nós não temos um histórico de nos unir e pensar em bloco. É muito fácil nos dividir.”
Segundo Kiep, a integração europeia criou ao longo de décadas mecanismos de coordenação que os países do Mercosul ainda precisam desenvolver. O acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, em aplicação provisória desde maio de 2026, define regras de tratamento tarifário preferencial, origem dos produtos e outras condições de acesso aos mercados.
Argentina enfrenta custos altos e busca virada econômica
Federico Zerboni apresentou um panorama da agricultura argentina e destacou o peso da estrutura tributária sobre a renda dos produtores. Em sua avaliação, o país ainda convive com impostos de exportação e custos elevados. No caso da soja, segundo ele, os tributos ficam com parcela significativa do valor recebido pelo produtor. Pela estimativa do presidente da Maizar, o governo argentino retém mais de 60% do rendimento da atividade.
Ao mesmo tempo, Zerboni apontou sinais positivos na economia argentina. Ele citou a expansão da produção de energia em Vaca Muerta e da mineração, que podem ampliar a entrada de dólares no país. Para o campo, porém, a eficiência segue como fator decisivo, como ressaltou o dirigente:
“O que te faz sobreviver é seres muito eficiente. Sobrevive quem tem a melhor tecnologia, quem usa a melhor inovação e quem é mais eficiente.”
O presidente da Maizar também alertou para riscos climáticos e sanitários na próxima temporada. Entre eles estão o comportamento das chuvas, a influência do El Niño e a presença da cigarrinha-do-milho, praga que ganhou importância nos últimos anos com a elevação das temperaturas.
Crédito e custos deixam o produtor brasileiro exposto
Maciel Silva, da CNA, afirmou que o produtor brasileiro continua em um ambiente de incerteza. As medidas estruturais surtem efeito no médio e no longo prazo, enquanto os problemas de renda e de custo são imediatos. Para o diretor técnico adjunto da entidade, o setor ainda depende mais de ações de socorro do que de decisões planejadas:
“O que nos cabe ainda fica muito na mão. É muito mais pensando nas medidas de socorro do que tomadas de decisão estruturada.”
Silva avalia que alternativas como fertilizantes e produtos biológicos fazem parte de uma agenda necessária para o futuro, mas não resolvem a pressão sobre a safra atual. Na mesma linha, citou o Profet como opção de crédito que, na avaliação da CNA, ainda tem limitações para gerar efeitos imediatos. Segundo ele, a incerteza econômica e institucional também dificulta as decisões de investimento dos produtores.
Competitividade depende de coordenação
As falas convergiram para um ponto central. A competitividade do agronegócio sul-americano dependerá não só da produtividade dentro das propriedades, mas da capacidade de os países do Mercosul coordenarem interesses, reduzirem vulnerabilidades e negociarem em conjunto.
O desafio ganha peso com a aplicação provisória do acordo entre Mercosul e União Europeia e com a manutenção de padrões sanitários e fitossanitários exigentes para acessar o mercado europeu. Kiep defendeu que o bloco acelere essa construção, e encerrou com um alerta sobre o prazo disponível:
“Nós não vamos ter quase 30 anos, como a Europa teve, já de treinar e trabalhar junto e apertar a gente.”
