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Enquanto o Brasil reforça o crédito estruturado para blindar agroindústrias, Europa mostra os limites da adaptação climática no setor de alimentos

O El Niño pode levar um choque climático da lavoura direto ao caixa das agroindústrias na safra 2026/27. Dados de órgãos federais apontam que o fenômeno deve ganhar força ao longo do segundo semestre de 2026, justamente durante uma etapa decisiva para o plantio e o desenvolvimento das lavouras.

O tamanho potencial do choque ajuda a entender por que o risco deixa de ser apenas agrícola. Um episódio de intensidade muito forte pode reduzir em até 10% a produção brasileira de grãos. Considerando cerca de 320 milhões de toneladas de soja e milho estimadas para a safra 2025/26, o cenário equivaleria a 32 milhões de toneladas potencialmente afetadas — uma estimativa de risco, não uma previsão de perda efetiva.

O problema é que o El Niño não atinge o campo da mesma forma em todo o Brasil. Historicamente, o fenômeno está associado à redução das chuvas em áreas do Norte e Nordeste e ao aumento das precipitações no Sul.

Do campo para o caixa das agroindústrias

O primeiro impacto ocorre dentro da porteira, mas tende a se espalhar por toda a cadeia agroindustrial. Menor produtividade, atraso de colheita ou problemas de qualidade alteram o volume e o momento em que a matéria-prima chega às empresas que dependem da safra para manter suas operações.

No centro-norte do país, deficiência hídrica e temperaturas elevadas podem comprometer o desenvolvimento das culturas. No Sul, chuvas mais frequentes e volumosas elevam o risco de encharcamento do solo, doenças, dificuldades para entrada de máquinas e atrasos na colheita e no escoamento.

Para as agroindústrias, esses efeitos podem se traduzir em necessidade de reorganizar compras, estoques, contratos e entregas, além de pressionar o capital de giro. Priscila de Freitas, diretora de crédito da Multiplike, explica como esse desequilíbrio se propaga pela operação financeira das empresas.

“O choque começa na produção, mas não termina no campo. Se uma agroindústria recebe menos matéria-prima, recebe mais tarde ou precisa buscar produto em outra região, isso muda o fluxo financeiro da operação. O desafio é ter caixa para atravessar essa mudança sem comprometer fornecedores, estoque e compromissos já assumidos.”

Priscila de Freitas
Priscila de Freitas – Multiplike

Uma cadeia que já chega pressionada

O risco climático encontra uma cadeia produtiva pressionada financeiramente. O aumento do endividamento, das renegociações e das recuperações judiciais entre produtores tem levado instituições financeiras a adotar critérios mais rigorosos na concessão de crédito.

Esse ambiente pode ampliar os efeitos de uma eventual quebra de produção. Menos grãos disponíveis ou atrasos na entrega alteram os fluxos de recebimento e pagamento ao longo da cadeia, enquanto compradoras, armazenadoras, processadoras e distribuidoras precisam manter suas próprias obrigações mesmo diante de uma oferta mais irregular. O resultado é um descasamento potencial entre entrada de matéria-prima, geração de receita e necessidade de caixa.

Crédito estruturado como instrumento de antecipação

É nesse ponto que o crédito estruturado ganha relevância como ferramenta de gestão de risco, e não apenas de captação. Segundo Priscila, esperar o impacto aparecer no estoque ou no recebível reduz a margem de reação da empresa.

“Com um El Niño forte atravessando a formação da safra, a agroindústria precisa projetar não apenas quanto pretende comprar ou processar, mas o que acontece com seu caixa caso a matéria-prima chegue em menor volume, mais tarde ou a um custo diferente do esperado.”

Nesse tipo de operação, a estrutura de garantias pode combinar imóveis, recebíveis, contratos de venda, estoques e outros ativos, reduzindo a concentração do risco em uma única fonte de pagamento.

A Multiplike dispõe de R$ 6 bilhões para operações de crédito estruturado destinadas às agroindústrias em 2026. Em uma safra marcada pela possibilidade de choques climáticos distintos entre as regiões, a disponibilidade de capital passa a ser um dos instrumentos para administrar os efeitos financeiros que começam no campo e avançam sobre toda a cadeia.

O que o verão europeu revela sobre a falta de adaptação do setor

O cenário brasileiro não é um caso isolado. Na Europa, o verão de 2026 — o mais quente já registrado no continente — expôs de forma direta os limites da preparação do sistema alimentar diante do aquecimento global, em meio a um El Niño que chegou a apresentar 69% de chance de atingir proporções históricas. Para Matthieu Vincent, cofundador da consultoria de inovação DigitalFoodLab, o problema vai além do clima: é também uma questão de prioridade na agenda pública.

“O que mais me surpreende é como há pouca discussão séria sobre a falta de adaptação dos nossos sistemas agrícolas e alimentares. Quando alimentação e agricultura entram na conversa, quase sempre aparecem como vítimas, raramente como fonte de problemas que mereçam a mesma urgência dada a transporte, energia ou construção civil.”

O impacto direto sobre a pecuária ilustra esse descompasso. Na França, até três milhões de frangos de corte podem ter morrido durante a onda de calor no fim de junho, enquanto produtores de leite em diversos países europeus registraram queda na produção por causa do estresse térmico nos rebanhos. Na Suíça, chegou a ser necessário transportar água de helicóptero para abastecer o gado em áreas afetadas pela escassez hídrica.

Segundo Vincent, esses casos mostram os limites de respostas simplistas: sistemas de confinamento protegem os animais de parte das condições extremas, mas falhas no resfriamento podem ser catastróficas, enquanto a criação extensiva, apesar de oferecer mais espaço aos animais, expõe os rebanhos diretamente ao calor e à falta de água.

O especialista organiza as soluções de adaptação em três frentes: melhorias de baixa tecnologia, como ventilação e gestão hídrica; soluções de AgTech e FoodTech, incluindo raças mais tolerantes ao calor, culturas resilientes, uso de inteligência artificial na gestão da água e proteínas alternativas; e mudanças estruturais e culturais, da substituição de culturas ao debate sobre redução do consumo de proteína animal. Para ele, o obstáculo não é a falta de soluções, mas a preferência por alternativas que preservam o sistema atual, evitando mudanças mais profundas na produção e no consumo.

O newsletter da DigitalFoodLab também chama atenção para o papel do setor como parte do problema climático, não apenas como vítima dele. De acordo com dados da FAO citados por Vincent, os sistemas agroalimentares foram responsáveis por 32% das emissões globais de gases de efeito estufa de origem humana em 2023, com a pecuária como o maior componente isolado. Para o especialista, mitigação sem adaptação deixa o sistema alimentar exposto, enquanto adaptação sem mitigação apenas adia o problema.

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