Gilberto Tomazoni afirma que a indústria de alimentos vive uma mudança estrutural: da quantidade de proteína consumida para sua composição, digestibilidade e função no organismo
A proteína está deixando de ser medida só em gramas por porção. Essa foi a leitura apresentada por Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS, durante o Bradesco BBI Agro Summit, realizado em 10 de setembro em São Paulo. Para o executivo, o setor de alimentos entra em uma nova etapa, batizada de nutrição de precisão.
Ao lado de Pedro Fernandes, sócio da McKinsey & Company, e com moderação de Henrique Brustolin, do Bradesco BBI, Tomazoni descreveu uma transição que já reorganiza investimentos e portfólios dentro da companhia. A proteína, segundo ele, passa a ser avaliada por seu perfil de aminoácidos, sua capacidade de absorção e seu potencial funcional, não apenas pela quantidade ingerida.
O tema conecta consumo, ciência e estratégia industrial, e ajuda a explicar por que boa parte da indústria global de proteína animal vem redirecionando pesquisa e desenvolvimento para biotecnologia aplicada à nutrição.
O que muda na forma de olhar para a proteína
Tomazoni resumiu o raciocínio durante o painel, relacionando a mudança de consumo a uma redescoberta do papel da proteína na saúde:
“Nós vemos uma mudança estrutural que vai afetar tudo o que a gente entende como alimentação. Está acontecendo uma redescoberta da proteína como indutora de saúde. O consumidor não está olhando só proteína, mas o perfil de aminoácidos dessas proteínas.”
Essa leitura também apareceu no painel ao tratar da popularização dos medicamentos análogos de GLP-1 no Brasil. Para o executivo, o uso crescente desses medicamentos não cria uma demanda isolada, mas acelera um movimento mais amplo de atenção à composição nutricional dos alimentos, que já vinha ganhando força entre os consumidores.
Hidrólise e peptídeos bioativos entram no radar da indústria
Para acompanhar essa demanda, a JBS tem direcionado investimentos em biotecnologia, pesquisa e desenvolvimento voltados a transformar matérias-primas da própria cadeia produtiva em ingredientes de maior valor agregado. Entre os processos citados por Tomazoni estão a hidrólise proteica e a identificação de peptídeos bioativos, moléculas associadas a funções específicas no organismo.
Duas frentes internas sustentam essa estratégia: a JBS Biotech, centro de inovação em biotecnologia da companhia em Florianópolis, dedicado a ciência aplicada à cadeia produtiva, e a Genu-in, empresa da JBS Novos Negócios especializada em peptídeos de colágeno e gelatina. A Genu-in desenvolve ingredientes para alimentos, bebidas, suplementos e produtos funcionais, conectando pesquisa científica à escala industrial.
O interesse por peptídeos bioativos não é exclusividade da JBS. O Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), vinculado à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), estuda peptídeos derivados de proteínas do soro de leite há 21 anos.
Marcas já colocam a tese em prática
A estratégia de nutrição de precisão já aparece em produtos no mercado. Em setembro, a Genu-in forneceu o colágeno usado pela Mamba Water no lançamento da primeira água enlatada com proteína do Brasil, com 20g de colágeno de alta biodisponibilidade por lata. O caso ilustra como peptídeos desenvolvidos para funções específicas migram do laboratório para a gôndola.
Nos Estados Unidos, Tomazoni citou outro efeito da mudança de hábitos de consumo: a Just Bare, marca de frango da Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, atingiu US$ 1 bilhão em faturamento em menos de cinco anos, impulsionada pela demanda por frango fresco e congelado.
Produtividade como condição para escalar a inovação
Tomazoni fez questão de separar inovação nutricional de aumento de preço ao consumidor. Segundo ele, a expansão de alimentos mais nutritivos só se sustenta se vier acompanhada de ganhos de produtividade capazes de compensar o custo de pesquisa e desenvolvimento:
“Não dá para repassar custos para o consumidor sob a justificativa de sustentabilidade. A grande palavra é aumentar a produtividade com tecnologia, escala e inovação para reduzir custos.”
Segurança alimentar entra na mesma equação
O executivo também associou a agenda de nutrição de precisão a um tema mais amplo: a segurança alimentar global. Segundo ele, a pandemia levou diferentes países a tratar o abastecimento de alimentos como questão estratégica de Estado, e nem todos têm condições de se tornar autossuficientes.
Nesse cenário, Tomazoni voltou a defender o papel do Brasil como fornecedor complementar para mercados que dependem de importação. Para o CEO da JBS, a combinação entre capacidade produtiva do país e demanda global por proteínas mais nutritivas abre espaço para o Brasil ampliar sua relevância na cadeia internacional de alimentos.
